A construção da defesa aérea em camadas da Turquia e a parceria com a Itália para o SAMP/T

Nelson During
Editor – Chefe DefesaNet

A Turquia vem conduzindo, nas últimas décadas, um ambicioso esforço para construir uma arquitetura de defesa aérea moderna, integrada e, sobretudo, autônoma. Esse movimento reflete tanto a necessidade de responder a ameaças regionais complexas quanto o objetivo estratégico de reduzir a dependência de fornecedores externos. Nesse contexto, empresas como a ASELSAN e a Roketsan desempenham papel central no desenvolvimento de sensores, sistemas de comando e mísseis, formando a espinha dorsal de uma defesa aérea em camadas.

O conceito adotado segue o padrão das principais potências militares: múltiplos sistemas atuando em diferentes altitudes e alcances, interligados por redes de comando e controle capazes de gerar uma imagem aérea comum e coordenar respostas em tempo real. Dentro dessa lógica, a Turquia estruturou sua defesa terrestre em torno da família HISAR, que inclui variantes de curto e médio alcance. O sistema HISAR-A+ já se encontra em operação, enquanto o HISAR-O+, destinado à defesa de média altitude, ainda passa por um processo de amadurecimento tecnológico e operacional. Apesar dos avanços, essa camada intermediária ainda não atingiu o nível de confiabilidade e integração esperado para cenários de combate mais complexos, especialmente no que se refere à guiagem por radar ativo, interoperabilidade e desempenho sob saturação de alvos.

Acima dessa camada, a Turquia desenvolve o sistema de longo alcance SİPER, concebido para ampliar significativamente a capacidade de engajamento contra aeronaves, mísseis de cruzeiro e, potencialmente, ameaças balísticas. Embora represente um salto tecnológico importante, o SİPER ainda se encontra em fase de evolução e não atingiu plena maturidade operacional comparável a sistemas consolidados no mercado internacional. Essa combinação — sistemas nacionais promissores, porém ainda em desenvolvimento — evidencia uma lacuna na defesa aérea turca, particularmente na faixa de média a longa altitude.

Disparo de um SAMP/T

É nesse cenário que se insere a recente aproximação entre Ancara e o consórcio europeu Eurosam, que reúne empresas como a MBDA e a Thales Group, com participação relevante da Itália. O foco dessa cooperação é o sistema SAMP/T, equipado com o míssil Aster 30 e amplamente reconhecido por sua capacidade de defesa contra aeronaves e mísseis, incluindo ameaças balísticas de curto alcance. Mais do que uma simples aquisição, a negociação envolve transferência de tecnologia, coprodução e integração com os sistemas turcos existentes, especialmente aqueles desenvolvidos pela ASELSAN.

A busca por essa parceria revela uma abordagem pragmática por parte da Turquia. Ao mesmo tempo em que investe fortemente no desenvolvimento doméstico, o país reconhece a necessidade de incorporar soluções já maduras para acelerar a construção de uma defesa aérea plenamente funcional. O SAMP/T, nesse contexto, pode atuar como uma camada adicional de alta confiabilidade, preenchendo lacunas temporárias enquanto os sistemas nacionais atingem o nível desejado de desempenho e robustez.

Essa preocupação com confiabilidade não é trivial. Sistemas de defesa antiaérea operam em um ambiente altamente sensível, no qual a precisão na detecção, identificação e engajamento de alvos é absolutamente crítica. Falhas nesses processos podem resultar em consequências graves, como fratricídio ou até mesmo a derrubada acidental de aeronaves civis. Por isso, o desenvolvimento de mísseis antiaéreos e seus sistemas associados exige não apenas avanços tecnológicos, mas também extensivos processos de validação, testes e integração operacional.

Dessa forma, a estratégia turca parece caminhar para um modelo híbrido: consolidar, no longo prazo, uma base industrial e tecnológica independente, enquanto, no curto e médio prazo, recorre a parcerias internacionais para garantir capacidade operacional imediata e reduzir riscos. A cooperação com a Itália e o consórcio Eurosam, centrada no SAMP/T, insere-se precisamente nesse equilíbrio entre autonomia e pragmatismo. O sucesso dessa abordagem dependerá da capacidade da Turquia de integrar eficazmente sistemas de diferentes origens em uma arquitetura coesa, confiável e preparada para os desafios de um ambiente aéreo cada vez mais complexo.

Sistema HISAR-O da ASELSAN durante testes em 2025 – Foto ASELSAN

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