Editorial: O Brasil não precisa de um ministro da Defesa que abra os portões

Editorial DefesaNet
O Brasil não precisa de um ministro da Defesa que abra os portões

As declarações do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmando que, em um hipotético conflito contra os Estados Unidos, a melhor opção seria “abrir o portão”, porque o Brasil “não tem equipamento nem dinheiro”, representam um dos momentos mais infelizes da história recente da pasta da Defesa.

Não se trata de discutir um cenário improvável ou de fazer comparações entre o poder militar brasileiro e o norte-americano. Essa comparação é irrelevante. Nenhum analista sério ignora a enorme superioridade militar dos Estados Unidos. O verdadeiro problema está em outra questão: qual mensagem o ministro da Defesa brasileiro transmite ao país, às suas Forças Armadas e ao restante do mundo?

A missão institucional do ministro da Defesa nunca foi explicar por que o Brasil não conseguiria se defender. Sua obrigação constitucional e política é exatamente a oposta: lutar para que o país tenha condições de defender sua soberania.

Quando o principal representante civil da Defesa afirma publicamente que não há meios para resistir, ele enfraquece a credibilidade internacional do Brasil, desmoraliza o trabalho das Forças Armadas e transmite uma perigosa imagem de resignação estratégica.

Nenhum ministro da Defesa de uma grande democracia faz esse tipo de declaração. Nos Estados Unidos, na França, no Reino Unido, em Israel, na Coreia do Sul, na Polônia ou na Finlândia, ministros reconhecem limitações orçamentárias, mas jamais sugerem que a melhor estratégia diante de uma agressão seria simplesmente render-se.

Na diplomacia e nas relações internacionais, percepção também é poder. A capacidade de dissuasão depende não apenas de tanques, navios, caças e mísseis, mas também da vontade política demonstrada por seus líderes. Países que transmitem fraqueza convidam aventureiros; países que demonstram determinação reduzem riscos.

As palavras do ministro ainda produzem outro efeito nocivo: passam a impressão de que as Forças Armadas brasileiras são entreguistas e incapazes de cumprir sua missão constitucional. Isso simplesmente não corresponde à realidade.

Mesmo convivendo com décadas de restrições orçamentárias, militares brasileiros patrulham mais de 16 mil quilômetros de fronteiras, protegem a Amazônia, fiscalizam a Amazônia Azul, participam de operações de garantia da lei e da ordem, atuam em missões humanitárias, apoiam a população em calamidades e mantêm permanente estado de prontidão. Fazem muito com poucos recursos.

O problema da Defesa brasileira não é a falta de profissionais competentes ou de planejamento. O problema é a ausência de prioridade política.

Nos últimos anos, diversos programas estratégicos foram adiados, contingenciados ou tiveram seus cronogramas estendidos. Projetos fundamentais para renovar blindados, sistemas antiaéreos, helicópteros, aeronaves, navios e meios de vigilância seguem sofrendo com limitações orçamentárias. Esse deveria ser o foco do Ministério da Defesa.

Cabe ao ministro sensibilizar o Presidente da República, convencer o Congresso Nacional, negociar recursos com a equipe econômica e demonstrar à sociedade que investir em defesa não é um luxo, mas um requisito básico de soberania.

O Brasil é a maior nação da América do Sul, possui uma das maiores economias do mundo, detém riquezas minerais estratégicas, uma imensa zona econômica exclusiva no Atlântico, vastas reservas de água doce, a Floresta Amazônica e uma posição geográfica e geopolítica de enorme relevância. Um país com essas características não pode transmitir ao mundo a ideia de que abriria os portões diante de qualquer ameaça.

Se faltam equipamentos, a resposta deve ser adquirir equipamentos. Se faltam recursos, a resposta deve ser buscar recursos. Se existem limitações, cabe ao ministro liderar sua superação, e não transformá-las em justificativa para um discurso de derrota.

A sociedade espera de um ministro da Defesa liderança, capacidade de articulação e compromisso com o fortalecimento das Forças Armadas. Espera alguém disposto a defender a instituição que representa, e não a reforçar publicamente sua vulnerabilidade.

Palavras têm consequências. Em assuntos de defesa nacional, elas podem fortalecer a dissuasão ou enfraquecê-la. Infelizmente, ao afirmar que a melhor estratégia seria “abrir o portão”, o ministro não apenas diminuiu a imagem do Ministério da Defesa; lançou dúvidas desnecessárias sobre a determinação do Estado brasileiro em cumprir o dever mais básico de qualquer nação: defender sua soberania e proteger seu povo.

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter