EDITORIAL DefesaNet
A Marinha precisa de caças novos e a decisão precisa ser tomada
A Aviação Naval brasileira aproxima-se rapidamente de um momento crítico. A permanência dos A-4 Skyhawk no inventário do Esquadrão VF-1 já ultrapassa os limites do razoável do ponto de vista operacional, logístico e estratégico. Projetada originalmente na década de 1950, a aeronave tornou-se um verdadeiro símbolo histórico da aviação de caça embarcada. Porém, o Brasil hoje ocupa uma posição preocupante: a Marinha do Brasil tornou-se praticamente o último operador militar ativo do A-4 no mundo.
Mais do que um problema de obsolescência, a situação ameaça diretamente a sobrevivência da aviação de caça da Força Aeronaval.
O Brasil já investiu várias centenas de milhões de dólares na aquisição, modernização, infraestrutura, treinamento e operação dos AF-1 Skyhawk. Foram décadas construindo uma capacidade estratégica rara na América Latina: a operação de aeronaves de caça sob doutrina naval.
Permitir agora a paralisação gradual do VF-1 significaria perder não apenas aviões, mas conhecimento operacional, doutrina, capacidade de formação e toda uma geração de aviadores navais especializados.
E recuperar esse tipo de capacidade no futuro seria infinitamente mais caro — e muito mais difícil.
As guerras modernas demonstram diariamente a importância crescente da aviação naval baseada em terra. O conflito na Ucrânia e os ataques no Mar Negro, os combates no Mar Vermelho e as recentes operações no Oriente Médio mostraram que aeronaves de combate continuam sendo essenciais para apoiar forças de superfície, realizar reconhecimento armado, proteger comboios navais, executar missões de ataque marítimo e defender navios contra drones, mísseis e ameaças assimétricas.
Nenhuma esquadra moderna consegue operar sem cobertura aérea adequada.
No caso brasileiro, a importância estratégica é ainda maior devido às dimensões da Amazônia Azul e às enormes distâncias marítimas do Atlântico Sul. Operar caças navais a partir de bases terrestres — incluindo posições avançadas como Fernando de Noronha — amplia significativamente a capacidade de vigilância, dissuasão e resposta rápida da Marinha.
A experiência histórica da Guerra das Malvinas permanece extremamente atual. O conflito demonstrou de forma inequívoca como aeronaves de ataque naval operando a partir de terra podem representar ameaça real e estratégica contra forças navais modernas. A capacidade da Força Aeronaval argentina de atacar a esquadra britânica com aviação tática marcou profundamente a doutrina naval mundial.
O Brasil não pode ignorar essas lições.
Abrir mão da aviação de caça naval seria aceitar voluntariamente uma perda estratégica de longo prazo.
Além disso, existe um fator crítico frequentemente ignorado: pilotos navais precisam manter formação e adestramento contínuos. Doutrina aeronaval não se improvisa. A operação de aeronaves de combate sob cultura naval exige anos de experiência acumulada, treinamento constante, integração com meios de superfície e participação em exercícios internacionais.
Se o VF-1 desaparecer, toda essa cadeia de conhecimento será interrompida.
E isso ocorre justamente em um momento em que diversas marinhas ao redor do mundo retomam investimentos em aviação naval e em operações expedicionárias de asa fixa.
A Marinha do Brasil precisa urgentemente iniciar a transição para uma nova aeronave de combate naval.
Naturalmente, qualquer substituto precisa respeitar limitações orçamentárias e a realidade financeira brasileira. Não se trata de buscar plataformas excessivamente caras ou incompatíveis com a estrutura da Força Naval. O desafio é encontrar uma solução moderna, sustentável e operacionalmente relevante.
A nova aeronave precisa permitir missões de ataque marítimo, defesa aérea limitada, reconhecimento armado, guerra antinavio, apoio aproximado às forças de superfície e integração com drones e sistemas modernos de guerra em rede.
Mais importante ainda: precisa manter viva a cultura da aviação de caça naval brasileira.
Plataformas modernas de menor custo operacional, capazes de operar em ambientes marítimos e integradas à nova realidade da guerra aeronaval, poderiam representar um caminho racional para preservar essa capacidade estratégica sem inviabilizar financeiramente a Marinha.
Além disso, a continuidade da aviação de caça naval permitiria aos aviadores navais brasileiros acesso às novas doutrinas internacionais de combate aeronaval, participação em exercícios multinacionais, forças de coalizão e integração com forças navais modernas.
Isso seria fundamental para manter aberta, no futuro, a possibilidade de o Brasil voltar a operar aeronaves embarcadas de quinta geração — eventualmente até o F-35B — em um futuro navio-aeródromo da Marinha do Brasil.
Mas isso só será possível se a capacidade atual for preservada.
Porque capacidades militares não sobrevivem apenas no papel. Elas não podem ser sacrificadas por pressões externas aos interesses da própria Força, disputas corporativas ou rivalidades entre forças que muitas vezes sequer conseguem solucionar seus próprios desafios operacionais.
O Brasil não pode perder a oportunidade histórica de substituir os A-4 e preservar a capacidade aeronaval brasileira. Capacidades militares dependem de treinamento contínuo, doutrina viva, pilotos experientes e operação real.
A perda do VF-1 não representaria apenas o fim de um esquadrão histórico.
Representaria o desaparecimento da aviação de caça naval brasileira!





















