Defesa sem legado: cinco meses para o fim e um país esperando decisões

Defesa sem legado: cinco meses para o fim e um país esperando decisões. Faltam cinco meses para o fim da atual gestão. Cinco meses.


Fiel Observador
DefesaNet
Julho 2026

Depois de quase quatro anos de reuniões, viagens, apresentações, grupos de trabalho, pedidos de informação, cartas de intenção e promessas, uma pergunta precisa ser feita sem rodeios: qual será o legado concreto desta gestão para as Forças Armadas brasileiras?

Onde estão os contratos?

A justificativa habitual é conhecida: falta orçamento. É verdade que o Brasil investe pouco em Defesa diante de sua dimensão territorial, de suas responsabilidades no Atlântico Sul e da necessidade de proteger a Amazônia e suas fronteiras. Mas reduzir toda a paralisia à questão orçamentária começa a parecer uma explicação conveniente.

O problema também é outro.

  • Falta ação.
  • Falta coragem administrativa.
  • Falta assumir responsabilidades.
  • Falta decidir.

Na Força Aérea Brasileira, novos aviões aparecem constantemente em discursos, estudos e intenções. Fala-se em ampliar a frota de caças, recuperar capacidades e adquirir novas plataformas. Mas contratos concretos continuam escassos.

Os A-1 AMX caminham para a desativação sem substitutos contratados. Uma aeronave que durante décadas representou uma importante capacidade de ataque da FAB simplesmente deixará o serviço. E depois?

Qual aeronave ocupará seu espaço? Qual será a capacidade de ataque de longo alcance? Qual é o planejamento para Santa Maria?

Promessas não voam.

Na Marinha do Brasil, o Programa Fragatas Classe Tamandaré demonstra que, quando existe decisão, planejamento e contrato, os navios aparecem.

Mas onde está a assinatura das quatro fragatas adicionais?

Onde estão os novos NPa de 500 toneladas necessários para patrulhar uma costa de dimensões continentais?

E qual aeronave substituirá os A-4 Skyhawk do VF-1?

A Aviação Naval de Caça será preservada ou o Brasil simplesmente aceitará perder essa capacidade?

Novamente, estudos. Reuniões. Avaliações.

Decisão, nenhuma.

No Exército Brasileiro, a situação talvez seja ainda mais emblemática.

  • Onde está o ATMOS?
  • Onde está a nova artilharia autopropulsada sobre rodas?
  • Onde estão os novos lotes do Centauro II capazes de transformar efetivamente a força mecanizada brasileira?
  • Onde está a defesa antiaérea de média altitude?
  • Onde estão os drones?
  • Onde está a nova família de blindados sobre lagartas?

O Exército conhece suas necessidades. Os fabricantes apresentaram suas propostas. Delegações visitaram fábricas. Sistemas foram demonstrados. Informações foram solicitadas. Estudos foram realizados.

O que mais falta estudar?

Enquanto Brasília analisa documentos, o mundo se rearma.

A guerra na Ucrânia mostrou que artilharia, drones, guerra eletrônica e defesa antiaérea voltaram ao centro do campo de batalha.

Os conflitos no Oriente Médio demonstraram que países sem uma defesa aérea integrada permanecem vulneráveis desde as primeiras horas de uma crise.

  • A Europa aumenta dramaticamente seus investimentos militares.
  • A Ásia acelera seus programas de mísseis, drones e sistemas autônomos.
  • Os Estados Unidos reposicionam sua estratégia de segurança no continente americano.

E o Brasil continua realizando estudos.

O ambiente geopolítico mudou.

A América Latina mudou.

O Atlântico Sul ganhou nova importância.

A Amazônia e o Arco Norte estão cada vez mais inseridos na disputa estratégica internacional.

O narcotráfico deixou de ser tratado apenas como um problema policial e passa a integrar as discussões de segurança hemisférica.

Diante deste cenário, qual é a resposta brasileira?

Onde estamos?

Onde queremos chegar?

Que Forças Armadas o Brasil pretende possuir em 2030?

E em 2040?

Existe uma estratégia ou estamos apenas administrando a obsolescência?

Não se modernizam Forças Armadas com PowerPoint.

RFI (Request for Information) não derruba drone.

RFQ (Request for Quotation) não protege o espaço aéreo.

Memorando de Entendimento (MoU) não dispara artilharia.

Carta de intenção não patrulha o Atlântico.

Promessa não substitui avião.

Contrato, sim.

Decisão, sim.

É preciso abandonar a ideia confortável de que o Brasil está protegido por sua geografia, por sua tradição diplomática ou pela ausência histórica de grandes conflitos em seu território.

O “berço esplêndido” não é um sistema de defesa.

A neutralidade não substitui capacidade militar.

E soberania sem meios para protegê-la é apenas um conceito escrito em documentos oficiais.

Faltam cinco meses.

Cinco meses para que esta gestão demonstre que os últimos anos não foram apenas uma sucessão de anúncios e intenções.

  • Cinco meses para assinar contratos.
  • Cinco meses para definir prioridades.
  • Cinco meses para deixar um legado.

Depois disso, chegará uma nova gestão. Novos ministros. Novos comandantes. Novas prioridades. E, como tantas vezes ocorreu na história da Defesa brasileira, os programas poderão voltar às mesas de estudo.

Talvez por mais quatro anos.

Quem possui a responsabilidade de decidir, que decida.

Agora!

Porque a História não julga apenas as decisões erradas.

Ela também registra, com precisão, aqueles que tiveram a oportunidade de agir e escolheram não decidir.

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter