O último voo do A-4 não pode ser o último caça da Marinha

Os Skyhawk deixarão o serviço antes de 2030. Com baixa disponibilidade e elevados custos de manutenção, a Marinha precisa iniciar imediatamente a transição para uma nova geração de aeronaves de combate.

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

Os Skyhawk deixarão o serviço antes de 2030. Com baixa disponibilidade e elevados custos de manutenção, a Marinha precisa iniciar imediatamente a transição para uma nova geração de aeronaves de combate.

A Marinha do Brasil tem menos tempo do que parece para decidir o futuro de sua aviação de combate. Os A-4 Skyhawk deverão realizar seus últimos voos antes de 2030, estabelecendo um prazo concreto para que a Força encontre, selecione, contrate e comece a receber seu substituto. O problema é que uma aeronave de combate não é adquirida de um dia para o outro. Dependendo da solução escolhida, o intervalo entre a assinatura de um contrato e a entrega das primeiras unidades pode chegar a três anos. Isso significa que a decisão precisa ocorrer enquanto os A-4 ainda estiverem operacionais.

Mas existe uma questão ainda mais imediata. Os Skyhawk já apresentam baixa disponibilidade operacional e limitações crescentes de capacidade, enquanto a manutenção de uma frota envelhecida exige recursos cada vez maiores para preservar uma quantidade limitada de aeronaves em condições de voo. A equação torna-se progressivamente menos favorável: a Marinha emprega recursos significativos para manter uma plataforma de várias décadas de serviço, mas obtém uma disponibilidade e uma capacidade operacional muito inferiores às oferecidas por uma aeronave de combate contemporânea.

Isso não significa que os A-4 tenham deixado de possuir valor. Ao contrário, enquanto permanecerem em serviço, continuam sendo importantes para preservar a doutrina, a experiência e o treinamento da aviação de combate naval. Entretanto, sua utilização deve ser encarada como uma capacidade de transição. O objetivo agora precisa ser evitar que os recursos destinados à manutenção de uma frota envelhecida acabem retardando a construção de sua sucessora.

A questão, portanto, não é simplesmente encontrar outro avião para ocupar o lugar do A-4. A Marinha precisa decidir qual capacidade de combate aéreo pretende possuir nas próximas décadas. O cenário estratégico mudou profundamente e o ambiente de guerra contemporâneo exige muito mais do que velocidade, alcance e capacidade de lançamento de armamentos. Uma aeronave moderna precisa operar integrada a sensores, sistemas de comando e controle, data links, guerra eletrônica e armamentos de nova geração. Os pilotos precisam estar preparados para combater além do alcance visual, operar em ambientes saturados por sensores e ameaças, executar missões em pacote e compartilhar informações em tempo real com outras aeronaves, navios e centros de comando.

A necessidade também está diretamente relacionada à defesa da Esquadra. A proliferação de drones e outros sistemas aéreos transformou o ambiente de ameaça enfrentado pelas forças navais. Uma aeronave de combate moderna pode ampliar a capacidade de detecção e reação, atuando como uma camada adicional de proteção para os navios e complementando seus radares e sistemas de defesa antiaérea. A Marinha não pode depender exclusivamente dos sensores e armamentos instalados em seus navios diante de ameaças aéreas que podem ser empregadas em ataques de saturação.

A capacidade de ataque continua igualmente importante. A aviação de combate proporciona à Marinha a possibilidade de realizar esclarecimento, identificar ameaças, acompanhar movimentos e executar ataques contra alvos selecionados. Também permite projetar poder aéreo a partir de bases litorâneas e, quando disponível, de posições insulares, aumentando a flexibilidade para responder a diferentes situações ao longo da extensa costa brasileira e das áreas marítimas de interesse estratégico.

Existe ainda uma questão que vai muito além da aquisição das aeronaves: a preservação do conhecimento operacional. Se a transição não for iniciada enquanto os A-4 ainda estiverem voando, a Marinha poderá enfrentar não apenas a falta de plataformas, mas também uma interrupção na formação e manutenção de uma comunidade de pilotos especializada em aviação de combate. A preparação para operar uma aeronave moderna exige anos de treinamento em sensores, guerra eletrônica, combate BVR, operações em rede, emprego de armamentos guiados e coordenação de missões complexas. A nova geração de pilotos precisa começar sua formação antes que a geração atual deixe de voar.

A interoperabilidade internacional também passou a ser um requisito importante. A Marinha precisa manter pilotos capazes de participar de exercícios multinacionais e, quando necessário, integrar operações combinadas com outras forças. Isso exige aeronaves, sistemas de comunicação, procedimentos e doutrina compatíveis com padrões contemporâneos. A capacidade de operar em coalizões não pode ser improvisada durante uma crise; precisa ser construída por meio de treinamento permanente.

Por isso, o calendário dos A-4 é tão importante. Se os últimos Skyhawk deixarem de voar antes de 2030 e uma nova aeronave puder levar até três anos para ser entregue após a contratação, a margem disponível para a Marinha é extremamente reduzida. O processo precisa começar agora, com a definição dos requisitos, avaliação das alternativas, negociação, contratação e preparação da infraestrutura e do pessoal ocorrendo antes da retirada definitiva dos atuais caças.

A discussão precisa também considerar o custo de oportunidade. Cada recurso empregado para manter uma frota antiga em condições mínimas de operação é um recurso que deixa de ser investido na construção da capacidade seguinte. Manutenção, peças, suporte técnico e disponibilidade são elementos inevitáveis de qualquer sistema de armas, mas existe um ponto em que o esforço necessário para manter uma plataforma envelhecida deixa de ser economicamente e operacionalmente justificável diante das capacidades disponíveis nas aeronaves modernas.

O Brasil não pode esperar até 2030 para decidir que precisa de uma nova aeronave de combate naval. Nesse momento, já seria tarde para iniciar um processo que pode consumir vários anos. O objetivo deve ser fazer com que o último voo do A-4 represente uma passagem de geração, e não o encerramento da capacidade de combate aéreo da Marinha.

O Skyhawk cumpriu uma missão histórica e permitiu que o Brasil preservasse durante décadas uma capacidade de aviação de combate naval. Agora, essa capacidade precisa evoluir. A Marinha precisa continuar possuindo meios para realizar esclarecimento e ataque, defender a Esquadra contra ameaças aéreas, operar a partir de bases litorâneas e posições avançadas e manter pilotos preparados para o ambiente de guerra moderno.

A geopolítica mundial está mudando rapidamente, assim como o ambiente de segurança marítima. Drones, guerra eletrônica, mísseis de longo alcance, sensores distribuídos e operações em rede estão transformando a natureza do combate. Nesse cenário, manter uma força aeronaval moderna não é apenas uma questão de modernização tecnológica. É uma questão de preservar opções estratégicas para o Brasil.

O último voo do A-4 deve marcar o fim de uma era, mas não o fim da aviação de caça da Marinha. O tempo para decidir não é 2030. É agora.


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