O risco da militância editorial: quando a imprensa escolhe previamente o culpado

Ao concentrar manchetes contra Flávio Bolsonaro e transformar o financiamento de Dark Horse em uma narrativa de culpa antecipada, a emissora pública alemã expõe os riscos da seletividade jornalística, da assimetria de critérios e do uso político do enquadramento noticioso.

Por Ricardo Fan – DefesaNet

Quando a vitrine editorial já contém um julgamento

A cobertura da Deutsche Welle sobre as investigações relacionadas ao filme Dark Horse, produção inspirada na trajetória política de Jair Bolsonaro, oferece um estudo de caso sobre a transformação do jornalismo informativo em instrumento de construção de percepção.

Em uma mesma composição editorial, o público foi exposto a sucessivas chamadas relacionando Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e o financiamento da produção cinematográfica. A manchete principal anunciava que o senador estaria sendo investigado, enquanto os conteúdos associados reiteravam pagamentos milionários e suspeitas levantadas pela Polícia Federal.

Cada uma dessas informações pode possuir relevância jornalística individualmente. O problema surge na forma como elas são reunidas, hierarquizadas e repetidas. A composição visual produz um efeito cumulativo: antes mesmo que o leitor conheça os autos, as provas, as versões das partes ou os limites de cada investigação, uma conclusão política começa a ser construída.

Não é necessário publicar uma acusação explícita para induzir uma condenação. A repetição de nomes, fotografias, valores e expressões como “suspeitas”, “pagamentos” e “investigado” pode formar, no imaginário público, uma sentença anterior ao devido processo legal.

Esse mecanismo é particularmente sensível quando aplicado a um candidato presidencial em pleno ambiente eleitoral.

O que está efetivamente sob investigação

A crítica ao enquadramento jornalístico não significa que o financiamento de Dark Horse deva permanecer imune à fiscalização. O interesse público existe e as movimentações financeiras precisam ser esclarecidas.

Flávio Bolsonaro reconhece ter participado da busca por investidores para o filme e sustenta que os recursos empregados na produção são privados e regulares. Entretanto, o inquérito autorizado pelo Supremo Tribunal Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas às transferências efetuadas por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Reportagens afirmam que os aportes conhecidos teriam ultrapassado R$ 60 milhões, incluindo uma transferência adicional equivalente a aproximadamente R$ 8,2 milhões para um fundo sediado no Texas. O volume das operações, a estrutura internacional utilizada e a situação de Vorcaro justificam a atuação dos órgãos de controle. Isso, porém, não converte automaticamente investimento privado em produto de crime. Terra/DW, UOL

Existe ainda uma apuração distinta envolvendo aproximadamente R$ 750 mil provenientes de emendas parlamentares destinadas pelo deputado Mário Frias ao Instituto Conhecer Brasil. A Polícia Federal investiga se parte desses recursos, originalmente vinculados a projetos sociais, teria chegado, por meio de terceiros, a empresas ligadas à produção do filme. Flávio Bolsonaro não é investigado nessa frente específica e nega que recursos públicos tenham financiado a obra. Folha de S.Paulo

São investigações legítimas, mas ainda são investigações. Existem hipóteses policiais, movimentações consideradas atípicas e versões conflitantes. Não há, somente por esses elementos, uma condenação definitiva de Flávio Bolsonaro por lavagem de dinheiro, corrupção ou evasão de divisas.

A função da imprensa seria tornar essas diferenças compreensíveis. Quando todas as apurações são agrupadas em uma única narrativa visual, as fronteiras entre investimento privado, suspeita financeira, suposto desvio de emendas e responsabilidade individual desaparecem.

A diferença entre informar e produzir associação

O enquadramento é uma das formas mais poderosas de influência política. Um veículo não precisa inventar fatos para direcionar o leitor. Basta selecionar determinados acontecimentos, omitir outros, escolher uma fotografia específica e repetir associações até que elas sejam percebidas como uma realidade consolidada.

Ao posicionar várias chamadas negativas sobre a mesma pessoa, o portal não está apenas organizando notícias. Está estabelecendo uma hierarquia de importância e sugerindo uma conexão entre fatos que podem pertencer a procedimentos diferentes.

A fotografia de Flávio Bolsonaro ocupa o centro da composição. Seu nome aparece ligado ao termo “investigado”. Logo abaixo, os valores transferidos por Vorcaro e as suspeitas da Polícia Federal reforçam a associação. O leitor que observa apenas a capa pode concluir que o senador recebeu pessoalmente os recursos, que o dinheiro público financiou diretamente o filme ou que todos os fatos já foram comprovados.

Nenhuma dessas conclusões decorre necessariamente das informações disponíveis.

Esse é o ponto central da crítica. O jornalismo pode apresentar dados verdadeiros e, ainda assim, construir uma percepção distorcida por meio da organização seletiva desses dados.

A responsabilidade institucional da Deutsche Welle

A Deutsche Welle não é apenas mais uma empresa privada de comunicação. Trata-se da emissora internacional da Alemanha, estruturada por legislação própria e financiada principalmente por recursos provenientes do orçamento federal alemão.

A Lei da Deutsche Welle estabelece que sua programação deve apresentar a Alemanha como uma nação de cultura democrática, comprometida com a liberdade e com o Estado de Direito. Também determina que o veículo ofereça uma plataforma para perspectivas relevantes e promova o entendimento entre povos e culturas. Deutsche Welle Act

Essa condição impõe responsabilidade adicional. Um veículo mantido com recursos públicos e apresentado internacionalmente como expressão dos valores democráticos alemães deveria observar padrões elevados de equilíbrio, pluralidade e separação entre notícia, análise e ativismo político.

A imparcialidade absoluta talvez seja impossível. Toda redação realiza escolhas. Entretanto, existe uma diferença substantiva entre reconhecer uma orientação editorial e utilizar estruturas noticiosas para produzir condenações políticas antecipadas.

Quando essa fronteira é ultrapassada, a emissora deixa de atuar apenas como meio de informação e passa a interferir no ambiente político do país sobre o qual noticia.

A memória histórica e os mecanismos da propaganda

É impossível analisar a atuação de uma emissora pública alemã sem considerar a experiência histórica do próprio país com a instrumentalização da comunicação.

Isso não significa equiparar a atual Deutsche Welle ao regime nazista. Uma comparação direta seria historicamente desproporcional, intelectualmente imprecisa e ofensiva diante da dimensão dos crimes cometidos pelo nacional-socialismo.

O paralelo legítimo está nos mecanismos comunicacionais.

A propaganda política opera por repetição, simplificação, personalização do inimigo, apelo emocional e supressão de contextos capazes de relativizar a narrativa dominante. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos documenta como o regime nazista utilizou jornais, rádio, fotografias, filmes e cartazes para definir inimigos, eliminar nuances e conduzir a percepção coletiva. Holocaust Encyclopedia

Essas técnicas não foram exclusividade do nazismo. Também apareceram em regimes comunistas, ditaduras militares, campanhas eleitorais e operações contemporâneas de influência. As ferramentas são politicamente versáteis: podem servir a governos, partidos, corporações, movimentos ideológicos e organizações de comunicação.

A lição histórica, portanto, não é que toda cobertura enviesada seja nazista. A lição é que sociedades democráticas devem desconfiar de qualquer sistema de comunicação que concentre poder para definir, antecipadamente, quem merece ser tratado como culpado, inimigo ou ameaça.

Justamente por carregar a memória de uma sociedade devastada pela propaganda estatal, uma emissora pública alemã deveria ser especialmente cuidadosa ao empregar repetição, associação visual e personalização política.

Dois pesos na fiscalização do poder

O contraste torna-se mais evidente quando se observa o tratamento dado a escândalos que alcançam estruturas do atual governo brasileiro.

A fraude dos descontos associativos do INSS movimentou mais de R$ 6 bilhões entre 2019 e 2024, atravessando as administrações de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Durante o governo atual, as irregularidades continuaram, alertas foram registrados e dirigentes nomeados pela administração federal passaram a integrar as investigações. O escândalo resultou na exoneração do presidente do INSS e na saída do ministro da Previdência, Carlos Lupi. Associated Press

Em outro episódio, o então ministro das Comunicações, Juscelino Filho, deixou o cargo depois de ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República. As suspeitas estavam relacionadas à destinação de emendas parlamentares quando ele exercia mandato de deputado, e não necessariamente a atos praticados como ministro. A distinção temporal é necessária, mas isso não elimina a relevância política de um integrante do primeiro escalão deixar o governo sob acusação de corrupção.

Esses casos receberam cobertura da imprensa. Portanto, seria incorreto afirmar que houve silêncio absoluto. A assimetria aparece principalmente na linguagem, na personalização das responsabilidades e na permanência das notícias em posição de destaque.

Quando uma investigação atinge a oposição, o nome do político tende a ocupar a manchete. Quando envolve a administração federal, o título frequentemente privilegia expressões institucionais como “fraude no INSS”, “irregularidades em autarquia” ou “problemas no ministério”. No primeiro caso, personaliza-se a suspeita. No segundo, burocratiza-se o escândalo.

O resultado é uma percepção desigual de responsabilidade política.

Ponto e contraponto

Em defesa da Deutsche Welle, deve-se reconhecer que o caso Dark Horse reúne componentes de inequívoco interesse público: um candidato à Presidência, um ex-banqueiro envolvido em grave investigação financeira, transferências internacionais de grande valor e suspeitas paralelas sobre recursos provenientes de emendas parlamentares.

Ignorar esses elementos seria igualmente uma forma de parcialidade. Flávio Bolsonaro precisa prestar esclarecimentos, assim como Daniel Vorcaro, Mário Frias, os dirigentes das entidades envolvidas e os responsáveis pela produção cinematográfica.

O problema não está na apuração. Está na possibilidade de a cobertura substituir a investigação por uma narrativa fechada, sobretudo quando as versões defensivas aparecem de maneira secundária e as diferenças entre os procedimentos são diluídas.

O contraponto também deve ser aplicado à acusação contra a própria imprensa. Demonstrar partidarismo estrutural exige mais do que uma imagem isolada. Seria necessário comparar, durante período determinado, o número de matérias, o tempo de exposição, a linguagem das manchetes, as fotografias empregadas e o tratamento dispensado a personagens de diferentes campos políticos.

A imagem analisada, por si só, não prova toda a tese. Mas constitui um indício relevante do método de enquadramento que precisa ser debatido.

Jornalismo ou disputa pelo poder?

A influência da imprensa não decorre apenas de sua capacidade de revelar fatos. Ela também nasce do poder de definir quais fatos serão lembrados, quais personagens serão associados a eles e durante quanto tempo permanecerão no centro da agenda pública.

No ambiente digital, esse poder foi ampliado. Manchetes são consumidas sem que as matérias sejam abertas. Fotografias e títulos circulam separadamente do conteúdo. Sistemas de recomendação repetem narrativas semelhantes e criam a impressão de que diferentes acontecimentos constituem uma única cadeia comprobatória.

Nesse cenário, a capa de um portal funciona como instrumento de operações informacionais. Ela seleciona alvos, reforça associações e condiciona o modo pelo qual o leitor interpretará as informações seguintes.

Quando esse recurso é empregado contra um candidato durante uma eleição, a questão deixa de ser exclusivamente jornalística. Passa a envolver soberania informacional, influência estrangeira e interferência indireta no debate político brasileiro.

Não se trata de defender censura ou limitar o trabalho de veículos internacionais. Trata-se de exigir transparência sobre suas escolhas editoriais e submeter sua atuação ao mesmo escrutínio crítico aplicado a governos, partidos e plataformas digitais.

O preço da perda de credibilidade

A imprensa profissional atravessa uma crise de confiança em diferentes democracias. Parte dessa erosão decorre da desinformação deliberada e dos ataques de grupos interessados em eliminar qualquer fiscalização. Outra parte, contudo, é responsabilidade dos próprios veículos.

Quando leitores identificam padrões distintos de tratamento conforme a ideologia do personagem, deixam de enxergar o jornalismo como mediador confiável. A informação passa a ser percebida como munição política.

O efeito é corrosivo. Reportagens verdadeiras passam a ser rejeitadas por associação com o veículo. Investigações legítimas são interpretadas como perseguição. A sociedade fragmenta-se em ecossistemas informacionais incompatíveis, nos quais cada grupo possui seus próprios fatos, suas próprias fontes e seus próprios culpados.

A militância editorial, ainda que apresentada como defesa da democracia, pode produzir o resultado inverso: enfraquecer as instituições jornalísticas necessárias à própria democracia.

Imparcialidade não é silêncio, mas coerência

A imprensa não precisa deixar de investigar Flávio Bolsonaro. Precisa investigar todos com o mesmo rigor.

Se recursos privados foram utilizados para lavagem de dinheiro, isso deve ser comprovado e punido. Se verbas públicas foram desviadas para financiar uma produção cinematográfica, os responsáveis devem responder. Mas, se as evidências não confirmarem essas hipóteses, o desfecho precisa receber destaque proporcional ao concedido às suspeitas iniciais.

O mesmo padrão deve valer para autoridades do governo Lula, integrantes da oposição, ministros, parlamentares, empresários, magistrados e dirigentes de órgãos públicos.

Imparcialidade não significa ausência de posição moral. Significa coerência de critérios, respeito aos fatos e disposição para aplicar às pessoas politicamente próximas o mesmo rigor reservado aos adversários.

A Deutsche Welle, pela natureza pública e pela origem alemã, deveria compreender essa responsabilidade melhor do que a maioria dos veículos internacionais.

A maior vergonha não está em investigar um político. Está em escolher previamente quem deverá parecer culpado e quem será protegido pela diluição, pelo esquecimento ou pelo silêncio editorial.

Quando a manchete muda de critério conforme a ideologia do investigado, o jornalismo deixa de fiscalizar o poder e passa a disputar o poder. Nesse momento, já não oferece apenas informação: oferece propaganda apresentada como notícia.

Nota histórica — Enéas Carneiro e a caricatura como enquadramento político

O caso de Enéas Carneiro demonstra que a transformação de um personagem político em caricatura não começou com as redes sociais. Durante grande parte de sua trajetória, setores da imprensa concentraram a cobertura em sua barba, nos óculos, no tom de voz elevado e no bordão “Meu nome é Enéas!”, frequentemente apresentando-o como figura excêntrica ou folclórica. Essa abordagem reduziu o espaço destinado à análise de suas propostas sobre soberania, energia nuclear, defesa, ciência, recursos minerais e desenvolvimento tecnológico.

A própria comunicação acelerada e teatral de Enéas contribuiu para a construção dessa imagem, especialmente porque, em 1989, ele dispunha de apenas 15 segundos em cada inserção do horário eleitoral. Contudo, a permanência da caricatura mesmo quando participou de entrevistas mais extensas — como no Roda Viva de 1994 — revelou a dificuldade de parte da imprensa em tratá-lo como interlocutor político e intelectual, e não apenas como fenômeno midiático. TV Cultura — Roda Viva

Os resultados eleitorais mostraram que havia algo além do personagem construído pela televisão. Enéas conquistou mais de 4,6 milhões de votos e terminou a eleição presidencial de 1994 em terceiro lugar, à frente de lideranças políticas tradicionais. Em 2002, recebeu aproximadamente 1,57 milhão de votos para deputado federal por São Paulo, estabelecendo, naquele momento, votação recorde para o cargo.

Enéas não estava acima de críticas, e algumas de suas propostas eram efetivamente controversas. O problema foi substituir o debate sobre suas ideias pela ridicularização de sua aparência e de sua forma de expressão. Seu caso permanece como advertência: quando a imprensa escolhe a caricatura antes de examinar o conteúdo, ela não apenas descreve um personagem político — ela condiciona antecipadamente a maneira como a sociedade deverá enxergá-lo.

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