Editorial – Fragatas Tamandaré: o Brasil não pode mais adiar

Fragatas Tamandaré: o Brasil não pode mais adiar

Editorial DefesaNet
Fragatas Tamandaré: o Brasil não pode mais adiar

A Marinha do Brasil está diante de uma decisão que não pode ser novamente empurrada para o futuro.

Depois de décadas de atrasos, projetos interrompidos e sucessivas postergações na renovação da Esquadra, o Programa das Fragatas Classe Tamandaré finalmente colocou o País diante de uma realidade concreta: é possível construir navios de guerra modernos no Brasil, com participação da indústria nacional, geração de tecnologia e capacidade de sustentar uma cadeia produtiva altamente especializada.

Agora falta tomar a decisão seguinte.

O segundo lote, com mais quatro fragatas, precisa ser contratado com urgência, preferencialmente antes das eleições. Não se trata apenas de aumentar o número de navios disponíveis. Trata-se de consolidar uma capacidade que levou anos para ser construída e evitar que o Brasil repita os mesmos erros do passado.

A cerimônoa de Mostra de Armamento da Fragata “Tamandaré” (F 200), na prática a incorporação à Armada da Marinha do Brasil do primeiro navio da Classe, que foi totalmente construído no Brasil, com mão de obra local e transferência de tecnologia alemã.

Na mesma oportumidade, 24ABR2026, foi assinado o Memorandum of Understanding (MoU), entre a Marinha do Brasil e a thyssenkrupp para mais 4 Fragatas da Classe Tamandaré. Uma precaução alemã, após a decepção da perda de forma inesperada, do contrato dos submarinos para os franceses no PROSUB.

O risco de deixar essa decisão para depois é conhecido. Uma interrupção na produção significa perda de mão de obra especializada, desmobilização de fornecedores, aumento de custos e, principalmente, perda de ritmo industrial.

A história da indústria de defesa brasileira está cheia desses exemplos.

A guerra mudou. A Marinha também precisa mudar

A guerra na Ucrânia, os ataques no Mar Negro e as operações no Golfo Pérsico e no Estreito de Hormuz deixaram uma lição clara: a guerra naval entrou definitivamente na era dos ataques de saturação.

Drones baratos, munições vagantes, embarcações não tripuladas, mísseis antinavio e ataques coordenados passaram a representar uma ameaça permanente aos navios de superfície, além de cenários híbridos.

Uma fragata moderna não pode depender exclusivamente de seus mísseis para enfrentar esse cenário.

É nesse ponto que o segundo lote das Tamandaré ganha importância.

Os quatro novos navios devem incorporar, desde o início, as melhorias identificadas durante a operação das primeiras unidades e as lições observadas nos conflitos atuais.

Entre essas capacidades, a adoção do sistema Strales associado ao canhão de 76 mm deveria ser seriamente considerada.

Com munições guiadas DART, o sistema acrescenta uma importante camada de defesa contra mísseis, drones, aeronaves, helicópteros e pequenas embarcações.

Mais do que aumentar a capacidade de defesa, existe uma questão econômica.

Não faz sentido utilizar um sofisticado e caro míssil antiaéreo para destruir uma ameaça que custa uma fração do seu valor.

O CAMM deve ser reservado para ameaças que realmente justifiquem seu emprego. Contra drones e outros alvos de menor custo, uma solução como o Strales pode representar uma vantagem operacional e econômica significativa.

O segundo lote não pode esperar

Existe ainda uma razão industrial para agir agora.

O programa já possui infraestrutura, cadeia de fornecedores, mão de obra treinada e conhecimento acumulado. O estaleiro e a indústria brasileira estão aprendendo a construir e integrar uma nova geração de navios de guerra.

Interromper essa sequência seria um erro.

A construção naval militar exige continuidade. Quando uma linha de produção é interrompida, recuperar posteriormente a mesma capacidade custa mais caro e leva mais tempo.

O Brasil já pagou esse preço diversas vezes.

A contratação do segundo lote permite aproveitar investimentos já realizados, manter a cadência industrial e incorporar as melhorias aprendidas com as primeiras unidades.

É justamente assim que grandes programas navais evoluem.

Oito Tamandaré e uma nova agenda para a Marinha

A contratação das quatro unidades adicionais também permite estabelecer um ponto de chegada.

Com oito Fragatas Classe Tamandaré, a Marinha do Brasil terá uma espinha dorsal moderna para sua força de escoltas e poderá direcionar sua atenção para outras necessidades que estão se tornando cada vez mais urgentes.

O País precisa de novos navios-patrulha para ampliar a presença nas águas jurisdicionais e proteger seus interesses marítimos.

Precisa de novos navios logísticos para sustentar operações de longa duração.

Precisa renovar a aviação naval, ampliar sua capacidade de vigilância e esclarecimento marítimo e avançar no emprego de sistemas aéreos remotamente pilotados.

Precisa também recuperar e ampliar sua capacidade de guerra de minas e de apoio às operações anfíbias.

  • Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo.
  • Mas é possível estabelecer prioridades.
  • E a prioridade imediata deve ser concluir a Classe Tamandaré.

Não repetir o erro do passado

O Brasil precisa abandonar a cultura de começar programas de defesa sem garantir sua continuidade.

Um programa militar não pode depender apenas do orçamento disponível em determinado ano ou da vontade política de um governo.

Navios de guerra permanecem em serviço por décadas. Suas decisões de aquisição também precisam ser pensadas nessa escala de tempo.

O segundo lote das Tamandaré é, portanto, mais do que uma compra.

É uma decisão sobre a capacidade industrial brasileira.

É uma decisão sobre a soberania marítima.

É uma decisão sobre a capacidade da Marinha de proteger as águas jurisdicionais, as rotas comerciais, as plataformas de petróleo, os cabos submarinos e os interesses econômicos do País.

E é também uma decisão sobre se o Brasil pretende ou não manter uma indústria naval militar capaz de produzir sistemas complexos.

A hora é agora

O Governo Federal e o Comando da Marinha da Marinha do Brasil precisam compreender que o custo da indecisão também existe.

Adiar o contrato não significa economizar dinheiro.

  • Pode significar pagar mais caro no futuro.
  • Pode significar perder fornecedores.
  • Pode significar desmobilizar trabalhadores especializados.
  • Pode significar atrasar a entrega dos navios.
  • E pode significar, mais uma vez, começar do zero alguns anos depois.

O Brasil não pode continuar tratando a defesa como uma despesa que pode ser adiada indefinidamente.

As Fragatas Classe Tamandaré representam um dos poucos programas recentes em que o País conseguiu combinar necessidade operacional, construção naval, participação industrial e transferência de conhecimento.

Agora é preciso concluir o que foi iniciado.

O segundo lote de quatro fragatas precisa sair do campo das intenções e entrar no campo dos contratos.

  • Antes das eleições.
  • Antes que a indústria perca o ritmo.
  • Antes que o custo aumente.

E, principalmente, antes que mais uma oportunidade seja perdida.

A Marinha precisa de oito Tamandaré. O Brasil precisa decidir.

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