Orçamento das Forças Armadas e eventuais alterações no sistema de proteção social da categoria devem continuar no horizonte
Fernando Exman e Beatriz Roscoe
De Brasília
Valor
27 Outubro 2026
Militares da ativa e da reserva foram às urnas no domingo (25) com uma certeza: independentemente de quem saísse vitorioso na eleição presidencial, as relações da caserna com o próximo governo, a partir de 2027, passariam por mudanças. Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a expectativa é de “continuidade”, ainda que seja dada como certa a saída do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro. As discussões sobre o orçamento das Forças Armadas e eventuais alterações no sistema de proteção social dos militares devem continuar no horizonte.
Não foram fáceis as relações de integrantes do governo Lula e os militares neste terceiro mandato do petista. Alas mais ideológicas do Executivo sempre foram resistentes à ampliação dos recursos para as Forças Armadas, especialmente por causa do passado da ditadura militar e, mais recentemente, devido ao envolvimento de alguns integrantes dessas instituições com os movimentos golpistas que culminaram no 8 de janeiro de 2023. Mas o próprio presidente da República mudou de tom, depois da operação militar realizada pelos Estados Unidos em solo venezuelano que levou à captura do ditador Nicolás Maduro.
Múcio articulou pessoalmente a aprovação de uma medida no Congresso que estabelece R$ 30 bilhões em investimentos nos projetos estratégicos das Forças, fora da meta fiscal, ao longo de seis anos. A medida é criticada por especialistas em contas públicas por driblar o arcabouço fiscal, mas foi considerada fundamental pela pasta por criar uma espécie de exceção ao engessamento do Orçamento e dar previsibilidade para os projetos estratégicos para os militares.
Na prática, porém, a execução tem ficado abaixo do esperado. Reconhecido por sua habilidade política, Múcio conseguiu estancar a crise gerada pelo envolvimento de militares nos atos golpistas que culminam no 8 de janeiro. Há tempos ele tem sinalizado que gostaria de deixar o Executivo, mas permaneceu no cargo a pedido do presidente. Apesar da esperança nas cúpulas das Forças de que ele fique pelo menos um período do próximo mandato para assegurar uma transição mais tranquila, sua intenção é indicar a secretária-geral da pasta, Cinara Wagner Fredo, para sucedê-lo.
Cinara é servidora de carreira do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), perfil que lhe daria lastro técnico para tratar de eventuais mudanças no regime de proteção social dos militares. O tema é sensível na caserna, uma vez que os militares argumentam que a carreira tem especificidades, mas pode entrar novamente em pauta em um contexto de discussão de mudanças na Previdência. Um outro ponto de atenção é a sucessão no comando das Forças Armadas, que foram procuradas pelo Valor. O ministro da Defesa também foi procurado, mas não concedeu entrevista.
Sucessão no comando das Forças Armadas é visto como ponto de atenção
Na visão de fontes que acompanham as discussões, na Marinha e na Aeronáutica já havia favoritos, independentemente de quem vencesse as eleições. Na Marinha, o nome citado é o do almirante de esquadra Arthur Fernando Bettega Corrêa, chefe do Estado-Maior da Armada. Em relação à Força Aérea, o cotado é o tenente brigadeiro Walcyr Josué de Castilho Araujo, chefe do Estado-Maior da Aeronáutica.
A situação no Exército é considerada mais incerta, e o desfecho dependia mais de quem ganhasse e a tradição de indicação por antiguidade não é vista como algo inflexível
Um nome considerado forte é o do chefe do Estado-Maior do Exército, o general Francisco Humberto Montenegro Junior, que é visto internamente como “um quadro excepcional”, mas é próximo ao atual comandante da Força, general Tomás Ribeiro Paiva, e não é o mais antigo. O primeiro da lista de antiguidade é o atual secretário de Economia e Finanças do Exército, general Luciano Guilherme Cabral Pinheiro. Há quem argumente que a observância do critério de antiguidade dá mais tranquilidade internamente, seja qual for o governo de turno. Por outro lado, também tem quem alegue que a escolha do comandante é uma prerrogativa do presidente da República e do ministro da Defesa, a qual precisa ser respeitada.
No caso de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL), as perspectivas seriam distintas. A expectativa é que o candidato da oposição não repetisse o que seu pai fez, quando foi eleito em 2018.
Segundo um interlocutor de Flávio, a leitura é de que Jair Bolsonaro chegou à Presidência da República em um “susto” e que “não conhecia muita gente”. “Por isso, ele saiu colocando os amigos militares dele lá. Com Flávio não é assim, tem muitos quadros competentes, tem programa, tem composição partidária e já tem essa discussão prévia”, avalia essa fonte
Em outra frente, seriam maiores as chances de requisição das Forças Armadas para atuação no combate ao crime organizado, inclusive com possível retomada das operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLOs) nesse front. Também cresceriam as chances de adesão do Brasil ao Escudo das Américas, lançado em março de 2026 durante uma reunião de líderes do continente na Flórida, a convite do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O Brasil não foi chamado para a iniciativa de cooperação na área de segurança. “Durante o governo de Jair Bolsonaro, essa aproximação assumiu um caráter simbiótico. O presidente se apoiou nos militares, e eles aproveitaram a chegada ao poder de um político cuja trajetória estava intimamente ligada ao militarismo”, diz o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador na área da Defesa Juliano Cortinhas. Para a pesquisadora e professora de Defesa e Gestão Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adriana Marques, no caso da vitória de Flávio, deputados e senadores com origem na caserna também poderiam ganhar maior protagonismo.
“Pautas que não avançaram, como a isenção de Imposto de Renda para integrantes das Forças Armadas e a proposta de fixar na Constituição um investimento em defesa equivalente a 2% do PIB, poderiam ganhar força em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, compondo um ‘pacote de bondades’ para os militares”, avalia a especialista





















