A Transformação do Poder de Combate Diante da Assimetria, da Furtividade e da Uniquidade dos Sistemas não Tripulados

A TRANSFORMAÇÃO DO PODER DE COMBATE DIANTE DA ASSIMETRIA, DA FURTIVIDADE E DA UBIQUIDADE DOS SISTEMAS NÃO TRIPULADOS

Fábio Benvenutti Castro
General de Divisão R1 do Exército Brasileiro

Os conflitos contemporâneos estão produzindo uma transformação profunda na forma como as forças militares combatem, são empregadas e, principalmente, como devem ser organizadas. A experiência das guerras recentes demonstra que superioridade tecnológica, econômica e militar não se traduz automaticamente em resultados decisivos. Quando confrontada por um adversário que emprega dispersão, furtividade, mobilidade, baixa assinatura e sistemas de baixo custo, uma força convencional pode descobrir que algumas de suas próprias vantagens também constituem fontes de vulnerabilidade. A questão central, portanto, já não é apenas quem possui maior poder de combate, mas quem consegue fazer esse poder de combate sobreviver, localizar o adversário e produzir efeitos decisivos antes que o próprio poder de combate seja localizado e atingido.

Essa mudança é mais profunda do que a simples disseminação dos drones. O que está em transformação é a relação entre custo, informação, distância, concentração, proteção, velocidade decisória e poder de fogo. A premissa segundo a qual uma guerra futura poderá ser vencida simplesmente reproduzindo os métodos que produziram a vitória no conflito anterior torna-se, portanto, particularmente arriscada. A história militar demonstra que os conflitos não apenas empregam tecnologias diferentes: eles modificam a relação entre espaço, tempo, concentração, proteção, informação e poder de fogo.

Durante grande parte da história militar moderna, a profundidade operacional proporcionava uma espécie de proteção. Quanto maior a distância entre uma unidade e o inimigo, maior seria sua segurança relativa. A linha de frente concentrava o combate, enquanto a retaguarda abrigava comando, logística, manutenção, reservas e outros elementos necessários à sustentação da força. A concentração de meios também era uma das formas clássicas de produzir superioridade local. Essa lógica está sendo progressivamente questionada.

Satélites, sensores terrestres, aeronaves não tripuladas, munições guiadas, guerra eletrônica e sistemas de processamento de dados reduziram drasticamente a capacidade de esconder grandes concentrações de tropas e equipamentos. A guerra na Ucrânia tornou esse fenômeno particularmente evidente. A proliferação de drones ampliou a capacidade de observar o campo de batalha, identificar movimentos e acompanhar alvos. Artilharia, postos de comando, sistemas de guerra eletrônica, veículos logísticos e concentrações de tropas passaram a estar sujeitos à observação e ao ataque em profundidade.

A consequência é direta: a retaguarda deixou de ser necessariamente um espaço seguro. Uma unidade pode estar fisicamente distante do inimigo e, ainda assim, permanecer dentro de seu ciclo de detecção, identificação, decisão e engajamento. A profundidade deixou de significar necessariamente segurança. E isso produz uma inversão importante. Historicamente, concentrar forças aumentava o poder de combate. No ambiente contemporâneo, concentrar forças também pode aumentar a assinatura, facilitando sua localização e tornando-as alvos mais atrativos. A concentração, que durante séculos foi instrumento de vitória, pode transformar-se em instrumento de vulnerabilidade.

O dilema entre Davi e Golias continua sendo uma boa representação dos conflitos assimétricos. A força mais poderosa possui melhores sensores, maior poder de fogo, maior mobilidade, melhor proteção, logística mais robusta e maior capacidade de sustentação. O adversário mais fraco, entretanto, pode simplesmente evitar o tipo de combate no qual essas vantagens seriam decisivas. A assimetria não significa necessariamente que o combatente mais fraco tenha tecnologia superior. Em muitos casos ocorre exatamente o contrário. Sua vantagem pode estar em empregar meios simples, baratos, numerosos, difíceis de detectar e suficientemente eficazes para impor custos desproporcionais ao adversário.

É nesse ponto que a dimensão econômica passa a adquirir importância operacional. Um sistema de milhões de dólares pode possuir enorme capacidade destrutiva. Entretanto, se necessita de uma estrutura igualmente sofisticada para sobreviver, sua eficiência econômica pode ser questionada quando empregado contra sistemas que custam uma fração de seu valor. George e Meredith Friedman já discutiam, em The Future of War, a crescente importância dos sensores, do reconhecimento e das armas guiadas na transformação da guerra. O que mudou foi a democratização dessas capacidades.

A precisão deixou de ser exclusividade dos sistemas sofisticados. Drones comerciais adaptados, sistemas FPV e outros veículos não tripulados de baixo custo permitem combinar precisão suficiente, produção em escala e reduzido risco humano. Em determinadas circunstâncias, um sistema que custa milhares de dólares pode ameaçar um equipamento que custa milhões. Mas existe algo ainda mais importante: o sistema barato nem sequer precisa destruir o sistema caro. Pode obrigá-lo a se dispersar, esconder-se, interromper sua missão ou consumir recursos significativos para sua proteção. Se um drone de baixo custo obriga um sistema de milhões de dólares a abandonar sua posição, interromper uma operação ou revelar sua localização, já produziu um efeito militar relevante.

A assimetria passa, portanto, a envolver não apenas capacidade militar, mas relação custo-efeito e sustentabilidade ao longo do tempo. Em um conflito prolongado, essa dimensão econômica pode adquirir importância estratégica. A capacidade de produzir, repor e empregar sistemas em quantidade pode ser tão importante quanto a capacidade individual de cada plataforma.

Durante décadas, uma das principais formas de obter vantagem tecnológica foi conseguir atingir o adversário antes que ele pudesse responder. Maior alcance significava maior distância de segurança. Um carro de combate com melhor sistema de aquisição de alvos e munição de maior alcance poderia destruir seu oponente antes de entrar em sua zona de engajamento. A mesma lógica se aplicava a aeronaves, navios e sistemas de artilharia. Essa lógica continua válida, mas o stand-off tornou-se relativo.

O problema é que o aumento do alcance dos sistemas adversários não precisa mais vir acompanhado de aumento proporcional de custo e complexidade. Um sistema sofisticado pode ser atacado por diferentes vetores, provenientes de diferentes direções e empregados em diferentes escalas. Drones, munições de precisão, sistemas de reconhecimento e ataques coordenados podem transformar o ambiente ao redor de uma plataforma de alto valor em uma área permanentemente contestada.

A pergunta deixou de ser apenas “quem possui maior alcance?” e passou a ser “quem consegue manter funcionando seu ciclo de detecção, decisão e engajamento enquanto protege simultaneamente seus próprios sistemas?”. Nesse ambiente, o stand-off não desapareceu. Ele se tornou contestável. Uma aeronave pode manter distância de uma ameaça terrestre, mas sua base pode ser localizada. Um navio pode permanecer fora do alcance de determinado míssil, mas ser localizado por outro sensor e atacado por outro vetor. Um carro de combate pode possuir superioridade absoluta contra outro carro de combate e, ainda assim, ser vulnerável a um drone que sequer participa do mesmo tipo de combate.

A vantagem não está mais exclusivamente em permanecer fora do alcance do inimigo. Está em controlar a cadeia que transforma informação em efeito.

Talvez essa seja a transformação mais importante. O centro de gravidade tecnológico do combate está migrando progressivamente da plataforma isolada para a rede que integra sensores, sistemas de comando e controle, meios de processamento e vetores de efeito. O valor de um carro de combate, navio ou aeronave continua existindo. O que mudou é sua relação com o sistema mais amplo do qual participa.

Uma plataforma extremamente sofisticada, mas facilmente detectável, pode ser menos eficiente em determinadas circunstâncias do que uma combinação distribuída de sensores e armas de menor custo. Um drone isolado possui valor limitado. Uma rede capaz de produzir milhares de observações, classificações e oportunidades de ataque em tempo quase real constitui outra capacidade operacional. É a passagem da lógica de plataformas para sistemas de sistemas.

Nesse ambiente, inteligência, vigilância e reconhecimento deixam de ser simplesmente atividades de apoio. Passam a constituir parte central do próprio poder de combate. Quem detecta primeiro, identifica corretamente, decide mais rapidamente e produz efeito antes de ser localizado obtém uma vantagem que pode superar diferenças tradicionais de massa e poder de fogo. A guerra passa a ser, cada vez mais, uma disputa entre ciclos. Quem consegue completar seu ciclo de detecção, decisão e engajamento primeiro pode impor ao adversário uma situação na qual ele está permanentemente reagindo.

Essa transformação também modifica a relação entre espaço e tempo. O campo de batalha está se tornando mais transparente. Isso não significa que todos os alvos serão sempre detectados, mas que a capacidade de permanecer oculto por longos períodos está diminuindo. Essa mudança favorece forças menores e mais dispersas, mas também cria oportunidades para quem consegue integrar sensores e armas em redes capazes de reagir rapidamente.

A camuflagem continua importante. A ocultação continua importante. A mobilidade continua importante. Mas nenhuma delas pode ser considerada isoladamente suficiente. A sobrevivência passa a depender de uma combinação de baixa assinatura, dispersão, mobilidade, disciplina de emissões, guerra eletrônica, redundância e capacidade de adaptação. A força que permanece imóvel, concentrada e previsível corre o risco de ser encontrada. A força que se movimenta, dispersa e adapta-se aumenta suas possibilidades de sobrevivência.

Existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida nessa discussão: a capacidade física de atingir um alvo não significa necessariamente liberdade política ou jurídica para fazê-lo. Infraestruturas de energia, barragens, portos, aeroportos, redes de transporte e outras instalações de uso dual podem desempenhar simultaneamente funções civis e militares. Isso cria problemas complexos de distinção, proporcionalidade e precaução.

Essa questão é particularmente relevante nos conflitos assimétricos. O adversário mais fraco pode procurar operar em ambientes nos quais a resposta militar do adversário seja limitada por considerações políticas, jurídicas ou humanitárias. Sua proteção, portanto, não depende apenas de blindagem, distância ou sistemas defensivos. Pode depender também da dificuldade que o adversário enfrenta para empregar seu poder de fogo.

Isso não significa que as normas internacionais sejam responsáveis pela sobrevivência das forças assimétricas. Significa que o ambiente político e jurídico também passou a fazer parte do cálculo operacional. A superioridade militar não é apenas a capacidade de destruir. É a capacidade de produzir efeitos militares dentro dos limites políticos e jurídicos existentes.

Diante de um adversário difuso, furtivo, distribuído e apoiado por sistemas de baixo custo, existem diferentes respostas possíveis. A primeira é aumentar a capacidade de destruição direta, empregando a superioridade militar disponível para reduzir progressivamente a capacidade de resistência do adversário. A segunda é ampliar o espaço de combate, reduzindo a exposição por meio de dispersão, aviação de longo alcance, mísseis de precisão, sistemas remotos e outras formas de projeção de poder.

A terceira — e talvez mais importante — é reorganizar o próprio ciclo de combate: detectar, identificar, decidir, engajar, avaliar e adaptar. A velocidade desse ciclo pode ser tão importante quanto a potência individual de cada arma. O objetivo não deve ser simplesmente destruir o maior número possível de plataformas inimigas. Deve ser impedir que o adversário transforme sua furtividade, dispersão, quantidade e baixo custo em superioridade operacional.

Se o inimigo consegue produzir milhares de sistemas baratos, responder com milhares de sistemas caros pode ser economicamente inviável. A resposta precisa combinar diferentes camadas de defesa e diferentes níveis de custo. É necessário pensar em arquiteturas distribuídas, escaláveis, redundantes e sustentáveis. A guerra prolongada é também uma competição industrial e econômica.

Os conflitos recentes indicam, portanto, que o conceito tradicional de poder de combate está passando por uma transformação. A massa continua importante, mas sua concentração física tornou-se mais arriscada. O alcance continua sendo fundamental, mas o stand-off deixou de representar uma condição absoluta de segurança. A tecnologia continua sendo decisiva, mas a plataforma mais sofisticada nem sempre será aquela que produzirá o maior efeito operacional.

O elemento transformador central não é o drone isoladamente. É a combinação entre baixo custo, produção em massa, sensores persistentes, conectividade, processamento de dados, inteligência artificial e velocidade no ciclo de decisão. Essa combinação modifica a própria arquitetura do poder de combate.

A concentração precisa ser equilibrada com dispersão. O poder de fogo precisa ser combinado com informação. A proteção física precisa ser complementada por baixa assinatura. A superioridade tecnológica precisa ser acompanhada de capacidade industrial para produzir em quantidade. E a plataforma precisa estar integrada a uma rede.

A força que vencerá os conflitos futuros não será necessariamente aquela que possuir os sistemas individualmente mais sofisticados. Será aquela capaz de integrar tecnologia, informação, dispersão e adaptação em uma arquitetura suficientemente resiliente para sobreviver ao ambiente de transparência e ameaça permanente do campo de batalha.

O desafio não é substituir plataformas tripuladas por sistemas não tripulados. É muito maior. É reorganizar o poder de combate em torno de uma arquitetura na qual plataformas tripuladas, sistemas não tripulados, sensores, inteligência, comando e controle e armas trabalhem como uma única rede distribuída.

Nesse cenário, a principal vantagem não será necessariamente possuir o armamento mais poderoso. Será possuir a capacidade de ver primeiro, decidir mais rapidamente, sobreviver à detecção, adaptar-se continuamente e produzir efeitos de forma persistente e economicamente sustentável.

A transformação do poder de combate, portanto, não representa o fim da plataforma, da massa ou da concentração. Representa o fim da ideia de que esses elementos, isoladamente, são suficientes.

O campo de batalha contemporâneo exige algo diferente: não apenas poder de destruição, mas poder de persistência.

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