Brasil e Turquia: a oportunidade de uma nova parceria estratégica

Nelson During
Editor – Chefe DefesaNet

A conversa entre Lula e Recep Tayyip Erdoğan e a criação do Conselho Estratégico Brasil-Turquia deram um importante aval político para o aprofundamento das relações entre os dois países. Agora, é preciso transformar esse sinal político em negócios concretos.

As Forças Armadas brasileiras precisam avançar rapidamente na avaliação e concretização dos projetos. Independentemente do espectro político que governe o Brasil, existe interesse em ampliar as relações econômicas com a Turquia, uma potência regional com peso industrial, militar e tecnológico e uma posição geopolítica e estratégica que, em muitos aspectos, se aproxima da brasileira: autonomia, independência e capacidade de dialogar com diferentes blocos de poder.

Na área de defesa, a complementaridade é evidente.

A Turquia construiu uma indústria altamente competitiva em blindados, drones, armas e sistemas não tripulados. O Brasil possui uma base industrial importante e empresas capazes de participar de programas de desenvolvimento, produção e transferência de tecnologia.

O TULPAR, da Otokar, talvez seja hoje a oportunidade mais concreta para o Exército.

O programa permite pensar não apenas em um novo veículo, mas na modernização de toda a força blindada por meio de um sistema de combate de última geração, baseado em uma família de plataformas sobre lagartas.

O TULPAR está sendo considerado para os programas VBC CC e VBC Fuz, permitindo que carro de combate e veículo de combate de infantaria compartilhem a mesma arquitetura, cadeia logística e diversos sistemas.

Na configuração VBC CC, o TULPAR utiliza a torre Leonardo HITFACT MkII de 120 mm, a mesma empregada no Centauro II e que será produzida no Brasil. Isso cria uma oportunidade particularmente interessante de integração entre uma plataforma turca, uma torre italiana e uma cadeia industrial brasileira.

Mais do que substituir equipamentos antigos, o TULPAR permitiria ao Exército construir uma nova família de blindados, com maior comunalidade, capacidade de evolução e potencial de produção nacional. A solução também pode interessar ao Corpo de Fuzileiros Navais, ampliando a escala e a racionalidade do programa.

No campo dos sistemas aéreos não tripulados, o Bayraktar TB3 oferece outra oportunidade estratégica.

O TB3 é uma plataforma MALE de longo alcance, capaz de realizar vigilância, reconhecimento, patrulhamento de fronteiras e do litoral, apoio a operações de defesa civil e ataques de precisão. Sua capacidade de operar a partir de navios com pistas curtas acrescenta uma dimensão especialmente importante para a Marinha.

A Baykar possui hoje cerca de 60% do mercado mundial de drones de combate, segundo dados divulgados pela empresa. A possibilidade de produzir o TB3 no Brasil poderia criar uma nova cadeia industrial nacional e transformar o país em uma base de produção e exportação de sistemas não tripulados.

A cooperação poderia ainda incluir drones FPV, munições e sistemas de armas. A Taurus está adquirindo a Mertsav, criando uma ponte direta entre as indústrias de defesa dos dois países. A capacidade da Avibras também poderia ser incorporada a uma estratégia de cooperação industrial envolvendo munições e outros produtos de defesa.

Mas a relação deve ser de mão dupla.

A Turquia demonstra interesse no KC-390, da Embraer, enquanto existe a possibilidade de ampliar a cooperação para a produção de aeronaves comerciais brasileiras na Turquia. O resultado seria uma parceria equilibrada, na qual cada país aproveitaria as capacidades industriais do outro.

O espaço pode formar um terceiro eixo dessa relação. A Fergani Space abre possibilidades de cooperação em satélites, sistemas espaciais, componentes e lançamento. O Brasil possui, nesse campo, um ativo estratégico único: o Centro Espacial de Alcântara.

O momento, portanto, é de decisão.

O aval político de Lula e Erdoğan elimina uma das principais barreiras para o avanço da relação. Agora cabe às Forças Armadas, às empresas e aos órgãos responsáveis pela política industrial transformar essa oportunidade em programas concretos.

O Brasil não precisa apenas comprar equipamentos turcos. Precisa produzir no Brasil, absorver tecnologia, desenvolver conjuntamente e criar capacidade de exportação.

TULPAR, TB3, FPVs, KC-390, munições, armas e sistemas espaciais podem ser os primeiros pilares de uma relação muito mais ampla.

Brasil e Turquia têm dimensão, capacidade econômica, interesses e autonomia suficientes para construir uma parceria estratégica sem depender de alinhamentos automáticos com qualquer outro país.

O momento exige velocidade.

A política abriu a porta. Agora, é hora de a indústria e as Forças Armadas atravessarem.

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