Com coesão do Almirantado a Marinha do Brasil consegue avançar com seus Programas Estratégicos enquanto Força Aérea e Exército patinam no atoleiro da falta de coesão de seus decisores.
Nelson Düring
Editor-Chefe, DefesaNet
A decisão de ampliar a classe de fragatas Classe Tamandaré para oito unidades vai além de um ganho quantitativo para a Marinha do Brasil. Trata-se da demonstração de um atributo raro no ambiente de defesa nacional: clareza estratégica, unidade de propósito no Alto Comando e capacidade de transformar planejamento em decisões concretas.
Nos últimos anos, a Marinha consolidou uma visão institucional coerente, estruturada em torno de prioridades bem definidas — a construção de submarinos convencionais, o desenvolvimento do submarino nuclear e a renovação da esquadra de superfície. O resultado é tangível. Ao estabelecer o programa Tamandaré como eixo central, a força criou massa crítica, previsibilidade industrial, geração de empregos e, sobretudo, confiança política — elemento essencial para viabilizar sua expansão.
Esse movimento eleva o patamar da capacidade naval brasileira. Com oito fragatas modernas, a Marinha não apenas recompõe sua capacidade de escolta, mas passa a dispor de base concreta para um salto qualitativo. Abre-se caminho para o planejamento de navios de maior deslocamento, com maior poder de combate e presença oceânica — requisito indispensável para um país com a dimensão marítima do Brasil.
Nesse contexto, retorna ao horizonte a discussão sobre a aquisição de um novo navio-aeródromo, capaz de operar aeronaves tripuladas e sistemas não tripulados. Trata-se de um elemento central para a projeção de poder e o controle de áreas marítimas estratégicas, dentro de uma concepção moderna de guerra aeronaval, na qual os domínios aéreo e marítimo se integram de forma indissociável.
A incorporação de drones embarcados deixa de ser uma hipótese futura para se tornar uma exigência operacional. A guerra naval contemporânea impõe a integração entre vetores tripulados e não tripulados como condição para maximizar a eficácia do poder de combate — realidade que a Marinha demonstra compreender com crescente maturidade.
O contraste com as demais forças é evidente.

Nota DefesaNet – Podemos dar vários exemplos e talvez o mais icônico é o IDV Centauro II-BR. O Exército Brasileiro sempre o apresenta em solenidades um ou os dois protótipos recebidos para testes. Os contratos de aquisição de 98 unidades junto a IDV estãop prontos faltando só a assinatura. Há cerca de mais de um anos tem sido continuadamente postergados. Na foto o Centauro 2-BR abrindo o desfile mecanizado na Solenidade do Dia do Exército Brasileiro, Brasília DF, 16 Abril 2026. Foto CECOMSEx. A palavra COESÃO (?) é a motivação do Exército Brasileiro

A Força Aérea Brasileira enfrenta uma deterioração de sua capacidade operacional. A redução das horas de voo, a evasão de pilotos e a baixa disponibilidade de aeronaves comprometem sua missão essencial: garantir a superioridade aérea. Ao mesmo tempo, episódios envolvendo o Grupo de Transporte Especial reforçam a percepção de desvio de foco, aproximando a instituição de uma lógica de transporte governamental — quase uma “linha aérea militar” — em detrimento de sua função estratégica. Apesar de sua relevância institucional recente, inclusive em episódios de grande repercussão política, a FAB não conseguiu converter visibilidade em apoio consistente para sua modernização. Falta-lhe, hoje, uma agenda clara, coesa e politicamente eficaz.
O Exército Brasileiro, por sua vez, enfrenta um problema ainda mais estrutural. A ausência de decisão e de unidade de propósito no Alto Comando — marcada por disputas internas de prioridade — bloqueia o avanço de projetos estratégicos. Programas de aquisição arrastam-se por anos, sem definição clara de rumo, avançando de forma fragmentada e sem execução consistente. Falta direção, decisão e comando.
Interessante que a palavra de motivação usada pelo Exército Brasileiro nos últimos meses é COESÃO. Exatamente o que o Alto-Comando não demosntra ter.
O fator orçamentário torna esse contraste ainda mais evidente. A expansão do programa Tamandaré representa um investimento comparável — ou superior — à soma de diversos projetos prioritários do Exército e da própria FAB. Ainda assim, a Marinha avançou. Não por dispor necessariamente de mais recursos, mas por saber exatamente o que pretende, onde quer chegar e como articular apoio político para viabilizar essa trajetória.
A lição é clara: em um ambiente de restrições fiscais e competição por recursos, não avança quem mais precisa, mas quem tem clareza estratégica e unidade para executar. A Marinha demonstrou esse caminho. A Força Aérea Brasileira e o Exército Brasileiro, por ora, ainda procuram encontrá-lo.





















