O Brasil fora do Escudo das Américas: soberania exige enfrentar as facções

Enquanto países da região se aproximam da estratégia de Washington contra o PCC e o Comando Vermelho, Lula rejeita a “tutela” dos EUA. A posição brasileira será medida pela capacidade de combater o crime transnacional sem ceder o controle de sua segurança.

Ricardo Fan – DefesaNet

(RDN) A disputa entre Brasil e Estados Unidos sobre o combate ao crime organizado ganhou dimensão hemisférica durante a Assembleia Geral da ONU. Washington reuniu integrantes do Escudo das Américas¹ e ampliou o apoio regional a medidas contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

No mesmo palco diplomático, Luiz Inácio Lula da Silva rejeitou a divisão da região em zonas de influência: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. A Casa Branca registrou o encontro do Escudo em 22 de setembro; a designação americana das duas facções como organizações terroristas já havia sido anunciada em maio.

As manchetes sobre sanções latino-americanas, porém, exigem uma distinção. Uma declaração conjunta de governos favorável a punir facções não significa que todos já tenham adotado medidas idênticas e em vigor.

Cada país precisa aplicar seus próprios procedimentos e instrumentos legais. Também não se deve confundir uma designação terrorista, restrições financeiras e cooperação policial com autorização para operações militares em território brasileiro. As sanções administradas pelos EUA alcançam, entre outros efeitos, bens sob sua jurisdição e transações de pessoas sujeitas às suas regras.

A ameaça que ultrapassa fronteiras

Há um problema concreto por trás da disputa política. Facções brasileiras operam por redes de transporte, financiamento e lavagem que atravessam fronteiras. O Tesouro americano já sancionou integrantes e empresas associados ao PCC por suspeita de utilização do sistema financeiro internacional para lavar receitas do tráfico.

No Brasil, investigações da Polícia Federal também expõem a escala transnacional do comércio de drogas e da movimentação de capitais ilícitos. Contestar a estratégia de Washington não elimina esse diagnóstico.

A questão estratégica está em quem define os objetivos, controla os meios e responde pelos resultados. Para os EUA, as facções são parte de uma ameaça regional que justifica ampliar sua capacidade de coordenar parceiros e projetar poder.

Para países que aderem ao Escudo, a iniciativa pode oferecer inteligência, acesso a mecanismos financeiros e apoio operacional. Para o Brasil, permanecer fora da coalizão preserva liberdade de decisão, mas aumenta a exigência de demonstrar que dispõe de uma resposta eficaz.

O limite da estratégia americana

A pressão de Washington merece escrutínio. Donald Trump associou o enfrentamento dos cartéis à disposição de empregar poder militar americano no hemisfério. Essa linguagem não pode ser tratada como simples extensão de sanções bancárias: ela altera o ambiente político no qual os países da região negociam cooperação em segurança. O risco cresce quando objetivos de combate ao crime se misturam à pretensão de determinar o alinhamento estratégico de outros governos.

Há, portanto, fundamento para a defesa brasileira da soberania. O reconhecimento da gravidade do PCC e do CV não concede aos Estados Unidos autoridade para escolher métodos, parceiros políticos ou alvos dentro do Brasil.

A cooperação internacional pode alcançar contas, rotas, lideranças e empresas usadas pelas facções; operações em território brasileiro dependem das autoridades e das regras brasileiras. Preservar essa fronteira é um interesse de Estado, independentemente de quem ocupe o Planalto.

A obrigação que acompanha a soberania

O contraponto ao governo Lula é igualmente necessário. A frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” afirma um princípio legítimo, mas não responde, por si, ao avanço internacional das facções.

Soberania exercida depende de investigação financeira, controle de fronteiras, integração entre órgãos, cooperação judicial e capacidade de atingir a direção econômica das organizações criminosas. Exige ainda continuidade entre governos e resultados que possam ser avaliados publicamente.

A classificação americana das facções como terroristas tampouco resolve o problema por decreto. O efeito prático depende da identificação de pessoas, ativos e empresas, da troca de informações e da execução das medidas cabíveis em cada jurisdição.

O Brasil tem razões para discutir os critérios e consequências jurídicas dessa classificação. Tem, ao mesmo tempo, a responsabilidade de apresentar instrumentos próprios capazes de produzir resultados comparáveis contra a estrutura financeira e logística do crime.

Segurança regional e autonomia brasileira

Os países que se aproximam do Escudo das Américas reconhecem uma ameaça transnacional e buscam respostas coordenadas. Seria um erro desqualificar essa escolha apenas porque a iniciativa é liderada por Trump.

Também seria um erro concluir que uma coalizão dirigida pela maior potência militar da região oferece, automaticamente, a melhor solução para cada país participante.

Lula tem razão ao rejeitar tutela estrangeira e interferência eleitoral. Sua posição perde força, contudo, se a defesa da soberania for usada para encerrar o debate sobre as capacidades brasileiras.

Trump tem razão ao tratar as facções como problema internacional; sua estratégia merece resistência quando apresenta o emprego da força americana como resposta disponível para garantir interesses no hemisfério. Os dois argumentos devem ser julgados por seus limites institucionais e por seus efeitos, não pela identidade de quem os pronuncia.

O enquadramento eleitoral da crise

A cobertura da Deutsche Welle sobre a chamada “Doutrina Donroe”² (https://www.dw.com/pt-br/eua-pressionam-brasil-antes-da-elei%C3%A7%C3%A3o-seguindo-cartilha-donroe/a-79368730) é um exemplo de militância editorial por enquadramento. A reportagem reúne tarifas, sanções, declarações diplomáticas e medidas contra facções criminosas sob uma tese eleitoral: a de que Washington atua para favorecer Flávio Bolsonaro. Ao aproximar acontecimentos distintos, sugere uma relação de causa e efeito que não demonstra. Ao projetar novas sanções ou uma possível contestação do resultado das urnas, dá a cenários futuros o peso de uma estratégia já comprovada.

A pressão americana sobre o Brasil é real e merece investigação. Isso não autoriza transformar toda ação dos EUA contra o PCC e o Comando Vermelho em prova de interferência eleitoral. Também não dispensa o exame da resposta de Lula. Seu discurso na ONU combinou uma defesa legítima da soberania com referências à disputa política brasileira. Uma imprensa comprometida com o mesmo rigor para todos examinaria as duas dimensões, em vez de reservar o escrutínio estratégico a Washington e acolher a narrativa do Planalto como resposta institucional suficiente.

A soberania brasileira não pertence a Lula, assim como a segurança hemisférica não pertence a Trump. O interesse nacional exige resistir a pressões externas, enfrentar as facções com capacidade própria e impedir que governos ou veículos de comunicação convertam a defesa da democracia em instrumento de campanha.

A escolha que o Brasil precisa fazer

O Brasil não precisa aderir ao Escudo das Américas para cooperar contra o PCC e o CV. Precisa, porém, oferecer uma alternativa verificável: acordos de inteligência e assistência jurídica sob controle brasileiro, investigações patrimoniais coordenadas, atuação nas rotas internacionais e medidas capazes de interromper a lavagem de dinheiro.

Quanto mais consistente for essa resposta, menor será o espaço para que outro governo apresente a incapacidade brasileira como justificativa para ampliar sua influência.

A soberania invocada na ONU será preservada pela capacidade de exercê-la. O Brasil deve impedir a tutela externa e, com a mesma firmeza, impedir que organizações criminosas consolidem poder sobre seu território, sua economia e suas instituições.

¹Notas editorial — O Escudo das Américas é uma iniciativa de segurança lançada pelo governo Trump em março de 2026 para coordenar países do hemisfério no combate a cartéis e organizações criminosas transnacionais. A proposta americana prevê restringir o acesso desses grupos a dinheiro e território, compartilhar capacidades de segurança e treinar forças de países parceiros. Washington também associa a iniciativa à contenção de influências externas na região, o que lhe confere uma dimensão geopolítica além do combate ao crime. O Brasil não integra a iniciativa. A adesão de outros países, ou uma declaração conjunta sobre o PCC e o Comando Vermelho, não autoriza operações estrangeiras em território brasileiro nem faz com que sanções anunciadas por parceiros passem automaticamente a valer sob a legislação do Brasil. A distinção central é entre cooperação contra redes criminosas e transferência de decisões sobre a segurança brasileira para uma coalizão liderada por Washington.

²A reportagem da Deutsche Welle sobre as pressões dos EUA merece uma leitura crítica pelo modo como reúne fatos distintos sob uma interpretação eleitoral. Para uma emissora internacional financiada pelo orçamento federal alemão e editorialmente independente, seria especialmente importante aplicar o mesmo rigor à posição do governo Lula. O presidente relativizou, em 2023, denúncias sobre a democracia venezuelana; defende Cuba diante das sanções americanas; mantém diálogo com Putin; e aprofunda a parceria estratégica com a China.

Leia também:

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter