A defesa nacional não pode mais esperar
Excelentíssimo Senhor Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro,
O Brasil atravessa um momento histórico em que a realidade internacional muda de forma acelerada e, infelizmente, em uma direção preocupante. O sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial, baseado em instituições multilaterais, tratados e no respeito ao direito internacional, dá sinais evidentes de esgotamento. A força voltou a ocupar um papel central na política global.
A invasão russa da Ucrânia demonstrou que a soberania de uma nação ainda pode ser violada por meios militares convencionais, mesmo no século XXI. Mais recentemente, a escalada das tensões no Oriente Médio, incluindo ataques diretos envolvendo o Irã, reforça a percepção de que a estabilidade internacional está sendo substituída por uma lógica de poder, na qual prevalecem os interesses estratégicos das grandes potências e não, necessariamente, as normas jurídicas internacionais.
A dura verdade é que o direito internacional, embora essencial, não se sustenta sozinho. A história ensina que tratados têm valor apenas quando os Estados possuem capacidade para defender seus interesses e proteger sua soberania. O mundo está redescobrindo uma antiga lição: a paz depende, em grande medida, da capacidade de dissuasão.
É justamente por isso que esta carta se dirige a Vossa Excelência.
O Brasil, muitas vezes, comporta-se como se estivesse isolado das grandes disputas globais. Essa percepção é perigosa. Somos uma potência territorial, detentora da maior floresta tropical do planeta, de uma das maiores reservas de água doce, de riquezas minerais estratégicas e de uma imensa área marítima — a Amazônia Azul — que concentra recursos energéticos e interesses econômicos fundamentais para o futuro do País.
Além das ameaças tradicionais, vivemos a era dos conflitos híbridos: ataques cibernéticos, espionagem tecnológica, sabotagem de infraestruturas críticas, campanhas de desinformação e pressões econômicas sobre setores estratégicos. O Brasil já está inserido nesse ambiente de competição global, queira ou não.
Nesse cenário, não investir de forma consistente na defesa nacional é uma decisão que contraria os interesses permanentes da República. Pior: representa uma renúncia silenciosa à capacidade do Estado de proteger seu território, sua população e seus recursos estratégicos.
Sabemos que as restrições fiscais são reais e que o Ministério da Defesa enfrenta desafios complexos para equilibrar prioridades. Entretanto, a defesa não pode continuar sendo tratada como uma variável de ajuste orçamentário. Ela é uma das funções mais básicas do Estado. Nenhum país de dimensões continentais e com a relevância geopolítica do Brasil pode aspirar à autonomia estratégica sem Forças Armadas modernas, equipadas e tecnologicamente preparadas.
Investir em defesa não é preparar o país para a guerra. É justamente o contrário: é criar as condições para evitar conflitos. A história demonstra que a capacidade militar gera respeito, amplia a margem de negociação diplomática e reduz a probabilidade de coerção externa. A diplomacia e a defesa não são políticas concorrentes; são instrumentos complementares da soberania nacional.
Há também um aspecto econômico que merece destaque. Recursos destinados à Base Industrial de Defesa não representam mero gasto público. Eles impulsionam a inovação, fortalecem a indústria nacional, geram empregos de alta qualificação e desenvolvem tecnologias com aplicações civis em áreas como espaço, cibersegurança, inteligência artificial, telecomunicações e aeronáutica. As grandes nações compreenderam essa relação há décadas. O Brasil não pode ficar para trás.
Senhor Ministro, a sociedade brasileira precisa ser chamada para esse debate. Defesa nacional não é um tema restrito aos quartéis ou aos especialistas. Trata-se de uma política de Estado, acima de disputas ideológicas ou eleitorais. A responsabilidade constitucional de garantir a defesa da Pátria não pertence apenas às Forças Armadas; ela é uma missão compartilhada por todos os níveis de governo e por toda a sociedade.
Os acontecimentos recentes demonstram que a geopolítica voltou a ser movida pela força. Em um mundo cada vez mais instável, a ingenuidade estratégica pode custar caro. A neutralidade diplomática não elimina riscos, e a distância geográfica já não protege nenhum país das novas formas de conflito.
Por isso, fica aqui um apelo respeitoso, mas urgente: que a Defesa Nacional seja colocada no centro das prioridades estratégicas do Estado brasileiro. Que os programas de reaparelhamento das Forças Armadas recebam previsibilidade orçamentária. Que a Base Industrial de Defesa seja fortalecida. E que o Brasil volte a enxergar a segurança e a soberania não como despesas, mas como investimentos indispensáveis para a preservação de sua independência e de seu futuro.
A história raramente avisa duas vezes. Os sinais estão diante de nós. Cabe às lideranças nacionais decidir se o Brasil será um espectador das transformações do mundo ou um país preparado para defender seus interesses, sua soberania e seu povo.
Respeitosamente,
Nelson During
Editor-Chefe do DefesaNet





















