Contrato para sete viaturas inaugura a aquisição seriada do blindado 8×8, mas transformação operacional somente ocorrerá se o Brasil assegurar continuidade financeira, nacionalização efetiva e integração com os novos sistemas do campo de batalha
Por Ricardo Fan – DefesaNet
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(FYI) O Exército Brasileiro iniciou uma etapa decisiva do Programa Estratégico Forças Blindadas com a assinatura do contrato para a aquisição do Lote de Experimentação Doutrinária do Centauro II BR. Formado por sete viaturas, o lote dará continuidade ao processo iniciado com os dois exemplares recebidos para avaliações técnicas e operacionais, ampliando a capacidade da Força Terrestre de desenvolver doutrina, formar pessoal e estruturar a logística de uma plataforma que introduz na Cavalaria brasileira o canhão de 120 mm sobre rodas.
A incorporação representa um avanço militar concreto. O Centauro II combina mobilidade 8×8, sensores modernos, sistema digital de controle de tiro, proteção superior à do EE-9 Cascavel e poder de fogo comparável, em calibre, ao dos carros de combate principais. Entretanto, a assinatura não equivale à aquisição imediata das 98 viaturas inicialmente planejadas, tampouco garante o atendimento da necessidade global estimada em até 221 unidades.
A formulação mais rigorosa é que o Exército iniciou a aquisição seriada do Centauro II com um lote de sete viaturas, dentro de um planejamento inicial de 98 unidades e de uma necessidade projetada de até 221 veículos. A chamada “nova era” da Cavalaria, portanto, começa como um processo de construção de capacidade — e não como uma transformação operacional já concluída.
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Do lote de amostra à experimentação doutrinária
O Centauro II foi selecionado em 2022, após concorrência internacional conduzida pelo Exército para a obtenção da nova Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Média Sobre Rodas 8×8. O veículo apresentado pelo Consórcio Iveco–Oto Melara, formado pela IDV e pela Leonardo, superou propostas concorrentes ao reunir poder de fogo, mobilidade, proteção, logística e perspectivas de cooperação industrial.
O primeiro contrato, assinado em dezembro de 2022, compreendeu duas viaturas destinadas à avaliação. Os veículos chegaram ao Brasil em 2024 e foram submetidos a testes conduzidos pelo Centro de Avaliações do Exército e em campos de instrução no Rio Grande do Sul. A conclusão do processo permitiu a homologação da configuração brasileira e abriu caminho para o Lote de Experimentação Doutrinária.
O contrato assinado em 31 de agosto de 2026 acrescenta sete Centauro II BR aos dois veículos de amostra. As primeiras entregas desse lote são esperadas para 2028. Ao final da etapa, o Exército deverá dispor de nove exemplares, número suficiente para estruturar um núcleo experimental, mas ainda limitado para produzir efeitos operacionais em escala nacional.
A experimentação doutrinária deverá avaliar não apenas o desempenho individual do veículo, mas sua inserção nas organizações de Cavalaria, a composição das frações, o consumo logístico, a formação das tripulações, os procedimentos de manutenção e a integração com infantaria mecanizada, engenharia, artilharia, defesa antiaérea, drones e sistemas de comando e controle.

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Poder de fogo inédito sobre rodas
O Centauro II BR é equipado com a torre HITFACT MkII e o canhão Oto Melara de 120 mm e 45 calibres, capaz de empregar munições do padrão utilizado por carros de combate ocidentais. A combinação proporciona à Cavalaria mecanizada brasileira capacidade de engajar blindados pesados, posições fortificadas e alvos de alto valor a distâncias superiores às alcançadas pelo armamento de 90 mm do Cascavel.
O salto não se limita ao calibre. A plataforma incorpora sensores optrônicos, visão térmica, estabilização do armamento e um sistema de controle de tiro que permite localizar, acompanhar e atacar alvos em movimento, inclusive durante o deslocamento da própria viatura. A arquitetura digital também amplia a consciência situacional e favorece a integração com redes de comando e controle.
Esse conjunto altera qualitativamente a capacidade da Cavalaria. O Centauro II pode atuar em missões de reconhecimento armado, segurança, cobertura, ação retardadora, defesa móvel e combate anticarro. Sua mobilidade permite explorar flancos, ocupar posições sucessivas e concentrar poder de fogo sem depender da mesma estrutura de transporte exigida por veículos pesados sobre lagartas.
A denominação informal de “tanque sobre rodas”, contudo, deve ser empregada com cautela. Embora disponha de armamento de calibre semelhante ao de um carro de combate principal, o Centauro II não possui o mesmo nível de proteção frontal de plataformas como Leopard 2, Abrams ou K2. Sua sobrevivência depende de mobilidade, observação antecipada, engajamento a distância e emprego coordenado. Utilizá-lo como um carro de combate convencional, em ataques frontais contra posições preparadas, significaria expor a plataforma fora do perfil para o qual foi projetada.

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Uma plataforma compatível com a geografia brasileira
A escolha de uma viatura sobre rodas encontra fundamentos na extensão territorial e na infraestrutura brasileira. O país dispõe de uma ampla rede rodoviária, mas possui limitações ferroviárias e reduzida disponibilidade de meios pesados para o transporte estratégico de blindados sobre lagartas.
Nesse ambiente, uma plataforma 8×8 pode realizar deslocamentos operacionais por grandes distâncias com menor dependência de carretas-prancha, menor desgaste do conjunto de mobilidade e, em determinadas condições, custos inferiores de sustentação. Essa característica favorece o emprego em regiões como o Centro-Oeste, o Sul e parte da faixa de fronteira, onde a combinação de estradas, grandes distâncias e áreas abertas amplia a utilidade de forças mecanizadas.
A mobilidade rodoviária, entretanto, não elimina as restrições impostas pela massa aproximada de 30 toneladas. Pontes, estradas secundárias, solos saturados e infraestrutura limitada podem reduzir a liberdade de manobra. O emprego na Região Norte, frequentemente citado como possibilidade estratégica, exigirá estudos específicos sobre mobilidade, transporte, recuperação e sustentação logística.
O Centauro II não constitui uma plataforma universal para todo o território brasileiro. Sua adequação depende do ambiente operacional, da infraestrutura disponível e da missão atribuída. O mérito da escolha está menos na pretensão de empregá-lo indiscriminadamente e mais na capacidade de formar unidades de alto poder de combate que possam ser deslocadas para setores prioritários.

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Substituição* do Cascavel será qualitativa, não linear
A incorporação do Centauro II é frequentemente apresentada como substituição do EE-9 Cascavel. Essa interpretação é correta em termos geracionais, mas incompleta do ponto de vista quantitativo e doutrinário.
O Cascavel foi concebido como veículo de reconhecimento e apoio de fogo relativamente leve, simples e de baixo custo. Sua ampla distribuição tornou possível equipar numerosas unidades da Cavalaria mecanizada. O Centauro II, por outro lado, é mais pesado, tecnologicamente complexo e significativamente mais caro. Não existe correspondência direta entre um Cascavel retirado e um Centauro incorporado.
Durante um período prolongado, o Exército deverá operar uma estrutura heterogênea, combinando Centauro II, Cascavel modernizado, variantes do Guarani, sistemas anticarro, drones de reconhecimento e outros meios de apoio. O desafio será estabelecer uma distribuição coerente, evitando que pequenas quantidades de diferentes plataformas produzam frotas fragmentadas, com cadeias logísticas paralelas e baixa disponibilidade.
A modernização do Cascavel pode preservar uma capacidade numericamente relevante enquanto o Centauro é incorporado. Contudo, essa solução deverá ser tratada como transição, e não como equivalência tecnológica. O Centauro representa um patamar distinto de sensores, proteção, poder de fogo e integração digital.

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Modernização necessária ou plataforma de nicho?
A favor da aquisição está uma necessidade operacional objetiva. O Exército precisa renovar uma frota concebida na década de 1970 e recuperar a capacidade de enfrentar blindados modernos. O Centauro II oferece uma solução pronta, já em produção, configurada desde a origem para receber armamento de 120 mm e apoiada por empresas com presença industrial no Brasil.
A seleção também reduz alguns riscos de desenvolvimento. Em vez de financiar a criação de uma plataforma inteiramente nova, o Brasil incorpora um sistema existente, submetido a avaliações locais e com componentes parcialmente relacionados ao ecossistema industrial da família Guarani. A participação da IDV no país pode facilitar manutenção, formação técnica e futura produção local.
O contraponto está na escala internacional restrita e na evolução recente dos conflitos. O Centauro II permanece operado principalmente pela Itália, tendo o Brasil como seu primeiro cliente de exportação. Outros países ocidentais substituíram veículos de apoio de fogo sobre rodas por soluções que combinam canhões de menor calibre, mísseis anticarro, sensores avançados e plataformas multimissão.
Essa comparação não demonstra que o conceito italiano esteja superado. As experiências não são diretamente equivalentes: o Stryker MGS norte-americano apresentava limitações próprias, enquanto o Jaguar francês foi concebido para funções diferentes das atribuídas ao Centauro. Ainda assim, a tendência internacional mostra que poder de fogo isolado não assegura sobrevivência nem relevância operacional.
O questionamento central, portanto, não é se o canhão de 120 mm possui utilidade, mas se o Exército desenvolverá o conjunto de capacidades necessário para protegê-lo e explorá-lo. Uma viatura avançada inserida em uma formação sem drones, guerra eletrônica, defesa antiaérea de baixa altura, comunicações seguras e apoio logístico adequado terá seu potencial severamente reduzido.
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A guerra dos drones redefine a sobrevivência dos blindados
Os conflitos recentes demonstraram que carros de combate, veículos de infantaria, artilharia e sistemas antiaéreos tornaram-se vulneráveis à observação persistente e ao ataque de drones. A ameaça inclui aeronaves remotamente pilotadas de reconhecimento, munições vagantes, drones FPV, sistemas guiados por fibra óptica e ataques coordenados contra a parte superior dos veículos.
O Centauro II não está imune a essa realidade. Sua mobilidade pode reduzir a exposição, mas não substitui proteção em camadas. O programa precisará considerar sistemas de alerta laser, lançadores de granadas multiespectrais, camuflagem térmica, redes de proteção, sensores de detecção, interferidores eletrônicos e, idealmente, sistemas de proteção ativa capazes de enfrentar mísseis e munições anticarro.
Também será necessária uma defesa coletiva. A proteção não pode permanecer restrita ao próprio veículo. As unidades equipadas com o Centauro deverão operar com cobertura de drones, guerra eletrônica, defesa antiaérea de muito curto alcance, equipes de vigilância e inteligência capazes de identificar ameaças antes do contato.
A ausência desses elementos criaria uma discrepância entre capacidade anunciada e capacidade real. O canhão de 120 mm ampliaria o poder de destruição, mas a formação continuaria vulnerável ao sistema de reconhecimento e ataque do adversário. A modernização da Cavalaria exige, portanto, uma abordagem sistêmica, não apenas a aquisição de uma nova plataforma.
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Nacionalização precisa ir além da montagem
O programa prevê compensações comerciais e tecnológicas, participação da unidade da IDV em Sete Lagoas e futura nacionalização de componentes. Também existem referências à produção ou integração local da torre HITFACT MkII e da munição de 120 mm.
Esses objetivos possuem relevância estratégica. A capacidade de manter a torre, reparar sistemas eletrônicos, produzir munição e atualizar a plataforma reduziria a dependência de fornecedores externos. Também criaria competências aplicáveis a outros programas terrestres, inclusive à futura renovação dos veículos sobre lagartas.
A profundidade dessa transferência, entretanto, ainda precisa ser demonstrada. Montar subconjuntos importados no Brasil não equivale ao domínio de tecnologias críticas. A avaliação industrial deverá considerar o acesso à documentação técnica, a capacidade de fabricar componentes estruturais, o conhecimento sobre optrônicos e controle de tiro, a autonomia para modificar interfaces e a possibilidade de realizar modernizações sem depender integralmente do fabricante estrangeiro.
O ritmo das encomendas será determinante. Nenhuma empresa nacional ou estrangeira sustentará investimentos relevantes em infraestrutura, pessoal e fornecedores diante de aquisições irregulares ou lotes excessivamente pequenos. A nacionalização dependerá menos das declarações institucionais e mais da previsibilidade financeira oferecida pelo programa.

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O orçamento será o principal teste
O lote de sete viaturas é adequado para a experimentação doutrinária. O problema surge quando essa quantidade é projetada como ritmo regular de aquisição. Se o Exército receber apenas sete veículos por ano, a obtenção das 98 unidades inicialmente planejadas exigirá aproximadamente 14 anos, desconsiderando eventuais interrupções. O atendimento da demanda total de até 221 viaturas se estenderia por mais de três décadas.
Um cronograma excessivamente longo eleva o custo de sustentação, retarda a formação de unidades completas e aumenta o risco de coexistência de diferentes padrões tecnológicos. Também pode fazer com que os primeiros veículos necessitem de modernização antes que o programa alcance a escala pretendida.
O custo real não se limita ao valor de aquisição. A capacidade operacional exige munição de treinamento e combate, simuladores, peças de reposição, ferramental, instalações, veículos de recuperação, transporte estratégico, capacitação de pessoal e contratos de suporte ao longo de décadas.
A experiência brasileira em programas militares demonstra que a assinatura inicial não garante continuidade. Restrições fiscais, contingenciamentos e mudanças de prioridade frequentemente alongam cronogramas e reduzem quantidades. A diferença entre um programa estruturante e uma frota simbólica será definida pela regularidade dos pedidos posteriores.
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Impactos estratégicos, industriais e regionais
No plano regional, o Centauro II dará ao Brasil o blindado sobre rodas de maior poder de fogo da América Latina. Isso amplia a dissuasão convencional e reforça a capacidade de resposta da Força Terrestre, especialmente em operações de defesa móvel e concentração rápida de meios.
O efeito regional, porém, será gradual. Nove veículos possuem valor para instrução e experimentação, mas não alteram isoladamente o equilíbrio militar sul-americano. A influência estratégica crescerá quando o Exército formar unidades completas, consolidar estoques de munição, estabelecer apoio logístico e demonstrar capacidade de mobilização.
No campo industrial, a produção local poderá fortalecer o polo de veículos militares de Sete Lagoas e criar sinergias com Guarani e Guaicuru. O Brasil também poderá tornar-se referência regional de apoio ao Centauro, caso outros países adotem a plataforma. Essa possibilidade, contudo, permanece prospectiva e dependerá de contratos de exportação que ainda não estão assegurados.
Para a Itália e o consórcio fabricante, o contrato brasileiro possui valor comercial e político. O Brasil representa o primeiro operador externo do Centauro II e oferece uma vitrine relevante para mercados da América Latina e de outras regiões. O programa também reaproxima as indústrias de defesa brasileira e italiana, em escala comparável aos grandes projetos bilaterais do passado.

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Uma escolha defensável sob condições rigorosas
A avaliação da aquisição é favorável, mas condicionada à execução. O Centauro II é compatível com as necessidades de modernização da Cavalaria e apresenta características adequadas a parte significativa da geografia e da infraestrutura brasileiras. Sua seleção técnica é defensável, e o lote de sete viaturas constitui uma etapa racional para consolidar doutrina, logística e formação de pessoal.
A capacidade anunciada, entretanto, ainda está distante da capacidade operacional efetiva. O Exército não adquiriu imediatamente 98 ou 221 veículos. Contratou sete unidades adicionais dentro de um planejamento mais amplo, cuja realização dependerá de decisões orçamentárias futuras.
O sucesso do programa será medido por quatro fatores: continuidade financeira, escala das encomendas, profundidade da nacionalização e integração com sistemas de proteção, guerra eletrônica, defesa antiaérea e combate contra drones. Se esses elementos não avançarem em conjunto, o Brasil poderá dispor de uma plataforma excelente, mas cara, vulnerável e numericamente insuficiente. Se houver continuidade e coerência, o Centauro II poderá deixar de ser apenas um novo blindado e tornar-se o núcleo de uma transformação efetiva do poder de combate da Cavalaria brasileira.
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*Nota: CASCAVEL E CENTAURO II
A substituição do EE-9 Cascavel pelo Centauro II BR não deverá ocorrer de forma direta nem na proporção de um por um. O Cascavel foi concebido como uma viatura leve, simples e numerosa, reunindo funções de reconhecimento e apoio de fogo. O Centauro II, mais pesado, sofisticado e equipado com canhão de 120 mm, deverá ser empregado seletivamente contra alvos de maior valor.
A mudança será principalmente doutrinária. O reconhecimento avançado passará a depender mais de drones, sensores, viaturas leves e comunicações em rede, enquanto o Centauro funcionará como elemento de combate, empregando alcance, precisão e mobilidade para engajar e reposicionar-se rapidamente. Sua eficácia também exigirá integração com guerra eletrônica, defesa antiaérea e proteção contra drones.
Assim, o Centauro não deve ser empregado apenas como um “Cascavel mais poderoso”, mas como o núcleo de um sistema integrado de reconhecimento e combate. A modernização será efetiva quando a nova plataforma vier acompanhada de doutrina, escala, logística e meios complementares.
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