A arma de artilharia ressurge na guerra da Ucrânia de forma contudente e dá novos requisitos técnicos e operacionais
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A guerra na Ucrânia está impondo uma das maiores transformações na artilharia desde a Segunda Guerra Mundial. Durante décadas, o alcance de uma munição era um fator importante para ampliar a capacidade de apoio de fogo. Hoje, tornou-se um requisito de sobrevivência.
A tradicional munição M107 de 155 mm, adotada por diversos países da OTAN e produzida em larga escala, oferece um alcance compatível com a doutrina que predominou por mais de meio século. Entretanto, o campo de batalha ucraniano demonstrou que esse alcance já não atende às exigências de uma guerra caracterizada pela presença permanente de drones de reconhecimento, radares de contrabateria e, principalmente, drones FPV de ataque.
Os céus sobre a linha de frente permanecem permanentemente vigiados. Pequenos drones identificam posições de artilharia, acompanham seus deslocamentos e transmitem coordenadas em tempo real. Após alguns disparos, um obuseiro pode ser localizado e, poucos minutos depois, atacado por fogo de contrabateria ou por drones FPV (First Personnal View) carregando ogivas capazes de destruir peças de artilharia, caminhões de munição e veículos de apoio.
Nesse novo ambiente operacional, permanecer dentro do alcance dos drones tornou-se um risco inaceitável.

Mumição de Exercício (TP) e Alto-Explosivo (High Explosive)
Como consequência, a Ucrânia passou a priorizar a aquisição de munições de alcance estendido para seus obuseiros de 155 mm. Projéteis Base Bleed, munições assistidas por foguete (RAP) e munições guiadas permitem engajar alvos a distâncias significativamente maiores, mantendo as baterias mais afastadas da linha de contato e reduzindo sua exposição aos drones inimigos.
Essa mudança não busca apenas ampliar o alcance dos disparos. Seu principal objetivo é retirar a artilharia da chamada “zona de destruição”, onde drones FPV podem localizar e atacar rapidamente qualquer sistema que permaneça próximo à frente de combate.
A doutrina tradicional de posicionamento das baterias está sendo substituída por um modelo baseado em três pilares: maior alcance, elevada mobilidade e integração completa com sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento.
A sequência operacional também mudou. Disparar, mudar imediatamente de posição e permanecer o menor tempo possível em um mesmo local tornou-se procedimento obrigatório. Mesmo assim, quanto maior o alcance da munição, maior a distância de segurança entre a bateria e as áreas patrulhadas por drones FPV.
Essa é uma lição que merece atenção do Exército Brasileiro.

O francês Caesar da NEXTER é um dos proncipais obuseiros padrão usado pelo exército da Ucrânia. O padrão do tubo de 52 calibre e a munição de 155mm tornou-se o padrão da artilharia atual
Os futuros programas de modernização da artilharia devem considerar que a aquisição de novos obuseiros, por si só, não resolverá o problema. O desempenho do sistema dependerá cada vez mais da disponibilidade de munições de alcance estendido, produzidas no Brasil ou adquiridas de parceiros estratégicos, capazes de explorar plenamente o potencial das plataformas.
Também será necessário investir em guerra eletrônica, camuflagem, sistemas automáticos de comando e controle, drones para aquisição de alvos e procedimentos cada vez mais rápidos de deslocamento após o disparo.
A guerra na Ucrânia demonstra que a artilharia continua sendo a principal responsável pelo apoio de fogo terrestre. O que mudou foi o ambiente em que ela opera. A presença maciça de drones transformou o alcance da munição em um fator de sobrevivência.
O conflito deixa uma mensagem inequívoca para os exércitos que buscam preparar-se para as guerras do futuro: a era em que a munição convencional M107 representava a solução padrão está chegando ao fim. Em um campo de batalha dominado por drones FPV, sobreviver significa disparar mais longe, permanecer menos tempo exposto e manter-se fora do alcance do inimigo antes mesmo que ele possa detectar a posição da bateria.
Essa abordagem evita afirmar categoricamente que a Ucrânia “não usa mais” a M107 — uma afirmação difícil de sustentar, pois ela ainda pode ser empregada quando disponível. Em vez disso, enfatiza a tendência observada no conflito: a crescente prioridade dada a munições de alcance estendido para aumentar a sobrevivência das baterias de artilharia.

Empresas brasileiras que produzem munição de 155mm M107. Na exposição LAAD Security 2026, em abril passado muitos fabricantes apresntaram modelos mais avançados do que o M107.



















