Notas Estratégicas – Brasil aposta em parceria estratégica com a Turquia

Notas Estratégicas | Brasil aposta em parceria estratégica com a Turquia

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

07 Agosto 2026

O governo brasileiro decidiu avançar na construção de uma parceria estratégica com a Turquia na área de defesa. A iniciativa, considerada prioritária por integrantes do Palácio do Planalto, prevê acordos de governo para governo (G2G) destinados à produção local de sistemas militares, transferência de tecnologia e ampliação da cooperação industrial entre os dois países.

Segundo fontes em Brasília, o entendimento político já recebeu aval dos governos brasileiro e turco, abrindo espaço para o início das negociações técnicas e comerciais. A avaliação é que essa aproximação poderá resultar em um dos mais relevantes programas de fortalecimento da Base Industrial de Defesa (BID) brasileira nas últimas décadas.

Os principais projetos em discussão concentram-se, neste momento, no Exército Brasileiro. As negociações envolvem a produção da família de blindados sobre lagartas Tulpar, desenvolvida pela empresa turca Otokar, incluindo a versão carro de combate equipada com canhão de 120 mm e a variante de veículo blindado de combate de infantaria armada com canhão automático de 30 mm.

Se concretizado, o programa representará a mais importante renovação da força blindada do Exército desde a incorporação dos Leopard 1A5. Além da substituição gradual dos atuais meios, a proposta contempla fabricação em território nacional, transferência de tecnologia, formação de mão de obra especializada e participação da indústria brasileira em toda a cadeia logística, incluindo manutenção, modernização e evolução futura das plataformas.

A empresa OTOKAR desenvolveu uma ampla linha de viaturas blindadas com capacidades de atender às múltiplas demandas das Forças TerrestresNa foto a versão MMBT equipado com canhão de 120mm e o IFV com canhão de 30 mm

Outro eixo considerado estratégico envolve a família de drones Bayraktar, produzida pela Baykar. O interesse brasileiro não se limita à aquisição das aeronaves remotamente pilotadas. O objetivo é estabelecer capacidade nacional de fabricação, integração de sistemas, manutenção e desenvolvimento tecnológico, criando ainda condições para futuras exportações destinadas ao mercado latino-americano.

A estratégia atende a um objetivo mais amplo da política de defesa brasileira: ampliar a autonomia tecnológica por meio da diversificação de parceiros industriais e fornecedores de equipamentos, reduzindo a dependência de um número restrito de países e fortalecendo a Base Industrial de Defesa.

Nesse contexto, um dos aspectos considerados nas negociações é a redução da vulnerabilidade dos programas estratégicos brasileiros às restrições impostas por legislações estrangeiras de controle de exportações, como o International Traffic in Arms Regulations (ITAR), dos Estados Unidos, e os mecanismos de controle administrados pela Alemanha (BAFA). Essas normas podem limitar a exportação, modernização ou transferência de equipamentos que utilizem componentes sujeitos a esses regimes.

Bayraktar TB3 armado com munição inteligente MAM-T Foto – Baykar

Na avaliação de integrantes do governo, ampliar o número de parceiros tecnológicos aumenta a previsibilidade dos programas de defesa e reduz riscos associados às mudanças do cenário geopolítico internacional.

As conversas, entretanto, não se restringem aos blindados Tulpar e aos drones Bayraktar. Fontes ligadas às negociações afirmam que a cooperação poderá ser expandida para outras áreas consideradas críticas para a defesa nacional, consolidando uma relação estratégica de longo prazo entre Brasília e Ancara.

A expectativa é que futuros acordos também beneficiem a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira por meio de novos projetos de desenvolvimento conjunto, produção local, integração industrial e transferência de tecnologia.

A aproximação ocorre em duas direções. Ao mesmo tempo em que o Brasil busca ampliar sua cooperação com a indústria de defesa turca, empresas da Turquia avaliam oportunidades de investimento no setor aeroespacial brasileiro. Entre os projetos analisados está a possibilidade de produção de aeronaves da Embraer em território turco, ampliando a presença internacional da fabricante brasileira e fortalecendo a cooperação industrial entre os dois países.

Na visão de integrantes do governo, Brasil e Turquia compartilham objetivos convergentes: fortalecer suas bases industriais de defesa, ampliar a autonomia tecnológica e reduzir a dependência externa em setores considerados essenciais para a soberania nacional.

Caso os acordos G2G sejam formalizados, poderão representar uma mudança relevante na política industrial de defesa brasileira. Mais do que incorporar novos equipamentos, a proposta busca desenvolver competências industriais permanentes, ampliar o conteúdo nacional, estimular a inovação tecnológica e consolidar o Brasil como um polo regional de produção e integração de sistemas de defesa de alta tecnologia.

A aproximação bilateral também vem sendo sustentada no mais alto nível político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Recep Tayyip Erdoğan mantêm contatos frequentes, reforçando o diálogo entre os dois governos e criando um ambiente favorável ao aprofundamento da cooperação estratégica.

Esse movimento político é acompanhado por uma intensa agenda militar. Nos últimos anos, sucessivas delegações brasileiras visitaram a Turquia, incluindo o comandante do Exército, o comandante de Operações Terrestres, o chefe do Estado-Maior do Exército e o chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia. Em sentido inverso, diversas missões das Forças Armadas turcas estiveram no Brasil para conhecer capacidades industriais, avaliar oportunidades de cooperação e ampliar o intercâmbio tecnológico e operacional.

Mais do que uma aproximação comercial, Brasil e Turquia parecem construir uma relação baseada em interesses estratégicos convergentes. Se as negociações em curso evoluírem para contratos e programas conjuntos de longo prazo, a parceria poderá inaugurar um novo ciclo de cooperação industrial e tecnológica, com reflexos diretos sobre a capacidade operacional das Forças Armadas e sobre o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira.

Turkish Aerospace e Embraer explorarão oportunidades de produção do E2 na Turquia
Turkish Aerospace e Embraer explorarão oportunidades de produção do E2 na Turquia e também na área militar. Acordo foi anunciado durante a LAAD2025, abril 2025.

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