Atividades no Brasil e no exterior combinam adestramento tático, interoperabilidade com o Uruguai e capacitação DQBRN, mas escalas distintas exigem cautela na avaliação das capacidades efetivamente disponíveis.
Por Redação DefesaNet
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(RDN) Em um intervalo de menos de duas semanas, o Exército Brasileiro realizou ou participou de três atividades que ilustram diferentes dimensões de sua preparação operacional. Em Resende, a 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada conduziu um exercício tático com tiro real. Em Pelotas, militares brasileiros e uruguaios trabalharam conjuntamente em um cenário de missão de paz. Na Costa Rica, um especialista da Escola de Instrução Especializada participou de uma capacitação internacional de resposta a ameaças químicas.
Embora independentes entre si, os três eventos oferecem uma fotografia útil da amplitude das competências que uma força terrestre contemporânea precisa manter. Uma delas está diretamente relacionada ao combate, com coordenação de fogos e emprego de munição real. Outra envolve planejamento, simulação e interoperabilidade com forças estrangeiras. A terceira abrange conhecimentos especializados para responder a agentes químicos e emergências complexas.
Essa diversidade, entretanto, não deve ser confundida com prontidão plena. Exercícios militares demonstram procedimentos, treinam estruturas e identificam deficiências, mas somente representam capacidade operacional sustentável quando são acompanhados por efetivos completos, logística disponível, estoques adequados, manutenção regular, comunicações resilientes, integração de sensores e fogos e ciclos contínuos de avaliação.
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O tiro real como núcleo da preparação operacional
O exercício realizado pela 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada entre 21 e 28 de agosto, em Resende, constitui o componente operacionalmente mais significativo desse conjunto. A atividade envolveu os escalões Pelotão e Subunidade e foi estruturada de maneira progressiva, começando pelos procedimentos de segurança e aprontos operacionais, passando pelo planejamento, pela coordenação de fogos e pelos exercícios táticos a seco, até chegar à execução com munição real.
Segundo o Exército Brasileiro, o treinamento permitiu aperfeiçoar a integração entre a manobra da Infantaria, a base de apoio e os sistemas de comando e controle. Também foram realizados o nivelamento dos Observadores e Controladores de Adestramento e a validação de armamentos individuais e coletivos.
A progressão entre planejamento, ensaio a seco e tiro real é relevante porque reduz a distância entre o procedimento doutrinário e sua execução sob condições de maior pressão. A presença de munição real introduz riscos, exigências de segurança, necessidade de sincronização e uma carga de estresse que não pode ser plenamente reproduzida em atividades exclusivamente simuladas.
O exercício também avaliou a capacidade das frações de ocupar posições, manter disciplina de fogo e preservar o funcionamento dos sistemas de comando e controle durante a execução. Esses elementos são fundamentais para unidades mecanizadas, nas quais mobilidade, comunicações e poder de fogo precisam atuar de maneira coordenada.
A atividade foi explicitamente relacionada ao Projeto Força 40, que orienta a preparação do Exército para as demandas previstas até 2040. Nesse contexto, o adestramento com tiro real funciona como um mecanismo de materialização da doutrina: conceitos de transformação somente adquirem valor operacional quando podem ser executados por unidades treinadas e dotadas de meios disponíveis.
Entretanto, as informações publicadas não permitem avaliar toda a extensão da capacidade testada. Não foram divulgados o efetivo mobilizado, os tipos de armamentos empregados, a quantidade de munição consumida, a participação de viaturas blindadas Guarani, o emprego de fogos indiretos ou a eventual integração de drones, sensores, defesa anticarro e guerra eletrônica.
Também não foram apresentados indicadores de desempenho, deficiências identificadas ou conclusões produzidas pelos observadores de adestramento. Portanto, é possível afirmar que frações da 11ª Brigada executaram um ciclo tático com tiro real, mas não que a Grande Unidade tenha sido integralmente validada para uma operação mecanizada de alta intensidade ou para um emprego prolongado.

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Operação Minuano aproxima planejamento e interoperabilidade
A Operação Minuano acrescentou uma dimensão diferente à preparação. Realizado entre 17 e 21 de agosto, no Quartel-General da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada, em Pelotas, o exercício reuniu 271 militares brasileiros e 37 integrantes do Exército Nacional Uruguaio.
A atividade foi estruturada em torno de um cenário de missão de paz sob a égide das Nações Unidas. Sua dinâmica combinou simulação construtiva, simulação virtual e planejamento de apoio de fogo. Parte dos recursos tecnológicos foi operada pelo Centro de Adestramento Sul, em Santa Maria.
Na simulação construtiva, os estados-maiores brasileiros e uruguaios trabalharam conjuntamente nos processos de planejamento e tomada de decisão. Militares dos dois países foram integrados em células de Manobra, Inteligência, Logística e outras funções, recebendo problemas militares que exigiam respostas coordenadas.
Os planejamentos elaborados foram posteriormente inseridos nos sistemas de simulação, permitindo observar os resultados das decisões e devolver essas informações aos estados-maiores. Essa dinâmica cria um ciclo de planejamento, execução virtual, avaliação e correção, permitindo testar alternativas sem os custos e riscos de uma mobilização integral no terreno.
A denominação “exercício combinado” é tecnicamente adequada. Na doutrina brasileira, o emprego combinado envolve forças militares de diferentes países, enquanto o emprego conjunto está relacionado à participação de mais de uma Força Singular de um mesmo Estado. A Operação Minuano, portanto, não se limitou a reunir brasileiros e uruguaios no mesmo ambiente: buscou aproximar processos decisórios, terminologias e procedimentos militares.
Esse tipo de integração possui valor que ultrapassa o treinamento específico para missões de paz. A interoperabilidade construída em tempos de normalidade pode facilitar futuras operações humanitárias, ações de apoio em fronteira, respostas a desastres e outras missões realizadas por forças de países vizinhos.
Brasil e Uruguai mantêm uma relação fronteiriça estável, sem ameaças militares recíprocas. Nesse ambiente, o exercício atua principalmente como instrumento de confiança e diplomacia militar. A cooperação reduz barreiras institucionais, permite comparar doutrinas e oferece aos estados-maiores experiência de trabalho com estruturas estrangeiras sem exigir a constituição de uma aliança militar formal.
A previsão divulgada pelo Exército é que a atividade avance, em 2027, para uma etapa de simulação viva. Nessa modalidade, tropas, armamentos e terreno serão reais, enquanto os efeitos do combate permanecerão simulados. Se concretizada, essa progressão permitirá verificar no terreno decisões que, em 2026, permaneceram concentradas nos sistemas computacionais e nas células de planejamento.

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Missões de paz: conhecimento preservado, presença reduzida
O cenário escolhido para a Operação Minuano também permite discutir a diferença entre manter conhecimento institucional e efetivamente desdobrar contingentes em operações internacionais.
O Brasil acumulou experiência expressiva em missões no Egito, Angola, Moçambique, Timor-Leste, Haiti e outros teatros. Segundo documentos oficiais, o país participou de mais de 50 operações de paz ou missões similares, envolvendo mais de 55 mil militares, policiais e civis ao longo de décadas.
Essa trajetória conferiu às Forças Armadas brasileiras conhecimento em patrulhamento, proteção de civis, engenharia, coordenação civil-militar, apoio humanitário e atuação sob regras de engajamento definidas por organismos internacionais. A liderança exercida pelo Brasil na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, a MINUSTAH, tornou-se a principal referência recente dessa experiência.
A presença atual, porém, é consideravelmente menor. O Ministério da Defesa informa que cerca de 70 brasileiros, entre integrantes das Forças Armadas e policiais militares, contribuíam para operações de paz em 2026.
A Operação Minuano deve, portanto, ser interpretada como preservação e desenvolvimento de competências para uma possibilidade de emprego, e não como evidência de retorno imediato do Brasil à condição de grande contribuinte de tropas da ONU. O treinamento mantém estruturas preparadas, mas um eventual desdobramento dependeria de decisão política, autorização institucional, disponibilidade orçamentária e demanda concreta das Nações Unidas.
Também é necessário considerar que as missões de paz contemporâneas exigem mais do que capacidade de combate. Proteção de civis, inteligência, conhecimento cultural, coordenação com agências humanitárias, disciplina no uso da força, apoio médico e capacidade de operar em ambientes informacionais contestados tornaram-se componentes fundamentais. A documentação pública sobre a Operação Minuano não permite determinar em que profundidade esses aspectos foram incorporados ao cenário.
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Defesa química: especialização de alto valor e baixa escala
A terceira atividade ocorreu no âmbito da defesa química, biológica, radiológica e nuclear. Um oficial da Escola de Instrução Especializada, o major Leandro Carvalho Gouvea, participou, em agosto, do Curso Avançado e Exercício Integrado em Assistência e Proteção para os Estados-partes da América Latina e do Caribe, realizado na Academia Nacional de Bombeiros da Costa Rica.
Conduzida pela Organização para a Proibição de Armas Químicas, a capacitação reuniu 24 representantes de Forças Armadas e Corpos de Bombeiros de 15 países. O programa abrangeu detecção e monitoramento de perigos químicos, descontaminação, emprego de equipamentos de proteção individual, atendimento a vítimas e gerenciamento de crises em ambientes contaminados. Exército Brasileiro
A relevância dessa especialização não se limita à possibilidade de emprego deliberado de armas químicas. Produtos químicos industriais tóxicos podem provocar emergências de grande escala em acidentes ferroviários, rodoviários, portuários ou industriais. Atentados terroristas, sabotagens e operações em instalações críticas também podem exigir equipes capazes de detectar agentes, estabelecer áreas de segurança, descontaminar vítimas e coordenar o atendimento médico.
A OPAQ vem ampliando a preparação regional nessa área. Em 2026, a organização promoveu o CHEMEX GRULAC, primeiro exercício multicomponente de grande escala para emergências químicas realizado na América Latina e no Caribe. Segundo a OPAQ, a iniciativa buscou testar toda a cadeia de resposta, desde as operações em áreas contaminadas até o atendimento hospitalar.
A participação de um especialista brasileiro na Costa Rica contribui para o intercâmbio técnico e pode produzir efeitos multiplicadores na formação conduzida pela Escola de Instrução Especializada. Contudo, ela não representa, por si só, a validação da capacidade DQBRN do Exército ou do sistema brasileiro de resposta a emergências químicas.
Transformar conhecimento individual em capacidade institucional exige difusão doutrinária, formação de equipes, disponibilidade de detectores, equipamentos de proteção, estruturas de descontaminação, laboratórios, sistemas médicos e meios de comando e controle. Também demanda integração com Corpos de Bombeiros, Defesa Civil, serviços de saúde e órgãos responsáveis pela segurança de instalações industriais.
A atividade possui, assim, alto valor qualitativo, mas escala limitada. Seu efeito dependerá da capacidade de incorporar e multiplicar os conhecimentos obtidos.

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Amplitude não significa prontidão plena
Em conjunto, as três atividades indicam que o Exército busca trabalhar competências diversificadas. O exercício da 11ª Brigada concentrou-se na execução tática sob estresse. A Operação Minuano priorizou planejamento, simulação e interoperabilidade. A capacitação promovida pela OPAQ tratou de uma ameaça especializada com importantes aplicações militares e civis.
O ponto favorável está na complementaridade. Forças modernas não podem restringir sua preparação ao campo de tiro, tampouco substituir o treinamento prático por simulações. O desafio está em combinar planejamento, execução, tecnologia, cooperação internacional e especializações de baixa incidência, mas elevado impacto.
O contraponto está na diferença entre atividade realizada, capacidade demonstrada e capacidade sustentável. As informações institucionais comprovam que os treinamentos ocorreram e descrevem seus objetivos. Não oferecem, contudo, dados suficientes para aferir níveis de disponibilidade material, tempos de resposta, índices de acerto, falhas de comunicação, consumo logístico ou capacidade de manter operações por períodos prolongados.
Prontidão é uma condição contínua e mensurável, não uma conclusão que possa ser deduzida de um evento isolado. Uma força pode executar adequadamente um exercício e ainda enfrentar restrições de pessoal, manutenção, munição, transporte, comunicações ou reposição de equipamentos em um cenário real.
Também não existe, nas informações publicadas, evidência de que as três atividades façam parte de um único programa coordenado. Apenas o exercício da 11ª Brigada foi formalmente associado ao Projeto Força 40. A Operação Minuano e a capacitação DQBRN são compatíveis com uma concepção mais ampla de modernização e preparo, mas não devem ser incorporadas formalmente ao projeto sem documentação que sustente essa relação.




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Transformação, tecnologia e sustentação
Os conflitos contemporâneos vêm reforçando a importância de comunicações protegidas, emprego de drones, guerra eletrônica, dispersão de unidades, integração entre sensores e sistemas de armas e manutenção de cadeias logísticas sob ameaça. Nesse ambiente, o tiro real continua indispensável, mas já não é suficiente como indicador isolado de capacidade de combate.
Da mesma forma, sistemas de simulação permitem testar decisões e reduzir custos, mas precisam ser periodicamente confrontados com o desempenho das tropas no terreno. A passagem prevista da Operação Minuano para uma simulação viva em 2027 será relevante justamente porque poderá verificar se a interoperabilidade alcançada nos estados-maiores funciona durante deslocamentos, comunicações, apoio logístico e execução de manobras reais.
Existe ainda uma dimensão industrial. Exercícios recorrentes geram informações sobre desempenho de armamentos, disponibilidade de viaturas, confiabilidade de rádios, consumo de munição e necessidade de equipamentos especializados. Quando incorporadas ao planejamento, essas informações podem orientar aquisições, manutenção e desenvolvimento de produtos pela Base Industrial de Defesa.
Sem continuidade orçamentária, entretanto, o adestramento corre o risco de se dissociar da disponibilidade material. Projetos de transformação precisam sustentar não apenas a aquisição de plataformas, mas também munições, peças, treinamento, infraestrutura, atualizações tecnológicas e manutenção ao longo de todo o ciclo de vida.
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A continuidade será o verdadeiro indicador
Os três eventos analisados demonstram uma direção institucional coerente: exercitar o combate, desenvolver interoperabilidade e preservar conhecimentos para ameaças especializadas. Seu valor, porém, será determinado pelo que ocorrer depois deles.
No plano tático, será necessário ampliar progressivamente a escala dos exercícios com tiro real e integrar mobilidade, sensores, fogos, defesa anticarro, drones, guerra eletrônica e logística. Na cooperação com o Uruguai, o teste decisivo será a passagem do planejamento virtual para a atuação combinada no terreno. Na área química, o resultado dependerá da transformação da experiência individual em competência disseminada e integrada às instituições civis.
A prontidão do Exército não será medida apenas pela diversidade de exercícios realizados, mas pela capacidade de repetir, avaliar, corrigir e sustentar essas atividades ao longo do tempo. Se houver continuidade doutrinária, disponibilidade material e incorporação das lições aprendidas, os treinamentos poderão formar uma base efetiva para a transformação prevista até 2040. Sem esses elementos, permanecerão iniciativas relevantes, mas episódicas.
Em defesa, soberania exige capacidade, continuidade e coerência.
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