Soberania sem capacidade: o abismo entre o discurso brasileiro e o poder nacional

Ao defender a não interferência externa, o governo Lula mobiliza um princípio legítimo. Mas juros reais elevados, baixa densidade tecnológica, investimento insuficiente e mal distribuído em Defesa, perda de competitividade industrial e expansão do crime organizado reduzem a capacidade do Brasil de transformar soberania jurídica em autonomia estratégica.

Por Redação DefesaNet

A soberania além do discurso

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende voltar à tribuna das Nações Unidas com uma mensagem centrada na soberania, na rejeição a interferências externas e na defesa do direito de cada país conduzir seus próprios assuntos. O princípio é legítimo e está inscrito na própria arquitetura da ordem internacional. Nenhum Estado deve aceitar que outro governo determine suas escolhas políticas, econômicas ou institucionais.

O problema brasileiro não está, portanto, em defender a soberania. Está na distância crescente entre proclamá-la e possuir os meios necessários para exercê-la.

No século XXI, soberania não se resume ao controle formal do território, à bandeira, às fronteiras reconhecidas ou à representação diplomática. Ela depende da capacidade de produzir tecnologias críticas, financiar a indústria, proteger infraestruturas, controlar fluxos ilícitos, dominar dados, operar no espaço, defender redes digitais, dissuadir ameaças e sustentar decisões nacionais diante de pressões externas.

Quando essa base material se enfraquece, a soberania permanece juridicamente intacta, mas perde densidade estratégica. O país continua livre para decidir — porém passa a decidir dentro de um conjunto cada vez mais estreito de possibilidades definidas por fornecedores, credores, plataformas tecnológicas, cadeias industriais estrangeiras e potências com maior capacidade de coerção.

A China como espelho da defasagem brasileira

A afirmação do presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, de que “o mundo não está preparado para competir com a economia chinesa” descreve uma assimetria real, mas dilui a responsabilidade brasileira em um diagnóstico excessivamente amplo. Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Índia também enfrentam o avanço chinês, porém respondem com políticas industriais, proteção de cadeias críticas, financiamento à inovação, compras governamentais e investimentos em tecnologias de uso dual.

O Brasil enfrenta o mesmo desafio com instrumentos mais frágeis, menor continuidade e reduzida capacidade de execução. Por isso, a questão mais incômoda não é se o mundo consegue competir com a China, mas se o Brasil está construindo as condições mínimas para não se tornar apenas fornecedor de commodities, importador de sistemas sofisticados e mercado consumidor de tecnologias produzidas no exterior.

O contraste é mensurável. Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação analisados pelo Ipea indicam que os dispêndios brasileiros em pesquisa e desenvolvimento corresponderam a 1,19% do PIB em 2023. A China chegou a 2,58% — mais do que o dobro — depois de ter partido, no início do século, de um patamar inferior ao brasileiro. O resultado não decorre apenas do volume aplicado, mas da continuidade entre crédito, universidade, infraestrutura, indústria, encomendas públicas e estratégia nacional.

Pequim trata manufatura avançada, inteligência artificial, semicondutores, energia, telecomunicações, espaço, construção naval e tecnologias militares como partes de um mesmo sistema de poder. O Brasil ainda administra essas áreas como políticas fragmentadas, sujeitas a ciclos orçamentários, contingenciamentos e mudanças de prioridade.

Existem ativos relevantes: Embraer, Avibras, Amazul, Itaguaí Construções Navais, SIATT, empresas de radares, comunicações seguras, munições, veículos blindados e uma rede de institutos militares e universidades com conhecimento acumulado. Entretanto, ativos isolados não formam autonomia. Sem escala, encomendas previsíveis, financiamento, proteção de capacidades sensíveis e integração às cadeias produtivas, competências podem ser perdidas, desnacionalizadas ou reduzidas à montagem de componentes estrangeiros.

O custo estratégico do juro real

O Brasil voltou a ocupar, em setembro de 2026, a primeira posição em um levantamento de juros reais entre 40 economias. Mesmo após a redução da Selic para 13,75% ao ano, a taxa real estimada ficou em 8,45%, diante de uma média de 1,62% no conjunto pesquisado.

Esse número não constitui apenas um problema monetário. Ele tem consequências industriais e estratégicas. Juros elevados encarecem capital de giro, modernização fabril, pesquisa, expansão de capacidade e formação de estoques. Também tornam os títulos públicos mais atraentes em relação a investimentos produtivos de retorno longo e risco elevado — exatamente o perfil de muitos projetos de Defesa.

A Base Industrial de Defesa é particularmente vulnerável. Desenvolver um radar, um míssil, um sistema de comando e controle, um motor, um satélite ou uma plataforma naval demanda anos de pesquisa, testes, certificação e aperfeiçoamento. Sem crédito compatível, garantias de longo prazo e demanda estatal previsível, empresas nacionais disputam contratos em desvantagem diante de concorrentes apoiados por governos que financiam exportações, asseguram encomendas e tratam a indústria de Defesa como instrumento de poder.

É impreciso, contudo, atribuir a taxa de juros exclusivamente ao Palácio do Planalto. A Selic é definida por um Banco Central com autonomia formal e responde à inflação corrente e esperada, às condições internacionais, ao risco fiscal e à credibilidade da política econômica. Mas essa ressalva não absolve o governo. Desorganização fiscal, incerteza regulatória e ausência de coordenação entre política monetária, política industrial e investimento público mantêm alto o prêmio exigido pelo mercado e comprimem o espaço disponível para financiar produção e inovação.

O governo Lula lançou iniciativas de política industrial e instrumentos como a Nova Indústria Brasil, além de defender publicamente a redução dos juros. O contraponto é necessário. A questão estratégica, porém, não é a existência de programas, mas sua escala, continuidade, governança e capacidade de produzir resultados. Anúncios não substituem fábricas modernizadas, patentes, fornecedores nacionais, mão de obra qualificada e sistemas entregues às Forças Armadas.

Um orçamento de Defesa grande na folha e pequeno na capacidade

O orçamento brasileiro de Defesa parece expressivo quando observado apenas pelo valor total. A composição, porém, revela o problema. Em 2025, o país destinou aproximadamente R$ 133,3 bilhões ao setor, mas 77,7% foram absorvidos por pessoal ativo e inativo. Apenas uma parcela minoritária chegou efetivamente aos programas militares e à formação de novas capacidades.

Para 2026, o orçamento aprovado para a pasta ficou em torno de R$ 142,5 bilhões, dos quais aproximadamente R$ 15,2 bilhões poderiam ser direcionados a investimentos. O quadro expõe uma contradição: o Brasil sustenta uma estrutura de Defesa relevante, mas dispõe de margem limitada para reequipá-la, conectá-la e prepará-la para conflitos marcados por drones, guerra eletrônica, inteligência artificial, munições de precisão, defesa antiaérea, operações espaciais e ataques cibernéticos.

Projetos como o Gripen E/F, o PROSUB, as fragatas da classe Tamandaré, o KC-390, o SISFRON e o Programa Espacial representam núcleos concretos de capacidade e de aprendizado tecnológico. Não devem ser minimizados. O problema está na execução descontínua, nos cronogramas alongados e na dificuldade de converter programas estratégicos em uma política industrial abrangente.

O aumento nominal do gasto também pode produzir uma impressão enganosa. Se o recurso adicional é consumido predominantemente por despesas rígidas, a capacidade operacional não cresce na mesma proporção. Soberania militar não é medida apenas pelo orçamento total, mas por disponibilidade de meios, horas de voo, dias de mar, estoques de munição, defesa de bases, sensores, comunicações resilientes, capacidade logística e domínio de tecnologias críticas.

Sem reorganizar a estrutura da despesa, assegurar financiamento plurianual e proteger projetos prioritários das oscilações anuais, o Brasil continuará pagando por uma Defesa que preserva a instituição, mas demora a transformar recursos em poder militar disponível.

Crime organizado e erosão do controle territorial

A acusação do governo Donald Trump de que o Brasil teria fracassado no combate ao Primeiro Comando da Capital e ao Comando Vermelho introduz outro componente no debate sobre soberania. Segundo o documento norte-americano, as facções transformaram o país em um centro relevante para o fluxo global de cocaína e representam uma ameaça transnacional.

A formulação de Washington deve ser examinada com cautela. O próprio relatório não incluiu o Brasil entre os 23 principais países produtores ou de trânsito de drogas, nem entre aqueles considerados formalmente inadimplentes em suas obrigações internacionais antidrogas. O governo brasileiro também cita a Lei Antifacção, o Programa Brasil contra o Crime Organizado, operações federais e uma proposta de cooperação em inteligência e combate à lavagem de dinheiro apresentada aos Estados Unidos.

Há, portanto, conteúdo político na pressão norte-americana, especialmente em um ambiente de tensão bilateral e disputa por influência no Hemisfério Ocidental. A classificação unilateral de facções brasileiras como organizações terroristas pode ampliar instrumentos de sanção financeira e criar pretextos para pressões incompatíveis com os interesses nacionais. O Brasil tem razão ao rejeitar qualquer tutela externa sobre sua política de segurança.

Mas o caráter político da acusação não elimina o problema que ela explora. PCC e CV dispõem de redes transnacionais, conexões portuárias, capacidade financeira, armamento, presença em áreas de fronteira e influência sobre territórios urbanos. Quando organizações criminosas controlam rotas, intimidam populações, corrompem agentes, movimentam recursos pelo sistema econômico e projetam poder além das fronteiras, deixam de representar apenas um problema policial. Passam a corroer a autoridade do Estado e, portanto, sua soberania efetiva.

Isso não significa militarizar indiscriminadamente a segurança pública. O enfrentamento deve permanecer baseado em inteligência, investigação financeira, integração policial, controle aduaneiro, cooperação internacional e fortalecimento institucional. À Defesa cabem missões constitucionais e capacidades específicas: vigilância de fronteiras, controle do espaço aéreo e marítimo, inteligência estratégica, ciberdefesa, logística e apoio a operações legalmente autorizadas. Confundir funções enfraquece tanto as polícias quanto as Forças Armadas; ignorar a dimensão transnacional das facções também.

Discurso legítimo, execução insuficiente

O governo pode sustentar, com razão, que soberania não se mede pela submissão automática a Washington, pela adoção de metas militares definidas pela OTAN ou pela reprodução do modelo chinês. Pode ainda apontar que o país mantém programas estratégicos, retomou instrumentos de política industrial, preserva capacidade diplomática e possui uma das maiores bases industriais da América Latina.

Seria equivocado, contudo, apresentar essas fragilidades apenas como uma herança recebida pelo atual governo. Lula governou o país entre 2003 e 2010, Dilma Rousseff entre 2011 e agosto de 2016 e o próprio Lula retornou ao Planalto em 2023. Ao final de 2026, o Partido dos Trabalhadores terá comandado o Executivo federal por quase 18 dos últimos 24 anos. Entre esses períodos estiveram os dois anos do governo Michel Temer — vice-presidente eleito duas vezes na chapa de Dilma e integrante da coalizão que sustentou os governos petistas — e os quatro anos de Jair Bolsonaro, dos quais praticamente dois foram condicionados pela pandemia de Covid-19.

A desindustrialização, a baixa produtividade, o elevado custo do capital, a descontinuidade orçamentária e a concentração das despesas militares em pessoal são problemas que atravessam sucessivos governos. A extensão do período petista no poder, contudo, impede que o atual governo Lula se apresente apenas como herdeiro desse quadro. O Congresso Nacional, o Banco Central, os governos estaduais, o setor privado e as próprias Forças Armadas também compartilham responsabilidades. Isso, porém, não elimina a responsabilidade central do Executivo pela definição de prioridades, pela coordenação das políticas públicas e pela necessária coerência entre o discurso de soberania e a capacidade efetivamente construída pelo país.

O contraponto, porém, não altera o diagnóstico. Quem transforma soberania em eixo político assume o dever de lhe dar conteúdo material. Não basta denunciar interferências se o país depende de componentes estrangeiros para sistemas essenciais; defender autonomia tecnológica sem elevar de forma consistente o esforço em pesquisa e desenvolvimento; anunciar reindustrialização enquanto o custo do capital restringe o investimento; ou invocar controle territorial quando facções organizadas operam redes internacionais a partir do território brasileiro.

A soberania brasileira sofre hoje uma pressão dupla. De fora, grandes potências utilizam tarifas, sanções, tecnologia, finanças, inteligência e normas extraterritoriais para ampliar sua influência. De dentro, baixa produtividade, fragilidade fiscal, criminalidade organizada e descontinuidade dos investimentos reduzem a capacidade de resistência. Uma dimensão alimenta a outra: quanto menor a capacidade nacional, maior a exposição à coerção externa.

O contraste da soberania: durante o desfile de 7 de Setembro, o Exército apresentou como demonstração tecnológica um robô doméstico de fabricação chinesa, transportado em uma viatura com pneus visivelmente desgastados. A imagem sintetiza a distância entre o discurso de modernização e a realidade material da Defesa: dependência tecnológica externa de um lado, precariedade dos meios básicos do outro.

Defesa como motor tecnológico, não apenas centro de despesa

Reverter esse quadro exige tratar a Defesa como parte da estratégia de desenvolvimento, sem convertê-la em justificativa para gastos sem avaliação. Recursos adicionais precisam estar associados a metas, entregas, transparência, disponibilidade operacional e ganhos tecnológicos verificáveis.

O primeiro passo é estabelecer financiamento plurianual para projetos estratégicos, reduzindo a dependência de liberações anuais. O segundo é reequilibrar gradualmente o orçamento entre pessoal, custeio e investimento, preservando direitos e, ao mesmo tempo, ampliando a parcela que efetivamente gera capacidade. O terceiro é usar o poder de compra do Estado para desenvolver fornecedores nacionais, com requisitos de transferência de conhecimento, conteúdo local racional e acesso a propriedade intelectual quando relevante.

Também é necessário conectar Defesa, universidades, Finep, BNDES, Embrapii e indústria em programas orientados por missões. Sensoriamento remoto, comunicações seguras, materiais avançados, propulsão, semicondutores, inteligência artificial, sistemas autônomos, biotecnologia, segurança cibernética e energia nuclear possuem aplicações civis e militares. O investimento nesses setores amplia a dissuasão e, simultaneamente, eleva produtividade, exportações e qualificação industrial.

Na segurança, a prioridade deve ser asfixiar financeiramente as facções, integrar bases de dados, proteger portos e fronteiras, rastrear armas e ampliar a cooperação internacional sob comando e legislação brasileiros. Essa é a resposta mais sólida às acusações externas: resultados mensuráveis, não apenas protestos diplomáticos.

A escolha brasileira

O Brasil não está condenado à irrelevância estratégica. Possui território continental, população, alimentos, energia, minerais críticos, biodiversidade, indústria aeronáutica, conhecimento nuclear, capacidade naval, centros de pesquisa e tradição diplomática. Poucos países reúnem tantos ativos.

Mas potencial não é poder. Recursos naturais sem tecnologia podem aprofundar dependências. Indústria sem crédito perde escala. Forças Armadas sem investimento previsível preservam estruturas, mas acumulam lacunas. Diplomacia sem capacidade material formula posições que adversários e parceiros podem ouvir sem necessariamente respeitar.

O verdadeiro raio X do país revela, portanto, algo mais grave do que uma disputa retórica entre Lula e Trump ou uma comparação comercial com a China. Revela um Estado que reivindica autonomia internacional enquanto ainda não resolveu as condições internas que a tornam possível.

Soberania exige capacidade, continuidade e coerência. Sem essas três dimensões, transforma-se em palavra de tribuna: correta como princípio, insuficiente como estratégia e cada vez mais vulnerável à realidade do poder.


Referências para edição
  • RFI, 17 set. 2026 — Na ONU, Lula vai insistir em soberania e rejeitar interferência externa em assuntos internos dos países.
  • CNN Brasil, 16 set. 2026 — Brasil volta à posição de maior juro real do mundo; veja ranking.
  • DW, 16 set. 2026 — Governo Trump diz que Brasil fracassou no combate ao PCC e CV.
  • Ipea, 6 ago. 2025 — Evolução dos Dispêndios em Pesquisa e Desenvolvimento.
  • SIPRI — dados de despesas militares do Brasil.
  • Portal da Transparência — execução orçamentária do Ministério da Defesa.
  • Senado Federal, 9 set. 2025 — debate sobre prioridade e previsibilidade do orçamento da Defesa.

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter