A proteção americana deixou de ser automática? Pentágono revê forças e Europa amplia espaço na OTAN

Enquanto Washington avalia diferentes configurações para suas tropas no continente, a eleição do general alemão Carsten Breuer para presidir o Comitê Militar da OTAN reforça a transferência gradual de responsabilidades aos europeus. A mudança de liderança, entretanto, não elimina a dependência de capacidades estratégicas norte-americanas.

Ricardo Fan – DefesaNet

A participação do general Alexus Grynkewich (foto capa), Comandante Supremo Aliado na Europa — SACEUR — em uma reunião do Pentágono sobre a revisão da presença militar dos Estados Unidos no continente representa mais do que uma etapa administrativa. O encontro confirma que Washington entrou na fase de formulação de alternativas para modificar a distribuição de suas forças, redefinir responsabilidades dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte e preservar meios militares para outros teatros considerados prioritários.

A revisão coincide com outro movimento significativo: a eleição do general alemão Carsten Breuer para presidir o Comitê Militar da OTAN, principal autoridade militar colegiada da Aliança. Embora os processos não estejam formalmente vinculados, ambos refletem a mesma transformação estratégica: os Estados Unidos procuram reduzir a parcela direta dos encargos europeus, enquanto as potências do continente assumem maior protagonismo na formulação das políticas de defesa.

Segundo informações obtidas pela Reuters, o Departamento de Defesa trabalha com pelo menos quatro conjuntos de opções para o secretário de Defesa Pete Hegseth. A revisão, anunciada em junho de 2026, poderá durar até seis meses e deverá envolver consultas ao Congresso, que estabeleceu limites legais para uma redução significativa do contingente norte-americano na Europa. Atualmente, aproximadamente 80 mil militares dos Estados Unidos encontram-se posicionados no continente. Reuters

Nenhuma retirada foi confirmada. Ainda assim, o processo indica uma mudança de natureza no compromisso transatlântico. A proteção oferecida pelos Estados Unidos deixa de ser tratada como garantia praticamente automática e passa a ser relacionada, de maneira mais explícita, ao investimento militar dos aliados, à disponibilidade de bases, à autorização de sobrevoos e ao alinhamento político com Washington.

Uma revisão que ultrapassa o número de soldados

A discussão pública tende a concentrar-se na quantidade de militares que poderá ser retirada. Essa abordagem, embora compreensível, oferece uma leitura incompleta da presença norte-americana.

Uma eventual redução de unidades terrestres teria efeito diferente da retirada de capacidades de inteligência, defesa aérea, reabastecimento em voo, transporte estratégico, comando e controle, logística, guerra eletrônica ou fogos de longo alcance. Em determinadas circunstâncias, a transferência de poucos milhares de especialistas, tripulantes e operadores poderia produzir consequências maiores do que a retirada de uma formação terrestre numericamente mais expressiva.

Os países europeus dispõem de condições econômicas e industriais para ampliar suas forças convencionais. Entretanto, continuam dependentes dos Estados Unidos em capacidades que exigem investimentos prolongados, integração tecnológica, grandes estoques e experiência operacional. Essa dependência permanece particularmente visível no transporte estratégico, na vigilância aérea e espacial, na defesa antimíssil, na sustentação logística e no planejamento de campanhas de alta intensidade.

Por essa razão, o resultado da revisão não poderá ser medido apenas pelo efetivo total. A questão central será identificar quais unidades, instalações e sistemas permanecerão, quais serão redistribuídos e quanto tempo os aliados europeus necessitarão para substituir as capacidades eventualmente retiradas.

Grynkewich entre a OTAN e o comando norte-americano

A presença de Grynkewich na reunião possui significado institucional específico. O general acumula o comando das operações da OTAN na Europa com a chefia do United States European Command — EUCOM. Ele ocupa, portanto, uma posição na qual as necessidades militares da Aliança e as prioridades globais dos Estados Unidos se encontram.

Sua participação não significa que a OTAN tenha concordado com uma redução, nem representa oposição formal ao Pentágono. Trata-se de uma consulta operacional necessária: qualquer mudança relevante na postura norte-americana afetará os planos de defesa, as cadeias de comando, os exercícios, os fluxos logísticos e os reforços previstos para o flanco oriental.

O quartel-general aliado descreveu o processo como parte da transição para uma “OTAN 3.0”, na qual os europeus assumiriam responsabilidades maiores. A expressão oferece uma narrativa política conveniente, mas ainda não esclarece como ocorrerá a divisão prática das obrigações nem quais capacidades deverão ser transferidas dos Estados Unidos para os aliados.

Breuer e a ascensão alemã na estrutura militar

A eleição do general Carsten Breuer para presidir o Comitê Militar acrescenta uma dimensão institucional à transferência gradual de responsabilidades. Atual chefe das Forças Armadas da Alemanha, ele assumirá o cargo no verão europeu de 2027, sucedendo o almirante italiano Giuseppe Cavo Dragone.

O Comitê Militar reúne os chefes de Defesa dos 32 integrantes da OTAN e funciona como principal órgão de aconselhamento militar do Conselho do Atlântico Norte e do secretário-geral Mark Rutte. Seu presidente exerce influência sobre a formulação de recomendações, prioridades, doutrinas e avaliações estratégicas.

Breuer, entretanto, não se tornará o comandante operacional das forças da OTAN. Essa atribuição continuará pertencendo ao SACEUR, cargo ocupado por Grynkewich e tradicionalmente reservado a um general norte-americano. A distinção é fundamental: a eleição de um oficial alemão amplia a influência europeia na formulação militar da Aliança, mas não transfere aos europeus o comando operacional integrado nem substitui as capacidades dos Estados Unidos.

A escolha de Breuer também reflete o crescimento da Alemanha como centro de gravidade da defesa convencional europeia. Berlim pretende elevar suas despesas militares para mais de € 200 bilhões até 2030, aproximadamente o dobro do nível atual. Como maior economia do continente e principal eixo logístico entre a Europa Ocidental e o flanco oriental, o país será decisivo para qualquer estratégia destinada a compensar uma eventual redução norte-americana. Reuters

A eleição possui, portanto, valor político e estratégico. Ela demonstra que a Alemanha aceita assumir maior responsabilidade dentro da Aliança, mas também evidencia o desafio que acompanhará essa ascensão: transformar recursos financeiros e influência institucional em forças prontas, estoques suficientes e capacidade de sustentar operações prolongadas.

A OTAN está pronta?

As declarações de que a OTAN está preparada para enfrentar a ameaça russa devem ser analisadas em duas dimensões.

No plano agregado, a Aliança reúne população, capacidade econômica, base tecnológica e orçamento militar muito superiores aos da Rússia. A incorporação da Finlândia e da Suécia fortaleceu a defesa do Norte da Europa, ampliou a profundidade estratégica no Báltico e integrou forças com elevado nível de preparação.

No plano operacional, entretanto, permanecem vulnerabilidades. Diversos países europeus ainda possuem estoques limitados de munições, defesa aérea insuficiente, dificuldades de recrutamento, capacidade logística desigual e dependência dos Estados Unidos em inteligência, transporte, reabastecimento aéreo e comando e controle.

Estar preparado para deter ou responder a uma agressão não significa possuir autonomia para conduzir uma guerra de alta intensidade sem apoio norte-americano. A OTAN pode estar politicamente mobilizada e militarmente mais forte do que há poucos anos, mas isso não equivale a dizer que a Europa já possa substituir integralmente os Estados Unidos.

A presença simultânea de Grynkewich no processo de revisão e de Breuer na futura liderança do Comitê Militar expõe essa dualidade. A Europa amplia seu protagonismo institucional, enquanto o núcleo operacional da Aliança permanece fortemente apoiado em capacidades norte-americanas.

Da divisão de encargos à utilidade estratégica

Desde a primeira administração Donald Trump, Washington pressiona os integrantes europeus da OTAN a elevar seus gastos militares. O debate, entretanto, adquiriu uma dimensão adicional. A revisão não considera apenas quanto cada aliado investe, mas qual apoio político e operacional oferece aos Estados Unidos.

Hegseth criticou países que, durante a guerra contra o Irã, restringiram o acesso norte-americano a bases ou negaram autorizações de sobrevoo relacionadas às operações. Segundo o secretário, a revisão também deverá assegurar que Washington disponha desses direitos quando precisar empregá-los.

Essa declaração revela uma mudança importante. Bases norte-americanas na Europa não existem exclusivamente para a defesa do continente. Elas formam uma rede estratégica utilizada para apoiar operações no Mediterrâneo, no Oriente Médio, na África e em outras áreas. Instalações logísticas, aeródromos, portos, centros de comando e depósitos europeus ampliam o alcance militar global dos Estados Unidos.

Washington passa, assim, a avaliar seus aliados por três critérios combinados: contribuição financeira, capacidade militar e disponibilidade política para apoiar operações norte-americanas. Um país poderá atingir metas orçamentárias e ainda ser considerado pouco confiável caso imponha restrições ao emprego de instalações localizadas em seu território.

A presença militar converte-se, nesse contexto, em instrumento de negociação. Os aliados que investirem mais e oferecerem maior liberdade operacional poderão ter melhores condições para conservar forças e infraestrutura norte-americanas. Outros poderão enfrentar reduções, reorganizações ou perda de importância dentro da arquitetura militar transatlântica.

A resposta europeia começa a ganhar escala

Os governos europeus não permaneceram imóveis. Na reunião de cúpula de Haia, em 2025, os integrantes da OTAN comprometeram-se a destinar, até 2035, 5% do Produto Interno Bruto à defesa e à segurança: 3,5% para requisitos militares centrais e 1,5% para infraestrutura crítica, mobilidade, resiliência e outras despesas relacionadas.

Na Cúpula de Ancara, realizada em julho de 2026, a Aliança informou que os aliados europeus e o Canadá haviam aumentado em mais de US$ 139 bilhões os investimentos nos requisitos centrais de defesa, crescimento próximo de 20% em relação ao ano anterior. Também foram anunciados mais de US$ 50 bilhões em novas aquisições, envolvendo defesa aérea e antimíssil, ataques de precisão em profundidade, sistemas não tripulados, inteligência e tecnologias avançadas.

A OTAN anunciou ainda um investimento de € 27 bilhões na modernização da infraestrutura de armazenamento e distribuição de combustíveis, incluindo instalações e oleodutos voltados para o flanco oriental. Essas medidas enfrentam um dos problemas menos visíveis da defesa europeia: não basta possuir tropas e armamentos; é necessário deslocá-los, abastecê-los e sustentá-los durante uma campanha prolongada. OTAN

A Declaração de Ancara afirma que os países europeus e o Canadá estão assumindo maior responsabilidade pela defesa da Aliança, em cooperação com os Estados Unidos. O documento também reconhece a necessidade de ampliar capacidades de ataque de precisão, defesa integrada, sistemas não tripulados, inteligência, espaço, cibernética e emprego militar da inteligência artificial. Declaração da Cúpula de Ancara

Os compromissos são expressivos, mas sua execução será o teste decisivo. Orçamentos maiores não se convertem imediatamente em unidades prontas para combate. A expansão exige capacidade industrial, pessoal qualificado, munições, treinamento, manutenção, doutrina comum e cadeias logísticas capazes de operar sob ataque.

Pressão necessária ou risco calculado?

A posição norte-americana possui fundamento estratégico. A Europa reúne economias avançadas, indústrias de defesa relevantes e uma população muito superior à da Rússia. Ainda assim, durante décadas, diversos países mantiveram forças reduzidas e dependentes do apoio dos Estados Unidos.

A concentração norte-americana no Indo-Pacífico e a permanência de compromissos no Oriente Médio tornam cada vez mais difícil sustentar simultaneamente todos os teatros no mesmo nível. Sob essa perspectiva, a revisão poderá produzir uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades.

A pressão de Washington já contribuiu para acelerar investimentos, ampliar encomendas e recolocar a defesa territorial no centro das políticas europeias. A eleição de Breuer e o crescimento das despesas alemãs demonstram que essa transformação começa a alcançar as estruturas de liderança e planejamento.

O contraponto é o risco de uma transição mal sincronizada. Caso os Estados Unidos retirem capacidades antes que os europeus estejam preparados para substituí-las, surgirá uma janela de vulnerabilidade. Moscou poderá interpretar a redução não apenas como mudança quantitativa, mas como enfraquecimento da coesão política da OTAN.

A dissuasão depende da percepção de que qualquer agressão será respondida rapidamente. Se um adversário acreditar que a Aliança precisa de semanas para obter reforços, autorizações políticas ou meios logísticos, poderá considerar viável uma ação limitada destinada a testar o Artigo 5, dividir os aliados ou criar um fato consumado no flanco oriental.

O desafio consiste em pressionar a Europa sem comprometer, durante a transição, a própria credibilidade que a presença norte-americana ajuda a sustentar.

Quatro caminhos possíveis

Os detalhes das alternativas em preparação permanecem confidenciais. Entretanto, a lógica estratégica permite identificar quatro configurações gerais, que podem aparecer isoladamente ou combinadas.

A primeira seria a manutenção aproximada do dispositivo atual, acompanhada de metas mais rígidas para os aliados. Nesse cenário, Washington preservaria a presença enquanto utilizaria contribuições financeiras e contratos de defesa como instrumentos de pressão.

A segunda envolveria uma redução limitada de tropas, principalmente em funções que possam ser transferidas para forças europeias, sem alterar os principais elementos de comando, inteligência, logística e dissuasão.

A terceira possibilidade seria uma redistribuição geográfica. Parte das forças poderia ser deslocada de bases tradicionais na Europa Ocidental para o flanco oriental, o Ártico ou instalações consideradas mais úteis para operações além do continente. Uma diminuição em determinado país, portanto, não significaria necessariamente menor atenção dos Estados Unidos ao espaço euro-atlântico.

A quarta configuração seria uma redução mais ampla, destinada a liberar unidades e recursos para o Indo-Pacífico e o Oriente Médio. Esse seria o cenário mais sensível, especialmente se envolvesse aviação, defesa aérea, inteligência, logística ou estruturas necessárias à rápida chegada de reforços norte-americanos.

O Congresso como limite institucional

O Executivo não dispõe de liberdade absoluta para alterar a postura militar. O Congresso estabeleceu um efetivo mínimo para as forças dos Estados Unidos na Europa e deverá ser consultado durante a revisão. Isso reduz a possibilidade de uma retirada abrupta e cria espaço para resistência bipartidária, sobretudo entre parlamentares que consideram a presença avançada indispensável para conter a Rússia.

Ao mesmo tempo, limitações legislativas podem ser contornadas parcialmente por meio de mudanças na composição das forças, nos regimes de rotação, nos níveis de prontidão ou na distribuição de determinados meios. Manter formalmente certo número de militares não garante a preservação da mesma capacidade de combate.

O debate entre Executivo e Legislativo deverá concentrar-se, portanto, não apenas no efetivo, mas na qualidade operacional do dispositivo que permanecerá.

Implicações para a Rússia e para a guerra na Ucrânia

A revisão ocorre enquanto a guerra na Ucrânia continua condicionando a segurança europeia. Na Cúpula de Ancara, os aliados comprometeram-se a fornecer € 70 bilhões em equipamentos, assistência e treinamento para Kiev em 2026, mantendo pelo menos volume equivalente em 2027. Os países europeus e o Canadá já financiam a maior parte desse apoio.

Uma alteração relevante da presença norte-americana afetaria os cálculos de Moscou. A Rússia observará a prontidão das forças, a velocidade dos reforços, a disponibilidade de munições, a integração das defesas aéreas e, sobretudo, a disposição política dos Estados Unidos de participar de uma crise europeia.

Mesmo que Washington preserve o compromisso formal com o Artigo 5, declarações contraditórias ou reduções pouco coordenadas poderão gerar dúvidas. Na dissuasão, a ambiguidade pode ter utilidade diante do adversário, mas torna-se perigosa quando atinge os próprios aliados.

A ascensão de Breuer oferece uma resposta política a essas dúvidas ao sinalizar maior disposição europeia para assumir responsabilidades. Entretanto, liderança institucional não substitui capacidade operacional. A credibilidade da mudança dependerá de os compromissos financeiros produzirem forças efetivamente disponíveis dentro dos prazos exigidos pelo ambiente estratégico.

Uma aliança mais europeia, mas ainda dependente dos Estados Unidos

A revisão do Pentágono não representa, por enquanto, o abandono da Europa. Ela indica algo mais complexo: Washington pretende manter influência e capacidade de intervenção, mas deseja reduzir encargos, preservar liberdade para atuar em outros teatros e exigir contrapartidas mais claras de seus aliados.

A Europa está investindo mais, ampliando sua indústria e assumindo parcela crescente do apoio à Ucrânia. A eleição de um general alemão para presidir o Comitê Militar confirma o avanço europeu dentro das estruturas de decisão. Ainda assim, a autonomia operacional permanece limitada por lacunas em inteligência, defesa aérea, transporte estratégico, comando e controle, logística e dissuasão nuclear.

O resultado do processo dependerá menos do número anunciado de soldados e mais das capacidades que permanecerão disponíveis. Uma redução planejada, gradual e coordenada poderá fortalecer o pilar europeu da OTAN. Uma retirada orientada principalmente por pressões políticas imediatas poderá enfraquecer a dissuasão justamente quando a Aliança procura demonstrar unidade.

A questão central, portanto, não é se os Estados Unidos deixarão a Europa. É em quais condições permanecerão, quais responsabilidades os europeus serão capazes de assumir e quanto tempo será necessário para transformar maior influência institucional em capacidade militar autônoma.

Soberania exige capacidade, continuidade e coerência.

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