Comandante da Aeronáutica Tenente-Brigadeiro Marcelo Damasceno recebe das mãos de Lars Tossman, VP da SAAB o LogBook do primeiro Gripen F-39 F Video captura
A FAB QUER 66 GRIPEN: ENTRE A NECESSIDADE OPERACIONAL E A REALIDADE POLÍTICA
Versão em inglês – The Brazilian Air Force wants 66 Gripen fighter jets: Between Operational Need and Political Reality
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A possibilidade de ampliação da frota de caças F-39 Gripen E/F da Força Aérea Brasileira voltou a ganhar força nos bastidores de Brasília. Embora ainda não exista uma decisão formal do governo federal, a intenção da FAB é clara: ampliar significativamente a atual encomenda de 36 aeronaves e caminhar para uma frota total de 66 caças.
O plano atualmente discutido prevê uma aquisição em duas etapas. A primeira seria realizada por meio de um aditivo correspondente a 25% do contrato original, permitindo a compra de mais dez aeronaves. Em um segundo momento, seria negociado um novo contrato para mais 20 unidades, conforme carta de intenções assinada nesta semana, possivelmente por meio de um acordo governamental entre Brasil e Suécia.
Na prática, um acordo G2G (Governo a Governo) seria o caminho mais viável para a aquisição de um segundo lote sem a necessidade de abertura de uma nova concorrência internacional, preservando a continuidade do programa e os investimentos já realizados pelo país.
Caso ambas as etapas sejam concretizadas, a frota brasileira alcançaria 66 aeronaves, número que há muitos anos figura nos estudos da própria Força Aérea como o mínimo desejável para sustentar uma força de caça compatível com as dimensões continentais do Brasil e suas responsabilidades estratégicas.
A meta não surgiu por acaso.
Os 66 Gripen permitiriam equipar pelo menos cinco esquadrões de primeira linha, substituindo integralmente os Mirage 2000 anteriormente operados pelo Primeiro Grupo de Defesa Aérea (GDA), os caças de ataque AMX e parte significativa da frota de F-5M, cuja retirada deverá ocorrer gradualmente ao longo da próxima década.

Mais do que uma simples expansão quantitativa, trata-se de uma visão de longo prazo para reconstruir a capacidade de combate da aviação de caça brasileira e garantir uma força aérea moderna, tecnologicamente avançada e sustentável para as próximas décadas.
Contudo, entre a intenção da FAB e a assinatura dos contratos existe um fator decisivo: a política.
O programa depende diretamente da disponibilidade de recursos orçamentários e, sobretudo, das prioridades estratégicas do governo que estará no poder quando as decisões finais precisarem ser tomadas.

Ministros da Defesa do Brasil, José Múcio e Suécial Pal Jonson assinam declaração em Estocolmo, em 04 Junho 2026
Caso haja continuidade da atual orientação governamental, a tendência é que a parceria estratégica com a Suécia seja preservada e aprofundada. Nesse cenário, o Gripen permaneceria como a espinha dorsal da aviação de caça brasileira, tornando a expansão da frota uma evolução natural do programa já em execução.
Por outro lado, uma eventual mudança de governo poderá trazer novas avaliações sobre as prioridades de defesa e sobre os relacionamentos estratégicos internacionais do Brasil. Dependendo da orientação adotada pela futura administração, pode haver uma aproximação maior com Washington, criando oportunidades para uma cooperação mais intensa com a indústria de defesa norte-americana e para a análise de outras alternativas em programas futuros.
Isso não significa, necessariamente, qualquer abandono do Gripen. Afinal, o Brasil já investiu bilhões de reais no programa, desenvolveu infraestrutura específica, formou recursos humanos altamente especializados e criou uma importante base industrial associada ao projeto. Além disso, a transferência de tecnologia e a participação da indústria nacional representam ativos estratégicos que dificilmente seriam descartados.
Entretanto, um fator adicional poderá influenciar significativamente esse cenário.
Paradoxalmente, o maior concorrente estratégico do Gripen no Brasil pode não ser um caça norte-americano, mas o sucesso da própria EMBRAER nos Estados Unidos.
Caso o C-390 Millennium conquiste espaço junto à Força Aérea dos Estados Unidos (USAF), seja como complemento ou substituto de parte da frota de transporte tático atualmente em operação, a tendência natural será um aprofundamento das relações industriais e militares entre Brasília e Washington.
Um eventual sucesso da aeronave brasileira no mercado norte-americano colocaria a EMBRAER em uma posição estratégica sem precedentes dentro do ecossistema de defesa dos Estados Unidos, fortalecendo laços institucionais, ampliando oportunidades de cooperação tecnológica e aumentando a relevância do Brasil como parceiro industrial da base de defesa americana.

A imagem acima é capturada do site da campanha do C-390 Millenium para as Forças Armadas Americanas. A EMBRAER está montando uma ambiciosa e bem organizada estrutura de apoio para esta campanha.
Esse novo contexto poderá ampliar a influência da indústria de defesa norte-americana no Brasil e criar pressões futuras por uma maior interoperabilidade entre as Forças Armadas brasileiras e seus parceiros ocidentais, especialmente em programas de longo prazo.
O impacto não seria imediato nem necessariamente direcionado ao programa Gripen. Contudo, futuras decisões sobre aeronaves de combate, sistemas de missão, armamentos, comunicações e integração operacional passariam a ser analisadas dentro de um ambiente estratégico diferente daquele existente quando o F-X2 foi decidido.
Independentemente do cenário político, existe um consenso crescente entre especialistas e militares: 36 aeronaves são insuficientes para atender plenamente às necessidades operacionais de uma potência regional com dimensões continentais e vastas responsabilidades de vigilância e defesa do espaço aéreo.
A questão central deixou de ser se a FAB precisa de mais Gripen.
A verdadeira pergunta é quando o Brasil terá condições políticas, orçamentárias e estratégicas para transformar essa necessidade em realidade.
Por enquanto, os 66 Gripen continuam sendo um objetivo estratégico da Força Aérea Brasileira. Sua concretização, entretanto, dependerá menos dos planejadores militares e mais das decisões políticas e econômicas que serão tomadas nos próximos anos.
O desafio para o Brasil não é definir qual caça deseja operar. Essa decisão já foi tomada. O verdadeiro desafio será garantir a continuidade dos investimentos necessários para transformar uma frota de 36 aeronaves em uma força de combate capaz de atender, de forma adequada, às necessidades de defesa de um país de dimensões continentais.
Mais do que uma discussão sobre aeronaves, trata-se de uma escolha sobre o posicionamento estratégico do Brasil nas próximas décadas: aprofundar a parceria construída com a Suécia em torno do Gripen ou integrar-se de forma mais ampla ao ecossistema industrial e tecnológico de defesa liderado pelos Estados Unidos. Em ambos os casos, a decisão transcende a aviação de caça e alcança o próprio papel que o Brasil pretende desempenhar no cenário internacional.



















