Tiro real de 120 mm apresenta elevado índice de precisão durante avaliação para a Nova Família sobre Lagartas. Foto – Delegação brasileira chefiada pelo Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército (EME), General de Divisão Eduardo Tavares Martins.
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
NETTUNO, Itália — 23 de setembro de 2026. O Exército Brasileiro acompanhou nesta quarta-feira (23SET2026) uma demonstração de tiro real da Viatura Blindada de Combate Carro de Combate (VBC CC) TULPAR, equipada com a torre HITFACT MkII de 120 mm, no centro de testes e polígono militar UTTAT — Ufficio Tecnico Territoriale Armamenti Terrestri — em Nettuno, na Itália.
A atividade foi realizada a convite da Otokar e da Leonardo e contou com uma delegação oficial do Exército Brasileiro, liderada pelo Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército (EME), General de Divisão Eduardo Tavares Martins.
A demonstração ocorreu no contexto da avaliação da Nova Família sobre Lagartas, dentro do Programa Estratégico do Exército Forças Blindadas (Prg EE F Bld).
12 disparos, 12 impactos
Foram realizados 12 disparos, utilizando munição DM88 do tipo TPCSDS — Target Practice, Cone Stabilized, Discarding Sabot — contra um alvo padrão OTAN, a distâncias de 1.300 e 1.350 metros.
Seis disparos foram realizados com a viatura estática e seis com o TULPAR em movimento, a aproximadamente 20 km/h.
Todos os 12 disparos atingiram o alvo.
Segundo os dados apresentados durante a atividade, o índice de acuracidade foi de 99,97% com a viatura estática e 95,07% em movimento. O desvio máximo registrado foi de 20 centímetros.
O teste permitiu aos militares brasileiros observar o comportamento da plataforma e do sistema de armas em condições estáticas e dinâmicas.

Foto disparo do canhão 120mm/45 em testes de integração realizados anteriormente pela Leonardo Ver matéria: TULPAR e HITFACT MkII – Otokar e Leonardo concluem integração e testes de tiro com canhão de 120 mm
Lições dos conflitos modernos
O desenvolvimento do TULPAR incorporou experiências obtidas nos conflitos modernos, com atenção à proteção da tripulação, mobilidade e integração de sistemas.
O projeto considera um ambiente operacional marcado pela presença de armas anticarro, drones, munições de ataque superior e sistemas de vigilância e aquisição de alvos.
A arquitetura do veículo permite diferentes configurações de torre, sensores e sistemas de armas, além de modificações ao longo do ciclo de vida.
A utilização de uma mesma plataforma em diferentes versões também pode reduzir a diversidade de componentes e equipamentos de apoio, com possíveis efeitos sobre treinamento, manutenção e logística.
Uma plataforma, diferentes configurações
A proposta apresentada ao Brasil contempla uma família de veículos baseada na mesma plataforma.
Entre as configurações de maior interesse estão o TULPAR MMBT, equipado com a HITFACT MkII de 120 mm, e o TULPAR IFV, equipado com a torre HITFIST de 30 mm.
A versão IFV é destinada ao transporte e apoio à infantaria. O canhão de 30 mm permite o engajamento de veículos blindados e outros alvos terrestres. Dependendo da integração de sensores, munições e sistemas de controle, a configuração também pode participar de missões de defesa contra sistemas aéreos não tripulados (C-UAS).
A família inclui ainda configurações para outras funções, como apoio de fogo, defesa antiaérea, morteiro, recuperação e evacuação médica.
Para o Exército Brasileiro, a questão é verificar em que medida uma plataforma comum pode atender diferentes funções e contribuir para uma cadeia logística mais racional.

Equipes e dirigentes da Leonardo, Otokar e o Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército (EME), General de Divisão Eduardo Tavares Martins.
Conexão com o Centauro II
A utilização da HITFACT MkII estabelece uma conexão com o Centauro II, programa já contratado pelo Exército Brasileiro. (ver matéria – https://www.defesanet.com.br/guarani/exercito-brasileiro-assina-contrato-do-centauro-ii-e-inaugura-nova-era-para-a-cavalaria/)
Essa comunalidade pode trazer benefícios em treinamento, manutenção e familiarização das equipes, embora os resultados efetivos dependam da configuração final dos veículos e dos requisitos estabelecidos pelo Exército.
Otokar
A Otokar é uma tradicional fabricante turca de veículos militares. Segundo dados da empresa, já produziu mais de 35 mil veículos blindados para as Forças Armadas da Turquia e clientes internacionais.
A companhia mantém também uma estrutura própria de desenvolvimento e testes de veículos e equipamentos militares na Turquia. Segundo a empresa, trata-se da maior infraestrutura desse tipo no país e uma das maiores da Europa.
O complexo é utilizado para testes, validação e certificação de produtos da própria Otokar e de equipamentos desenvolvidos por outras empresas.
A capacidade de realizar internamente parte significativa dos ensaios é um dos elementos da estrutura industrial disponível para o desenvolvimento do TULPAR e de suas diferentes configurações.

Dirigentges da Leonardo e Otokar presenteiam com uma maquete o Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército (EME), General de Divisão Eduardo Tavares Martins.
Otokar e Leonardo
No Brasil, o TULPAR é apresentado pela Otokar em parceria com a Leonardo, responsável pelas torres utilizadas nas diferentes configurações.
A proposta está associada a um modelo de acordo Governo-a-Governo (G2G) entre Brasil e Turquia, com possibilidade de cooperação industrial e tecnológica.
Além das características do veículo, a avaliação brasileira envolve fatores como integração de sistemas, logística, suporte durante o ciclo de vida, participação da indústria nacional e possibilidades de produção ou manutenção no País.
Uma decisão de longo prazo
A escolha da Nova Família sobre Lagartas não se resume à substituição dos Leopard 1A5. Ela envolve a definição de uma nova geração de veículos sobre lagartas e dos sistemas que deverão acompanhá-los nas próximas décadas.
Nesse contexto, o TULPAR apresenta uma arquitetura que permite diferentes configurações a partir de uma mesma plataforma.
A demonstração de Nettuno forneceu um resultado objetivo para essa avaliação: 12 disparos de 120 mm, todos com impacto no alvo, realizados tanto com a viatura estática quanto em movimento.
O desempenho observado será um dos elementos a serem considerados pelo Exército Brasileiro na avaliação das alternativas para sua futura força blindada sobre lagartas.



















