Em nome da República: quando a defesa da democracia se transforma em instrumento de poder

Ao apresentar a eleição brasileira como uma escolha entre “democracia e negacionismo”, Lula não declarou ser pessoalmente a democracia, mas construiu uma equivalência política entre seu projeto e o regime democrático. A retórica recorda a advertência central de Star Wars: instituições também podem ser enfraquecidas por aqueles que afirmam estar salvando-as.

Por Redação DefesaNet

A democracia transformada em propriedade política

Luiz Inácio Lula da Silva não subiu à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas para declarar literalmente: “eu sou a democracia”. A formulação escolhida foi mais indireta — e, justamente por isso, politicamente mais eficiente.

Ao afirmar que os brasileiros decidirão nas urnas “entre democracia e negacionismo”, o presidente estabeleceu dois campos morais. De um lado, posicionou a democracia, implicitamente associada ao seu governo e à sua candidatura. Do outro, colocou adversários reunidos sob uma expressão carregada de reprovação. Em outra passagem, falou em “inimigos da democracia, internos e externos”, reforçando a ideia de que a disputa eleitoral não ocorreria apenas entre projetos políticos, mas entre defensores e adversários do próprio regime.

Essa construção não significa que Lula tenha pronunciado a frase “eu sou a democracia”. Significa que sua argumentação produz uma equivalência implícita:

se o seu campo representa a democracia, derrotá-lo passa a ser associado à vitória do negacionismo.

O problema institucional começa quando a democracia deixa de ser o espaço comum dentro do qual adversários legítimos disputam o poder e passa a ser apresentada como patrimônio político de um dos concorrentes.

A República não pertence ao governante

A Constituição brasileira não atribui a nenhum presidente, partido ou corrente ideológica a propriedade da democracia. Seu artigo 1º estabelece que o Brasil é um Estado Democrático de Direito e que todo poder emana do povo, exercido diretamente ou por representantes eleitos.

Um presidente é, portanto, representante temporário do poder popular. Não constitui sua origem e tampouco personifica permanentemente a República.

Essa distinção é essencial. O governante pode defender instituições democráticas, combater tentativas de ruptura e denunciar interferências ilegítimas. Não pode, entretanto, converter sua permanência no poder em condição para a sobrevivência da democracia sem reduzir a legitimidade do processo eleitoral que afirma proteger.

Em uma eleição democrática, o cidadão deve poder rejeitar o governo sem ser automaticamente classificado como inimigo do regime.

Da tribuna diplomática ao palanque eleitoral

A Assembleia Geral da ONU é um espaço no qual chefes de Estado apresentam posições, prioridades e preocupações de seus países. O Brasil tradicionalmente abre o Debate Geral desde 1955, e os discursos frequentemente combinam política externa, balanços governamentais e mensagens dirigidas ao público doméstico.

No discurso de 2026, Lula tratou de guerras, reforma da ONU, soberania, crime organizado, mudanças climáticas, inteligência artificial e desigualdade. Ao introduzir diretamente a eleição brasileira e descrevê-la como confronto entre democracia e negacionismo, porém, inseriu a disputa interna numa tribuna multilateral.

A passagem pode ser lida como uma advertência contra ameaças reais às instituições. Também pode ser interpretada como tentativa de conferir dimensão internacional à narrativa eleitoral do governo. Nesse segundo enquadramento, a autoridade da Presidência e a visibilidade da ONU ajudam a consolidar uma divisão política conveniente: o governo apresenta-se como guardião da ordem constitucional, enquanto seus adversários são reunidos no campo da ameaça.

Não se trata apenas de defender a democracia, mas de disputar quem tem o direito de falar em nome dela.

A contradição da política externa

A credibilidade desse discurso também depende da coerência empregada na avaliação de outros governos.

Em 2023, ao receber Nicolás Maduro, Lula afirmou que se havia construído uma “narrativa de antidemocracia” contra a Venezuela. A declaração consta da transcrição oficial da Presidência e tornou-se um dos pontos mais controversos de sua política regional.

A posição brasileira posteriormente mudou. Em 2024, Lula exigiu a apresentação das atas eleitorais venezuelanas, não reconheceu imediatamente Maduro como vencedor e admitiu que o regime possuía “viés autoritário”, embora tenha evitado classificá-lo como ditadura.

Esses fatos revelam uma política mais ambígua do que a simples afirmação de que Lula “apoia todas as ditaduras”. Demonstram, entretanto, que seu governo empregou critérios e vocabulários diferentes ao tratar da democracia brasileira e de regimes ideologicamente próximos.

No plano interno, adversários podem ser descritos como inimigos da democracia. No plano externo, governos acusados de autoritarismo, repressão e manipulação eleitoral foram tratados inicialmente com maior cautela diplomática. Essa diferença de linguagem alimenta questionamentos sobre a universalidade do compromisso democrático anunciado pelo presidente.

O método da polarização moral

Demagogia não é sinônimo de discurso popular, eloquente ou ideológico. Na literatura política, o conceito está associado ao emprego das emoções, dos preconceitos, da rivalidade social e da divisão entre “nós” e “eles” para substituir ou enfraquecer a deliberação racional. Pesquisadores também ressaltam que recursos demagógicos podem ser utilizados por diferentes líderes sem que uma única manifestação seja suficiente para definir integralmente uma pessoa.

A formulação “democracia ou negacionismo” apresenta elementos dessa estrutura: simplifica a pluralidade eleitoral, estabelece uma fronteira moral e sugere que um dos lados possui legitimidade superior à conferida pelo próprio voto.

O risco não está em criticar o negacionismo, a desinformação ou movimentos antidemocráticos. Está em utilizar categorias amplas para apagar diferenças entre golpistas, críticos legítimos, conservadores, liberais, descontentes e eleitores que simplesmente desejam outra administração.

A lição de Star Wars

A queda da República em Star Wars não ocorre por meio de um ataque frontal promovido por alguém que se apresenta abertamente como inimigo das instituições. Palpatine ascende afirmando proteger a República de ameaças sucessivas. Poderes excepcionais são concedidos em nome da segurança, adversários são apresentados como perigos existenciais e a concentração de autoridade avança cercada por formalidades legais.

Quando o Império finalmente nasce, muitos dos mecanismos que permitiram sua criação foram aprovados pelas próprias instituições republicanas.

A comparação não transforma Lula em Palpatine nem o Brasil numa réplica da República Galáctica. A analogia serve para iluminar uma advertência política mais ampla: a linguagem de proteção institucional também pode ser empregada para concentrar legitimidade, silenciar divergências e converter adversários em inimigos absolutos.

Em Star Wars, a República não desaparece porque todos deixaram de defendê-la. Ela desaparece porque a promessa de salvá-la foi utilizada para alterar sua natureza.

Entre a defesa legítima das instituições e a apropriação política da democracia

Existe um argumento legítimo em favor da posição presidencial. O Brasil enfrentou ataques às instituições, questionamentos sem provas sobre o sistema eleitoral e uma tentativa concreta de impedir ou reverter a alternância de poder. Um chefe de Estado não precisa manter neutralidade diante de movimentos que pretendam romper a ordem constitucional.

O contraponto é igualmente necessário: reconhecer ameaças reais não concede a qualquer governo o monopólio da democracia. A defesa das instituições perde credibilidade quando o conceito é ampliado para envolver todo o campo adversário, quando a crítica ao governo é confundida com hostilidade à República ou quando regimes externos recebem tolerância que não seria admitida no debate doméstico.

Democracia exige vigilância contra golpes, mas também exige oposição legítima, alternância de poder, liberdade de crítica e igualdade política entre os participantes do processo eleitoral.

Democracia não é um candidato

A principal ameaça não vem apenas daqueles que atacam abertamente as instituições. Também pode surgir quando governantes transformam a palavra “democracia” em escudo eleitoral, identidade partidária ou certificado de superioridade moral.

Lula afirmou literalmente ser a democracia. Seu discurso, contudo, construiu uma associação indireta entre a continuidade de seu projeto e a preservação democrática. Essa formulação merece escrutínio porque nenhum presidente pode ocupar sozinho o lugar reservado pela Constituição ao povo.

A República começa a correr perigo quando seus governantes deixam de dizer “estou submetido à democracia” e passam a sugerir: “a democracia depende de mim”.

A lição de Star Wars permanece atual: as instituições precisam ser protegidas não apenas daqueles que anunciam sua intenção de destruí-las, mas também daqueles que reivindicam poderes políticos e morais cada vez maiores em nome de sua salvação.

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