Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
O general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva está chegando ao fim de sua gestão à frente do Exército Brasileiro. É o momento de consolidar um legado que vá além das diretrizes de modernização e se traduza em decisões concretas para ampliar a capacidade de combate da Força Terrestre nas próximas décadas.
No contexto da Força 40, três projetos merecem prioridade: a aquisição de drones armados, a escolha de um sistema de defesa antiaérea de média altura e a definição de uma nova família de blindados sobre lagartas.
São necessidades conhecidas há tempo. O desafio agora é transformar os requisitos operacionais em escolhas efetivas, contratos e programas capazes de avançar independentemente da mudança de comando.
Drones armados: uma capacidade indispensável
Os conflitos recentes demonstraram a importância dos drones armados no campo de batalha. Essas plataformas ampliam as capacidades de inteligência, vigilância, reconhecimento e identificação de alvos, permitem ataques de precisão e oferecem novas possibilidades de emprego tático, reduzindo a exposição das tropas em determinadas missões.
A escolha do Exército deve considerar autonomia, alcance, capacidade de armamento, resistência à guerra eletrônica e integração aos sistemas de comando e controle. É fundamental selecionar uma plataforma moderna, madura e comprovada operacionalmente, capaz de atender às necessidades brasileiras sem exigir um longo ciclo de desenvolvimento antes de entrar em serviço.
A decisão precisa contemplar não apenas a aquisição das aeronaves, mas também armamentos, treinamento, manutenção, infraestrutura e integração doutrinária. O objetivo é estabelecer uma capacidade operacional efetiva, e não simplesmente incorporar equipamentos.
O Exército já conhece a importância desses sistemas. Cabe agora definir a plataforma e encaminhar a contratação, permitindo que a Força comece a incorporar essa capacidade sem novos adiamentos.
Defesa antiaérea de média altura: uma lacuna a resolver
O Exército precisa ampliar sua defesa antiaérea para além dos sistemas de baixa altura e de muito curto alcance (VSHORAD). A proliferação de drones, munições guiadas, aeronaves de combate, bombas planadoras e mísseis de cruzeiro exige uma arquitetura capaz de enfrentar ameaças distintas e proteger áreas de maior relevância operacional.
Um sistema de média altura deve combinar alcance, mobilidade, capacidade de engajamento, integração com radares e centros de comando e controle e interoperabilidade com as demais Forças Armadas. A capacidade de manutenção no Brasil e a participação da indústria nacional também devem ser consideradas na escolha.
O radar é um componente central dessa arquitetura. Deve oferecer capacidade moderna de detecção, acompanhamento e identificação de alvos, fornecendo os dados necessários ao sistema de controle de tiro e ao emprego dos mísseis.
Essa capacidade é essencial para proteger tropas, instalações militares, infraestruturas estratégicas e centros urbanos, além de contribuir para a defesa integrada do espaço aéreo brasileiro.
A decisão sobre o sistema precisa sair da fase de estudos e avançar para uma escolha objetiva. Se a definição não ocorrer durante a atual gestão, existe o risco de prolongar uma lacuna que compromete a proteção das forças terrestres e de instalações estratégicas.
Blindados sobre lagartas: definir a família que substituirá os Leopard 1A5
A substituição dos Leopard 1A5 e a incorporação de um veículo blindado de combate de fuzileiros (VBC Fuz) estão entre as decisões mais importantes para o futuro das Forças Blindadas do Exército.
A solução deve contemplar uma família de veículos sobre lagartas que reúna carros de combate e viaturas de combate de infantaria. Essas plataformas formam um binômio operacional: precisam atuar de maneira coordenada, com mobilidade compatível, proteção adequada e capacidade de acompanhar o ritmo das operações blindadas.
A escolha deve considerar proteção, poder de fogo, mobilidade, custos de aquisição e manutenção, disponibilidade de peças, comunalidade logística e liberdade de emprego ao longo da vida útil. Restrições de exportação, limitações tecnológicas ou dependências externas que possam dificultar a operação e a manutenção também precisam integrar a avaliação.
A participação da indústria nacional, a produção local e a transferência de tecnologia podem contribuir para reduzir dependências e ampliar a autonomia brasileira, desde que vinculadas a uma solução madura e adequada às necessidades operacionais.
Não se trata apenas de selecionar um novo blindado, mas de estabelecer a base da força mecanizada e blindada para as próximas décadas. A decisão orientará o planejamento logístico, a preparação das unidades, a formação de pessoal e os investimentos necessários à renovação da frota.
O Exército precisa definir a família de veículos e estabelecer um cronograma realista de incorporação. A meta deve ser iniciar ainda em 2027 o processo de substituição dos Leopard 1A5 e de incorporação do VBC Fuz, com os instrumentos contratuais e as providências administrativas encaminhados desde já.
Um legado de decisões, não apenas de intenções
Os três projetos integram uma agenda mais ampla de transformação, mas têm impacto direto sobre a capacidade de combate do Exército. Sua concretização depende de recursos, planejamento e continuidade entre diferentes comandos.
Como a gestão do general Tomás está chegando ao fim, não basta reafirmar a importância dessas capacidades ou deixar estudos para o sucessor. É necessário concluir o que estiver ao alcance do atual comando: definir requisitos, selecionar soluções, obter as autorizações necessárias e avançar nas negociações contratuais.
Sempre que possível, os contratos devem estar prontos para assinatura. Nos projetos em que isso ainda não for viável, a escolha da solução e as etapas para a contratação precisam estar claramente encaminhadas, com cronogramas, responsabilidades e requisitos definidos.
O general Tomás não precisa entregar todas essas capacidades plenamente incorporadas antes de deixar o cargo. Pode, contudo, garantir que seu sucessor receba decisões tomadas e projetos em condições concretas de execução, em vez de recomeçar discussões que se prolongam há anos.
Esse é o sentido de um legado institucional: deixar resultados que sobrevivam à troca de comando.
Selecionar os drones armados, definir o sistema de defesa antiaérea de média altura e estabelecer a nova família de blindados sobre lagartas são decisões capazes de marcar a gestão do general Tomás e contribuir para que o Exército Brasileiro avance rumo ao objetivo de se tornar a Força Terrestre mais bem equipada da América Latina.
Ao final de uma gestão, o legado não se mede apenas pelo que foi planejado, mas pelo que ficou decidido e pronto para ser executado. Para o Exército, esse é o momento de transformar necessidades conhecidas em escolhas concretas.




















