Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
Ao se preparar para deixar o comando da Marinha do Brasil, o Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen tem a oportunidade de consolidar seu legado com duas decisões de impacto direto sobre o futuro da Força: viabilizar novas encomendas das Fragatas Classe Tamandaré e iniciar o processo de substituição dos caças AF-1 Skyhawk. Sua gestão já deixa uma contribuição importante com a aquisição do NDM Oiapoque, que amplia a capacidade da Marinha para operações anfíbias. Agora, o desafio é fazer com que a renovação dos meios de superfície e da aviação de caça também avance, deixando para a próxima administração programas estruturados e decisões encaminhadas.
O NDM Oiapoque representa um reforço concreto à capacidade operacional da Marinha. Entretanto, a aquisição de um navio, por importante que seja, não elimina as necessidades de renovação da Esquadra e de preservação da aviação de caça naval. São capacidades distintas, que exigem planejamento próprio e decisões compatíveis com os prazos necessários à sua manutenção.
O fim de uma gestão é um momento de balanço. O legado de um comandante não se mede apenas pelas aquisições realizadas durante seu período à frente da Força, mas também pela capacidade de encaminhar soluções para problemas que terão impacto sobre as próximas décadas.
Fragatas Tamandaré: garantir a continuidade do programa
O Programa Fragatas Classe Tamandaré representa um dos principais esforços de modernização da Esquadra brasileira. Os novos navios incorporam sensores, armamentos e sistemas de combate que ampliarão a capacidade de escolta e de enfrentamento das ameaças no mar.
A contratação das primeiras unidades foi um passo importante, mas não resolve toda a necessidade de renovação da Esquadra. O Brasil precisa planejar novas encomendas em quantidade compatível com suas responsabilidades marítimas e com a dimensão dos interesses que deve proteger.
A extensa costa brasileira, as linhas de comunicação marítimas e as instalações de exploração de petróleo e gás exigem uma Força Naval capaz de manter presença no mar e responder a diferentes situações operacionais.
Adiar novas encomendas pode aliviar o orçamento no curto prazo, mas também prejudica o planejamento da Esquadra, a continuidade da produção e a manutenção de profissionais especializados. Intervalos prolongados entre contratos podem elevar os custos das futuras unidades e dificultar o aproveitamento dos investimentos realizados.
A avaliação dos custos é indispensável, mas deve considerar as consequências de postergar um programa dessa dimensão. A Marinha precisa estabelecer um planejamento realista, com cronograma e financiamento compatíveis com as possibilidades orçamentárias.
Ao concluir sua gestão, Olsen tem a oportunidade de deixar encaminhadas as condições para a continuidade do programa e para a ampliação da classe Tamandaré. Não se trata apenas de uma decisão administrativa, mas de assegurar que os investimentos já realizados produzam resultados duradouros para a Esquadra.
Aviação naval: o futuro do VF-1
A substituição dos caças AF-1 Skyhawk é outra questão que exige uma decisão da Marinha.
Essas aeronaves tiveram papel importante na manutenção da aviação de caça naval e na formação de pilotos para operações de interceptação e ataque. Entretanto, a idade da frota e as limitações do projeto tornam necessário definir o futuro do VF-1.
Não se trata apenas de comprar novos aviões. A manutenção dessa capacidade depende de pilotos qualificados, instrutores experientes, infraestrutura, treinamento e disponibilidade de aeronaves para as atividades operacionais.
A escolha de um substituto deve considerar o desempenho, os sensores, os sistemas de missão, o emprego de armamentos, a integração com os navios e os custos de aquisição e operação. A solução precisa atender às necessidades da Marinha por um período prolongado, sem comprometer os recursos destinados a outras áreas.
O combate naval contemporâneo exige integração entre aeronaves, navios e sistemas de vigilância e comando. Mísseis antinavio, defesas aéreas modernas e veículos não tripulados tornam o ambiente operacional mais complexo e exigem maior preparo das tripulações.
Sem uma decisão em tempo hábil, a Marinha corre o risco de reduzir progressivamente sua capacidade de formar e qualificar pilotos de caça. Reconstruir essa estrutura posteriormente seria difícil e custoso.
Por isso, a substituição dos Skyhawk deve ser tratada como um programa estratégico. A meta deveria ser receber as primeiras aeronaves até 2030, antes da retirada dos AF-1, permitindo tempo para preparar pilotos, adaptar a infraestrutura e alcançar a capacidade operacional necessária.
Para cumprir esse prazo, a definição dos requisitos e a escolha da nova aeronave precisam avançar sem demora. Mesmo ao deixar o comando, Olsen ainda pode contribuir para que o processo tenha continuidade, com diretrizes claras e um planejamento que não dependa exclusivamente da próxima administração.
O que fica para a próxima gestão
A aquisição do NDM Oiapoque representa um avanço para as operações anfíbias e constitui uma das realizações que devem ser consideradas no balanço da gestão do Almirante Olsen.
O desafio é fazer com que as necessidades da Esquadra e da aviação naval também avancem antes da passagem de comando. A renovação dos meios de escolta e a substituição dos caças navais são problemas conhecidos, que exigem mais do que estudos e intenções: precisam de decisões e de um caminho definido para sua execução.
As fragatas Tamandaré e a aviação de caça atendem a funções distintas, mas ambas são essenciais para a capacidade de combate da Marinha. Uma Esquadra sem número suficiente de escoltas perde capacidade de presença e proteção no mar. Uma aviação de caça sem perspectiva de renovação corre o risco de perder, gradualmente, uma competência construída ao longo de décadas.
As limitações orçamentárias são reais, mas tornam ainda mais importante definir prioridades. A próxima administração não deveria precisar recomeçar discussões que já poderiam estar encaminhadas.
O legado de Olsen será formado pelas realizações de sua gestão, entre elas a aquisição do NDM Oiapoque, mas também pelas decisões que conseguir deixar preparadas para o futuro. Viabilizar novas encomendas das fragatas Tamandaré e iniciar o processo de substituição dos AF-1 Skyhawk seriam contribuições relevantes para a continuidade da modernização naval.
Ao deixar o comando, o Almirante Olsen tem a oportunidade de entregar à próxima gestão não apenas uma relação de projetos em andamento, mas diretrizes claras para duas necessidades fundamentais da Marinha.
É essa continuidade, mais do que qualquer anúncio de última hora, que poderá dar dimensão duradoura ao seu legado.




















