Dotado de recursos naturais, mercado interno e capacidade produtiva, o Brasil atravessa sucessivos ciclos de esperança econômica, mas ainda encontra dificuldades para transformar potencial em crescimento sustentado
Por Ricardo Fan – DefesaNet
(FYI) Há mais de um século, o Brasil é apresentado como o país do futuro. Em diferentes momentos, a promessa esteve no café, na industrialização, na construção de Brasília, no chamado milagre econômico, no petróleo, no agronegócio, no pré-sal, nas commodities ou, mais recentemente, na transição energética e na Inteligência Artificial.
A cada novo ciclo, reaparece a percepção de que o gigante finalmente despertará.
Talvez, porém, a metáfora do gigante adormecido já não seja suficiente para explicar o problema brasileiro. O país parece sofrer de uma espécie de complexo de Bela Adormecida: possui atributos excepcionais, reconhece o próprio potencial, mas continua esperando que alguma força externa rompa o encantamento e inaugure, quase por si mesma, uma era de prosperidade.
Como em todo conto, também existe a tendência de culpar a bruxa má. No imaginário político brasileiro, ela assume diferentes formas: potências estrangeiras, mercados financeiros, organismos internacionais, elites econômicas, corporações multinacionais, interesses geopolíticos ou adversários ideológicos. Há, evidentemente, alguma verdade nessa percepção. Um Brasil industrialmente forte, tecnologicamente autônomo, energeticamente seguro e geopoliticamente influente alteraria equilíbrios regionais, disputaria mercados e reduziria dependências que beneficiam diferentes atores internos e externos.
Não seria ingênuo, portanto, afirmar que existem interesses em manter o país como fornecedor de matérias-primas, consumidor de tecnologia e potência permanentemente incompleta. Na economia e na geopolítica, nenhuma grande nação ascende sem enfrentar resistências, pressões comerciais, disputas tecnológicas e tentativas de preservação das hierarquias existentes.
O equívoco começa quando essa realidade é utilizada para explicar toda a paralisia brasileira.
A bruxa pode ter lançado o feitiço, mas os príncipes que sucessivamente chegaram ao poder raramente demonstraram disposição para quebrá-lo. Em vez de despertar a Bela Adormecida, muitos governos aprenderam a administrar seu sono. Alguns preservaram privilégios, outros ampliaram dependências, adiaram reformas, distribuíram benefícios imediatos ou subordinaram estratégias nacionais às necessidades do calendário eleitoral.
Em diferentes momentos, os supostos salvadores não apenas fracassaram em romper o encantamento, mas compactuaram com ele. Governos de orientações ideológicas distintas mantiveram estruturas ineficientes, protegeram grupos organizados, toleraram a baixa produtividade, politizaram decisões estratégicas e transferiram às gerações seguintes o custo de escolhas que não tiveram coragem de enfrentar.
A responsabilidade, portanto, não está exclusivamente na bruxa externa nem apenas nos príncipes que prometeram o despertar. Está também em um sistema político, econômico e institucional que aprendeu a sobreviver sem que o país realize plenamente suas capacidades.
O problema é que economias não despertam com um beijo, com um discurso ou com a chegada de um governante providencial. Despertam com instituições funcionais, produtividade, responsabilidade fiscal, capacidade de investimento, segurança jurídica, autonomia tecnológica e continuidade estratégica.
O Brasil não precisa de um príncipe encantado. Precisa de governos que deixem de administrar o encantamento — e de uma sociedade que não aceite mais confundir promessas de despertar com um verdadeiro projeto nacional.
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O país que possui quase tudo, mas não consegue combinar suas vantagens
Em entrevista à CNN Brasil, Ana Lankes, chefe da sucursal brasileira da revista The Economist, afirmou que o Brasil reúne as matérias-primas necessárias para tornar-se uma potência, mas permanece limitado pelo déficit fiscal, pela imprevisibilidade das políticas públicas e pela complexidade de seu sistema tributário. Segundo ela, a rigidez constitucional dos gastos obrigatórios reduz a eficiência do Estado e restringe sua capacidade de investir em áreas estratégicas.
O diagnóstico traduz uma das grandes contradições brasileiras.
O país dispõe de território continental, abundância de água, matriz energética relativamente diversificada, grandes reservas minerais, capacidade agrícola, indústria aeronáutica, setor financeiro sofisticado, mercado consumidor amplo e posição geopolítica favorável. Ao contrário de diversas potências emergentes, o Brasil não enfrenta conflitos territoriais relevantes, tensões étnicas de grande escala ou ameaças militares imediatas em suas fronteiras.
Apesar dessas vantagens, sua trajetória econômica é marcada pela alternância entre períodos de aceleração e longas fases de baixo crescimento.
A questão, portanto, não é a inexistência de recursos. É a dificuldade de organizá-los em torno de um projeto coerente de desenvolvimento.
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O eterno país do futuro
A ideia de que o Brasil estaria prestes a realizar seu potencial acompanha diferentes momentos da história nacional.
Na primeira metade do século XX, a industrialização foi vista como o caminho definitivo para superar a dependência agrícola. No governo Juscelino Kubitschek, o lema “50 anos em cinco” sintetizou a crença de que infraestrutura, indústria automobilística e urbanização acelerada colocariam o país entre as economias modernas.
Durante o milagre econômico, entre o final dos anos 1960 e o início da década de 1970, taxas elevadas de expansão alimentaram novamente a expectativa de ascensão. O ciclo, entretanto, perdeu força diante do endividamento externo, dos choques do petróleo e da inflação.
Nos anos 1990, o Plano Real despertou a esperança de que a estabilidade monetária abriria uma nova etapa de crescimento. Na década seguinte, a expansão chinesa, o aumento das exportações e o boom das commodities levaram o Brasil ao centro da atenção internacional.
Em 2009, a revista The Economist estampou o Cristo Redentor decolando como um foguete, sob o título “Brazil takes off”. Poucos anos depois, diante da desaceleração econômica, a própria publicação reconheceria que a decolagem havia sido interrompida.
O episódio tornou-se uma representação quase perfeita do ciclo brasileiro: entusiasmo, crescimento, valorização internacional e posterior frustração.
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A espera por um novo príncipe econômico
O complexo de Bela Adormecida aparece quando o país transfere sua expectativa de transformação para um elemento isolado.
Em determinado momento, o petróleo seria o passaporte para o desenvolvimento. Depois, o pré-sal financiaria educação, ciência e infraestrutura. Em outra fase, as commodities impulsionadas pela China sustentariam uma nova posição internacional. Mais recentemente, a transição energética, os minerais críticos, a economia verde e a Inteligência Artificial surgem como possíveis motores de um novo ciclo.
Essas oportunidades são reais. O erro está em tratá-las como soluções autônomas.
Recursos naturais não produzem prosperidade automaticamente. Países ricos em petróleo, minérios ou terras agrícolas podem permanecer estagnados quando não conseguem converter suas vantagens em capital humano, tecnologia, infraestrutura e produtividade.
Da mesma forma, a Inteligência Artificial poderá elevar a eficiência de empresas e serviços públicos, mas não corrigirá, sozinha, deficiências educacionais, instabilidade regulatória ou baixa capacidade de investimento.
O príncipe encantado muda de nome a cada década. O encantamento permanece.
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O nó fiscal e o príncipe que preferiu o espelho
A reportagem da CNN chama atenção para um dos principais entraves ao desenvolvimento brasileiro: o orçamento público tornou-se progressivamente rígido. Grande parte das despesas já está comprometida com obrigações constitucionais, previdenciárias, salariais e programas permanentes, reduzindo significativamente a capacidade do Estado de redefinir prioridades, ampliar investimentos ou responder rapidamente às mudanças econômicas.
Em 2026, segundo os dados apresentados, apenas as despesas previdenciárias previstas no orçamento federal ultrapassaram R$ 1,11 trilhão. Ao mesmo tempo, o déficit consolidado das contas públicas — considerando União, estados, municípios e empresas estatais — atingiu R$ 56,1 bilhões apenas no mês de maio, um aumento de 66,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Entretanto, limitar a discussão ao déficit seria enxergar apenas parte do problema.
O verdadeiro desafio brasileiro não está apenas em quanto o Estado arrecada ou quanto gasta, mas em como gasta e, principalmente, no quanto consegue transformar esses recursos em desenvolvimento para a sociedade.
Ao longo das últimas décadas, o Estado brasileiro ampliou continuamente suas responsabilidades, sua estrutura administrativa e seus compromissos permanentes. A cada novo reinado mudavam os discursos, os slogans e as prioridades declaradas, mas permanecia praticamente inalterada uma característica comum: o crescimento contínuo da máquina pública.
Novos programas surgiam, estruturas administrativas eram ampliadas, despesas tornavam-se permanentes e direitos eram incorporados ao orçamento. Em contrapartida, reformas destinadas a elevar a produtividade do próprio Estado, simplificar sua estrutura, eliminar sobreposições e aumentar sua eficiência administrativa eram frequentemente adiadas ou executadas apenas parcialmente.
O resultado é um paradoxo cada vez mais evidente. O Estado brasileiro tornou-se maior, mas não necessariamente mais eficaz.
Essa distinção é fundamental. Um Estado robusto pode ser um poderoso instrumento de desenvolvimento quando consegue oferecer infraestrutura de qualidade, educação eficiente, segurança jurídica, inovação, capacidade regulatória e serviços públicos modernos. Porém, quando parcela crescente dos recursos é consumida pela manutenção da própria máquina, sua capacidade de investir no futuro diminui progressivamente.
É exatamente isso que a rigidez orçamentária produz. À medida que as despesas obrigatórias crescem mais rapidamente do que a arrecadação, os investimentos tornam-se a variável de ajuste. Obras de infraestrutura são adiadas, projetos científicos perdem recursos, programas de inovação são reduzidos, a modernização tecnológica é postergada, investimentos em Defesa, logística e qualificação profissional tornam-se secundários. O Estado preserva seus compromissos com o passado, mas perde liberdade para construir o futuro.
Retomando a metáfora deste artigo, talvez o príncipe encarregado de despertar a Bela Adormecida tenha desenvolvido outra obsessão: contemplar a própria imagem refletida no espelho do palácio. Enquanto prometia governar em nome do povo, passou a dedicar boa parte de sua energia à preservação do próprio reino, ao crescimento da corte e à ampliação dos salões do castelo. A princesa permanecia adormecida, mas o palácio nunca deixava de crescer.
O problema não está apenas na existência de um Estado grande ou pequeno. Está em um Estado que, ao longo do tempo, passou a concentrar parcela crescente da riqueza nacional sem elevar, na mesma proporção, sua capacidade de entregar resultados concretos à sociedade. O castelo tornou-se cada vez mais imponente; seus corredores, mais numerosos; sua administração, mais complexa. Entretanto, a prosperidade do reino continuou limitada pelos mesmos obstáculos estruturais.
No conto de fadas, o príncipe existe para despertar a princesa.
Na história brasileira, muitas vezes parece ter ocorrido o contrário: enquanto a Bela Adormecida aguardava o rompimento do encantamento, o príncipe descobriu que administrar um castelo cada vez maior também era uma forma bastante confortável de permanecer no poder. A princesa continuou esperando. O espelho, porém, jamais deixou de refletir a imagem daquele que acreditava governar para o reino, quando, muitas vezes, governava sobretudo para preservar o próprio palácio.
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O crescimento que não se sustenta
Organismos internacionais apontam há anos que a baixa produtividade constitui um dos principais entraves estruturais ao desenvolvimento brasileiro. Estudos do Fundo Monetário Internacional relacionam o fraco desempenho econômico de longo prazo à estagnação da produtividade e defendem reformas capazes de melhorar a eficiência da economia.
A OCDE também identifica a complexidade tributária, as dificuldades regulatórias e a rigidez das despesas obrigatórias como fatores que reduzem a produtividade e tornam o ajuste fiscal mais difícil.
Esse aspecto é decisivo porque o Brasil frequentemente cresce pelo aumento do consumo, do crédito, dos gastos públicos ou das exportações de produtos básicos. Esses mecanismos podem acelerar a atividade durante determinado período, mas não necessariamente elevam a capacidade estrutural de produzir mais e melhor.
Sem produtividade, o crescimento encontra rapidamente seus limites. A inflação aumenta, os juros sobem, o investimento recua e o ciclo perde força.
O país desperta, movimenta-se por alguns anos e volta a adormecer.
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O círculo entre déficit, juros e baixo investimento
A fragilidade fiscal também possui efeitos que ultrapassam as contas públicas.
Quando aumenta a percepção de que a dívida seguirá crescendo sem uma trajetória clara de estabilização, investidores exigem maior remuneração para financiar o Estado. Isso pressiona as taxas de juros de longo prazo, encarece o crédito e reduz a disposição das empresas para investir.
Ao mesmo tempo, juros elevados ampliam o custo do serviço da dívida pública, agravando o próprio problema fiscal.
Forma-se, assim, um círculo difícil de romper:
- déficits persistentes elevam a percepção de risco;
- o risco pressiona os juros;
- os juros reduzem o investimento;
- o baixo investimento limita a produtividade; e a
- produtividade fraca restringe o crescimento e a arrecadação.
A OCDE projeta desaceleração da economia brasileira em 2026 e considera a recuperação da credibilidade fiscal importante para sustentar o crescimento e reduzir as pressões inflacionárias.
Isso não significa que qualquer gasto público seja prejudicial. Investimentos em infraestrutura, educação, tecnologia e logística podem ampliar a capacidade produtiva do país. A questão está em distinguir o gasto que sustenta o funcionamento presente daquele que constrói capacidade futura.
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O problema está apenas no Estado?
– A visão favorável às reformas fiscais
Os defensores de um ajuste mais profundo argumentam que o Brasil não poderá crescer de forma sustentável enquanto as despesas obrigatórias avançarem automaticamente e a dívida pública permanecer em trajetória ascendente.
Sob essa perspectiva, seriam necessárias revisões nas regras previdenciárias, nos benefícios tributários, nas carreiras públicas, nos subsídios e nos mecanismos de indexação. O objetivo seria abrir espaço para investimentos, reduzir a percepção de risco e criar condições para juros estruturalmente menores.
Essa visão também sustenta que o excesso de proteção a determinados setores empresariais reduz a concorrência, desestimula a inovação e perpetua atividades pouco produtivas.
– As limitações dessa interpretação
Por outro lado, atribuir o baixo crescimento apenas ao gasto público seria uma simplificação.
As vinculações orçamentárias também protegem políticas de saúde, educação e assistência social de cortes discricionários. Além disso, experiências internacionais mostram que ajustes fiscais mal planejados podem reduzir investimentos, enfraquecer serviços públicos e aprofundar desigualdades sem resolver os problemas estruturais.
O Brasil também enfrenta desafios que não desapareceriam com o equilíbrio fiscal: deficiências educacionais, desigualdade regional, baixa integração comercial, infraestrutura insuficiente, insegurança jurídica e dificuldade de transformar conhecimento científico em inovação produtiva.
O equilíbrio das contas públicas é uma condição importante. Não é, sozinho, um projeto de desenvolvimento.
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O verdadeiro encantamento é institucional
A metáfora da Bela Adormecida não significa que o Brasil permaneça imóvel. Ao contrário. Poucos países emergentes acumularam tantos êxitos em áreas estratégicas nas últimas décadas.
O país tornou-se uma potência do agronegócio tropical, desenvolveu uma das mais avançadas tecnologias de exploração de petróleo em águas ultraprofundas, consolidou uma indústria aeronáutica reconhecida internacionalmente, construiu uma matriz energética relativamente limpa, modernizou seu sistema financeiro por meio de soluções digitais que hoje servem de referência internacional e preservou uma base industrial capaz de competir em segmentos de elevada complexidade tecnológica.
Também realizou importantes reformas estruturais. O Plano Real estabilizou a moeda, a Lei de Responsabilidade Fiscal introduziu maior disciplina às contas públicas, reformas previdenciárias reduziram parte das pressões futuras sobre o orçamento e a recente reforma tributária busca corrigir distorções históricas do sistema de impostos sobre o consumo.
Esses avanços demonstram que o Brasil possui capacidade técnica, recursos humanos qualificados e instituições capazes de produzir mudanças relevantes.
O problema nunca foi a incapacidade de iniciar transformações.
O verdadeiro problema está na dificuldade de transformá-las em políticas de Estado.
No Brasil, muitos projetos nasceram como promessas de transformação nacional, mas terminaram subordinados às conveniências da permanência no poder. Mesmo governos que permaneceram por longos períodos e acumularam capital político suficiente para promover mudanças estruturais frequentemente priorizaram a expansão da máquina estatal, a construção de bases de sustentação política e a administração das demandas imediatas.
Estratégias nacionais de longo prazo cederam espaço à lógica da manutenção do governo. Em vez de utilizar a estabilidade política para consolidar políticas de Estado capazes de atravessar gerações, consolidou-se uma cultura em que o planejamento estratégico foi substituído pela gestão do presente, deixando reformas incompletas e oportunidades sucessivamente adiadas.
Poucos países convivem com tamanha descontinuidade administrativa.
Grandes projetos nacionais deixam de ser conduzidos como objetivos permanentes do Estado para se tornarem símbolos temporários de governos. O planejamento estratégico acaba subordinado ao calendário eleitoral. Programas plurianuais tornam-se quadrienais. Obras são interrompidas, retomadas e novamente paralisadas. Mudam nomes, slogans, ministérios e prioridades, enquanto objetivos de longo prazo são continuamente redefinidos.
Na prática, o Brasil frequentemente recomeça antes de terminar.
Essa cultura produz um custo silencioso, mas extremamente elevado.
Infraestruturas permanecem incompletas durante décadas. Projetos científicos perdem continuidade. Políticas industriais são abandonadas antes de consolidarem cadeias produtivas. Planos de Defesa sofrem sucessivos atrasos orçamentários.
Programas educacionais mudam conforme a orientação do governo seguinte. Investidores convivem com elevado grau de incerteza regulatória. Empresas reduzem horizontes de planejamento porque desconhecem quais regras permanecerão vigentes nos anos seguintes.
O resultado é uma economia que desperdiça parte significativa de seu potencial simplesmente porque não consegue manter direção constante.
As grandes potências raramente se desenvolvem por decisões isoladas de um único governante. Elas constroem consensos nacionais que sobrevivem às alternâncias políticas. Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Alemanha e, mais recentemente, a China seguiram estratégias de desenvolvimento que atravessaram diferentes administrações, preservando objetivos centrais mesmo quando mudavam os líderes.
No Brasil, frequentemente ocorre o oposto.
O príncipe parece mais preocupado em construir um novo castelo do que em concluir aquele que encontrou. Obras inacabadas, programas substituídos, prioridades reinventadas e reformas incompletas tornaram-se parte da paisagem institucional brasileira.
O verdadeiro encantamento, portanto, não é econômico. É institucional.
O país conhece seus problemas. Seus diagnósticos são produzidos por universidades, centros de pesquisa, órgãos de controle, entidades empresariais e organismos internacionais há décadas. Os gargalos são conhecidos: produtividade, infraestrutura, educação, inovação, burocracia, segurança jurídica, planejamento de longo prazo e equilíbrio fiscal.
O que permanece ausente é a capacidade política de transformar esses diagnósticos em um projeto nacional contínuo, capaz de sobreviver às disputas eleitorais.
Talvez seja esse o feitiço mais poderoso da Bela Adormecida brasileira.
Não a falta de recursos. Não a ausência de talento. Nem mesmo a escassez de oportunidades.
Mas a incapacidade de manter a mesma direção durante tempo suficiente para que as sementes plantadas por uma geração possam ser colhidas pela seguinte.
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O Brasil não precisa ser despertado, mas assumir o próprio despertar
O complexo de Bela Adormecida ajuda a compreender uma característica recorrente do debate nacional: a esperança de que alguma oportunidade excepcional permita ao país evitar escolhas difíceis.
Mas não haverá commodity, reserva de petróleo, tecnologia ou rearranjo geopolítico capaz de substituir reformas consistentes, investimento produtivo e continuidade institucional.
O Brasil não está simplesmente dormindo. Ele desperta periodicamente, demonstra sua força, avança alguns passos e depois é contido pelos mesmos obstáculos que já conhecia.
Talvez, portanto, a pergunta não seja quando o gigante acordará.
A pergunta é se o país conseguirá permanecer acordado tempo suficiente para transformar potencial em estratégia, crescimento em desenvolvimento e oportunidades temporárias em poder nacional duradouro.
O Brasil não precisa esperar por um príncipe encantado.
Precisa romper, por decisão própria, o ciclo histórico que o mantém esperando pelo futuro.
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Nota do autor:
Na verdade, muitas vezes. A expressão “o gigante acordou” ou “o Brasil finalmente vai decolar” é recorrente desde o século XIX. Em diferentes momentos, fatores econômicos, políticos ou tecnológicos alimentaram a expectativa de que o país estava prestes a se tornar uma potência. Em retrospecto, cada ciclo trouxe avanços reais, mas também frustrações.
Uma cronologia resumida mostra isso:
| Período | Por que diziam que o Brasil iria “acordar”? | O que aconteceu? |
|---|---|---|
| Final do Império (1870–1889) | Café, expansão ferroviária e imigração europeia. | Houve modernização, mas a economia permaneceu dependente das exportações agrícolas. |
| Era Vargas (1930–1945) | Industrialização e criação da base da indústria nacional. | O país deu um salto industrial, mas manteve baixa produtividade. |
| Governo JK (1956–1961) | “50 anos em 5”, Brasília, indústria automobilística. | Forte crescimento, acompanhado de aumento da dívida e inflação. |
| Milagre Econômico (1968–1973) | Crescimento superior a 10% ao ano. | O choque do petróleo e o endividamento encerraram o ciclo. |
| Anos 1990 (Plano Real) | Estabilidade monetária e abertura econômica. | A inflação foi controlada, mas o crescimento permaneceu modesto. |
| Boom das commodities (2003–2011) | China, minério, petróleo, agronegócio e grau de investimento. | O Brasil chegou a ser a 6ª maior economia do mundo, mas perdeu dinamismo após 2011. |
| Pré-sal (2007 em diante) | Descoberta de grandes reservas de petróleo. | A produção cresceu significativamente, porém não transformou a economia como alguns previam. |
| Reformas recentes (2016–2026) | Reforma trabalhista, Previdência, marco do saneamento, reforma tributária e novo ciclo de investimentos. | Houve avanços institucionais, mas persistem desafios fiscais e de produtividade. |





















