O caçador na era dos drones: a guerra da Ucrânia exige uma revisão da doutrina brasileira?

Estágio realizado na Amazônia Oriental reforça competências tradicionais de tiro e observação, mas a vigilância aérea persistente, os sensores térmicos e a integração entre drones e fogos indiretos transformaram as condições de emprego e sobrevivência do caçador.

Por Ricardo Fan – DefesaNet

(RDN) O Estágio de Caçador de Corpo de Tropa conduzido pelo 52º Batalhão de Infantaria de Selva, em Marabá, no Pará, reafirma uma capacidade relevante para o Exército Brasileiro. Durante duas semanas, 13 militares de diferentes organizações do Comando Militar da Amazônia Oriental receberam instruções de tiro, regulagem do sistema de armamento, observação, memorização, descrição de alvos e avaliação de distâncias.

O treinamento, realizado em julho de 2026, procura formar militares capazes de empregar técnicas especializadas e disseminar o conhecimento adquirido em suas unidades. A iniciativa fortalece a preparação das tropas de selva, mas também abre uma discussão que ultrapassa os resultados imediatos do estágio: até que ponto a doutrina tradicional do caçador continua adequada a um campo de batalha saturado por drones, sensores térmicos, guerra eletrônica e fogos de precisão?

A guerra na Ucrânia não eliminou a importância do caçador. Ao contrário, preservou a necessidade de combatentes capazes de observar, identificar e engajar alvos seletivamente. O conflito, entretanto, modificou as condições sob as quais esse militar opera. O caçador contemporâneo deixou de enfrentar somente a observação terrestre e o fogo de outro atirador. Ele passou a atuar sob vigilância aérea frequente e diante de uma cadeia de engajamento capaz de transformar uma assinatura visual, térmica ou eletromagnética em um ataque de drone, morteiro ou artilharia.

A questão doutrinária, portanto, não consiste em substituir o fuzil de precisão pelo drone. Consiste em redefinir a posição do caçador dentro de um sistema de reconhecimento e ataque cada vez mais integrado.

Da ocultação visual ao gerenciamento de assinaturas

A doutrina clássica do caçador foi construída sobre a combinação de precisão, paciência, disciplina, conhecimento do terreno e capacidade de ocultação. Esses fundamentos permanecem válidos. O problema é que a camuflagem visual tradicional deixou de ser suficiente.

Drones equipados com câmeras de alta definição e sensores térmicos podem observar áreas extensas, acompanhar deslocamentos e identificar diferenças de temperatura entre o combatente, seus equipamentos e o ambiente. A vegetação, a sombra e os uniformes camuflados continuam dificultando a detecção pelo olho humano, mas não necessariamente protegem contra sensores instalados em plataformas aéreas.

A própria Escola de Caçadores do Exército dos Estados Unidos passou a testar sistemas de camuflagem multiespectral destinados a reduzir a identificação por sensores térmicos terrestres e aerotransportados. O interesse foi intensificado depois que instrutores empregaram drones durante exercícios e observaram como as aeronaves alteravam as condições das pistas de infiltração e aproximação. O objetivo já não é apenas esconder o movimento da equipe diante de um observador convencional, mas controlar simultaneamente suas assinaturas visual e térmica. U.S. Army

Esse processo possui implicação direta para a formação brasileira. O caçador precisa compreender não apenas como se confundir com o terreno, mas como o terreno aparece através de diferentes sensores. Coberturas naturais podem produzir proteção visual, enquanto mantêm uma assinatura térmica perceptível. Equipamentos eletrônicos e comunicações, por sua vez, acrescentam uma dimensão eletromagnética à exposição da equipe.

Gerenciar assinaturas passa a envolver seleção de posições, limitação do tempo de permanência, disciplina nas comunicações, redução de reflexos ópticos, controle de fontes de calor, utilização de anteparos e planejamento antecipado de rotas de retirada. Também exige o emprego de posições falsas e outros recursos de dissimulação destinados a atrair a vigilância e o fogo inimigos.

O disparo pode iniciar uma cadeia de engajamento

A localização de um caçador adversário já não depende exclusivamente da observação do clarão, da poeira levantada pelo disparo ou do cálculo aproximado de sua trajetória. Drones podem investigar a área, acompanhar prováveis rotas de retirada e transmitir coordenadas para outros meios de combate.

A consequência é uma redução do intervalo entre detecção e ataque. Uma posição considerada segura sob os parâmetros tradicionais pode se tornar vulnerável poucos minutos depois do disparo. A resposta inimiga poderá partir de um drone FPV, de uma aeronave que lance munições, de um morteiro ou de uma unidade de artilharia conectada aos meios de reconhecimento.

A guerra na Ucrânia demonstrou que os pequenos sistemas aéreos não tripulados se converteram em instrumentos simultâneos de reconhecimento, aquisição de alvos, correção de fogos e ataque. Análises publicadas pelo Army University Press apontam que a presença de drones nos menores escalões permite reduzir o tempo entre a identificação do alvo e seu engajamento, além de ampliar a precisão dos fogos indiretos. A mesma literatura registra que parte das doutrinas convencionais ainda não absorveu completamente a realidade da vigilância constante e dos ataques conduzidos por drones FPV. Army University Press

Nesse ambiente, a mobilidade deixa de ser apenas um atributo desejável. Passa a constituir requisito de sobrevivência. O planejamento da missão precisa considerar posições alternativas, rotas previamente reconhecidas, comunicações redundantes e procedimentos específicos para a presença de drones sobre a área de operações.

De dupla de tiro a célula de reconhecimento e ataque

A organização tradicional em uma dupla composta por caçador e observador permanece funcional. O observador identifica alvos, calcula distâncias, avalia condições atmosféricas, acompanha os efeitos do tiro e protege a equipe. A evolução tecnológica, contudo, sugere que essa configuração pode ser insuficiente em missões de maior complexidade.

O caçador tende a assumir uma função mais ampla dentro da cadeia sensor–decisor–atirador. Sua equipe pode localizar o alvo por observação terrestre, confirmá-lo com um drone, transmitir dados para o comando e participar da escolha do meio de engajamento mais adequado. Dependendo da situação, o fuzil de precisão poderá ser empregado. Em outros casos, o ataque poderá ser executado por morteiro, artilharia, munição vagante ou drone FPV.

Isso não significa necessariamente transformar toda dupla de caçadores em uma estrutura numerosa e difícil de ocultar. A solução pode estar na formação de células modulares, organizadas conforme a missão, reunindo caçador, observador, operador de drone e ligação com os elementos de apoio de fogo. Capacidades de comunicações seguras, guerra eletrônica e alerta contra drones poderiam ser incorporadas diretamente ou disponibilizadas pela unidade apoiada.

A mudança principal é conceitual. O valor do caçador deixaria de ser medido prioritariamente pelo número de alvos atingidos e passaria a incluir sua contribuição para o reconhecimento, a produção de inteligência, a proteção da tropa e a orientação de outros sistemas de armas.

Continuidade ou revisão?

Uma primeira interpretação sustenta que os fundamentos permanecem imutáveis. O caçador continuará necessitando de excelente capacidade de tiro, observação, avaliação de distâncias, disciplina, resistência física e conhecimento do terreno. Drones podem falhar, sofrer interferência, perder o enlace ou ter sua operação limitada pelas condições meteorológicas e pela vegetação. Em determinadas missões, o disparo de precisão continuará oferecendo discrição, seletividade e menor efeito colateral quando comparado ao emprego de explosivos.

Essa leitura contém uma parcela importante de verdade. A incorporação precipitada de tecnologias também pode produzir dependência, aumentar a assinatura da equipe e sobrecarregar o combatente com equipamentos que reduzam sua autonomia. O operador de drone, as baterias, as antenas e os terminais de comunicação acrescentam peso, exigem manutenção e podem revelar a posição por suas emissões.

O contraponto é que preservar fundamentos não equivale a conservar sem alterações a doutrina de emprego. A guerra na Ucrânia demonstrou que as tecnologias não apenas adicionaram equipamentos ao campo de batalha: elas reorganizaram as relações entre observação, decisão e fogo. A equipe que não compreende a ameaça aérea, não controla suas emissões e não consegue integrar-se rapidamente a outros sensores e armas poderá ser localizada e neutralizada antes de cumprir sua missão.

A revisão doutrinária não deve transformar o caçador em operador de todos os sistemas disponíveis. Deve permitir que ele reconheça as novas ameaças, explore as capacidades da unidade e mantenha condições de atuação quando drones, comunicações ou navegação por satélite estiverem indisponíveis. O desafio está em combinar competência tecnológica com autonomia tática.

A Amazônia não reproduz o campo de batalha ucraniano

Transpor automaticamente as experiências da Ucrânia para a Amazônia seria outro erro. O terreno, o clima, a densidade da vegetação e a infraestrutura de comunicações são diferentes. A guerra no Leste Europeu ocorre, em grande parte, sobre campos abertos, áreas agrícolas, localidades urbanizadas e extensas linhas defensivas. Na selva, a copa das árvores limita a observação aérea e pode dificultar tanto o controle quanto o emprego ofensivo de drones.

Essas limitações, contudo, não anulam a transformação tecnológica. Rios, estradas, clareiras, pistas de pouso, posições logísticas, áreas de garimpo e faixas de fronteira oferecem corredores de observação e deslocamento. Aeronaves não tripuladas com sensores térmicos podem apoiar a busca de pessoal sob determinadas condições, embora seu desempenho seja afetado pela densidade da vegetação e pelo ambiente térmico.

A umidade, o calor, as chuvas frequentes e as grandes distâncias impõem desafios adicionais à autonomia das baterias, aos equipamentos ópticos e eletrônicos e à manutenção dos enlaces. Por isso, a Amazônia precisa de uma adaptação própria, construída por experimentação em campo, e não de uma simples importação de soluções desenvolvidas para a Ucrânia.

O Estágio de Caçador na Amazônia Oriental poderia funcionar como ambiente de validação dessas mudanças. Exercícios com drones atuando como ameaça, sensores térmicos, interferência nas comunicações, perda do sinal de navegação e integração com apoio de fogo permitiriam medir a capacidade real das equipes, identificar vulnerabilidades e produzir procedimentos adequados à floresta.

Tecnologia, indústria e autonomia operacional

A revisão doutrinária também possui uma dimensão industrial. Camuflagem multiespectral, ópticos térmicos, detectores de drones, rádios de baixa probabilidade de interceptação, sistemas não tripulados e equipamentos portáteis de guerra eletrônica dependem de fornecimento, manutenção, atualização e reposição.

Não basta incluir esses recursos em documentos ou demonstrações. Uma capacidade operacional exige disponibilidade nas unidades, operadores treinados, estoques de componentes, baterias, software atualizado e exercícios regulares. Caso contrário, haverá uma distância entre a capacidade anunciada e a capacidade efetivamente empregável.

A incorporação de drones comerciais adaptados pode reduzir custos e acelerar a experimentação, mas também cria vulnerabilidades relacionadas a componentes importados, enlaces conhecidos e dependência de sistemas externos de navegação. A resposta brasileira precisa equilibrar aquisição rápida, desenvolvimento industrial, segurança das comunicações e capacidade de operar em ambiente degradado.

Quem ganha com essa transformação são as forças que conseguem encurtar sua cadeia de decisão sem expor excessivamente seus combatentes. Perdem aquelas que preservam estruturas rígidas, tratam drones como recurso excepcional ou separam artificialmente reconhecimento, inteligência e apoio de fogo.

Revisar a doutrina sem descartar os fundamentos

A guerra da Ucrânia não decretou o fim do caçador nem tornou secundário o domínio do tiro de precisão. Ela mostrou que o caçador já não pode ser analisado isoladamente de drones, sensores, guerra eletrônica e fogos indiretos. Sua eficácia depende tanto de acertar o alvo quanto de permanecer invisível a diferentes meios de detecção, comunicar-se sem revelar a posição e integrar-se a uma rede mais ampla de combate.

O estágio conduzido pelo 52º Batalhão de Infantaria de Selva representa uma iniciativa válida de preparação e disseminação de conhecimento. Ao formar 13 militares como multiplicadores, amplia-se a capacidade existente nas organizações do Comando Militar da Amazônia Oriental. Contudo, multiplicar conhecimento somente produz vantagem duradoura se o conteúdo transmitido acompanhar as mudanças do ambiente operacional.

A revisão necessária não deve ser orientada por modismo tecnológico nem pela reprodução acrítica da experiência ucraniana. Deve partir dos fundamentos consolidados, incorporar as ameaças contemporâneas e validar as soluções nas condições específicas da Amazônia. Isso inclui rever currículos, equipamentos, composição das equipes, integração com drones e apoio de fogo, gerenciamento de assinaturas e procedimentos de sobrevivência sob vigilância aérea persistente.

O caçador permanece relevante porque reúne características que a tecnologia, isoladamente, não substitui: julgamento, disciplina, interpretação do terreno e capacidade de decidir diante de situações ambíguas. Mas sua sobrevivência e seu valor operacional dependerão cada vez mais de sua inserção em um sistema integrado. A pergunta, portanto, não é se o Brasil deve abandonar a doutrina existente, mas se conseguirá atualizá-la antes que a distância entre o treinamento tradicional e o combate contemporâneo se transforme em vulnerabilidade operacional.

Nota: O que a descrição do estágio não esclarece

A publicação do Exército informa que o estágio abordou fundamentos de tiro, regulagem do armamento, técnicas de observação, memorização, descrição e avaliação de distâncias. São competências indispensáveis, mas a nota não menciona emprego de drones, sensores térmicos, disciplina eletromagnética, integração com fogos indiretos ou treinamento sob vigilância aérea.

Essa ausência não permite afirmar que tais conteúdos estejam fora de toda a formação. Notas institucionais normalmente apresentam uma síntese das atividades e podem omitir partes do currículo, equipamentos, procedimentos e critérios de avaliação. Também seria precipitado julgar a doutrina completa do Exército com base na divulgação de um único estágio.

A informação disponível, entretanto, permite formular uma pergunta legítima. Se a descrição publicada corresponder ao núcleo efetivo da capacitação, o estágio continua concentrado no emprego tradicional do caçador, enquanto os conflitos contemporâneos exigem competências adicionais para detecção, sobrevivência, integração e transmissão de informações.

O Exército dispõe de uma edição experimental do Caderno de Instrução do Caçador de Corpo de Tropa, datada de 2019 e referenciada em trabalhos acadêmicos militares. A data não torna automaticamente seu conteúdo superado, mas é anterior à invasão russa em larga escala da Ucrânia e à disseminação massiva dos drones FPV, ocorrida a partir de 2022. A velocidade dessa transformação recomenda a revisão periódica dos conteúdos, da organização das equipes e dos exercícios de validação.

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