Ucrânia projeta um exército de robôs para reduzir a exposição de soldados no front

Projeto anunciado por Mykhailo Fedorov aposta em sistemas terrestres para reduzir a exposição de militares, mas a distância entre missões robotizadas e infantaria humanoide ainda impõe limites técnicos, operacionais e éticos.

Por Ricardo Fan – DefesaNet

(RDN) O anúncio de uma Army of Robots por Mykhailo Fedorov, em 26 de setembro, coloca uma questão central para o futuro da guerra terrestre: quantas tarefas hoje executadas por soldados podem ser transferidas a máquinas sem comprometer a eficácia das operações?

Ex-ministro da Defesa da Ucrânia, Fedorov propõe reunir empresas, engenheiros e militares para desenvolver, testar e ampliar o emprego de sistemas robóticos no front. Sua visão inclui desde o transporte de munição e a evacuação de feridos até o reconhecimento, a defesa de posições e o ataque a alvos. Trata-se de uma iniciativa anunciada, cujos resultados ainda dependerão de desenvolvimento e validação em combate. english.nv.ua

A proposta surge em uma guerra na qual deslocar pessoas por alguns quilômetros pode ser tão arriscado quanto ocupar uma posição avançada. A presença de drones de reconhecimento e ataque expõe rotas de suprimento, veículos e equipes de resgate.

Nesse ambiente, a primeira contribuição dos robôs terrestres pode ser menos vistosa que uma ofensiva automatizada, mas militarmente decisiva: manter a logística sob ameaça constante e reduzir a necessidade de enviar soldados às zonas de maior risco.

Da experimentação à rotina operacional

A robotização terrestre ucraniana não começa com o projeto de Fedorov. Em fevereiro de 2025, o Ministério da Defesa anunciou a formação de unidades especializadas em sistemas terrestres não tripulados dentro das brigadas, após testes iniciados no ano anterior.

O plano já contemplava logística, apoio de engenharia, evacuação e plataformas capazes de executar ataques. A exigência doutrinária era clara: adquirir veículos seria insuficiente sem operadores treinados, comunicações adequadas e integração com as demais unidades. MoD News

Os dados divulgados pelo ministério indicam expansão do emprego. Foram registradas mais de 9 mil missões de veículos terrestres não tripulados em março de 2026, ante mais de 2,9 mil em novembro de 2025. Naquele mês, 167 unidades utilizavam essas plataformas.

O órgão aponta a entrega de munição, o apoio logístico e a evacuação de feridos entre as principais aplicações. São números oficiais ucranianos, úteis para medir a adoção declarada da tecnologia, embora não constituam, por si, uma avaliação independente da eficácia de cada missão. mod.gov.ua

A incorporação também alcançou as compras militares. Desde fevereiro, unidades podem selecionar e encomendar sistemas terrestres por meio da plataforma DOT-Chain Defence, dentro de seus orçamentos. Esse mecanismo importa porque transforma necessidades identificadas pelas brigadas em demanda para fabricantes. O desafio seguinte é garantir que os equipamentos entregues possam ser mantidos, reparados e adaptados com a mesma rapidez com que as condições do front mudam. MoD News

the machine age of war
A era das máquinas na guerra (tradução literal) – Mykhailo Fedorov apresenta na IT Arena 2026 sua visão para a robotização da guerra. A cena exibida no telão é uma ilustração conceitual; o desafio atual é ampliar o uso de sistemas não tripulados em missões reais de logística, evacuação e combate.

A disputa está na integração, não na forma do robô

Fedorov sustenta que o próximo salto tecnológico deve ser a robotização da guerra e apresenta a Army of Robots como um ecossistema de investimentos, pesquisa, testes e produção.

A ambição é compreensível diante da velocidade com que soluções de drones são copiadas e contestadas. Para conservar uma vantagem, a Ucrânia precisa converter experimentos bem-sucedidos em capacidades disponíveis para muitas unidades, sob condições diferentes de terreno e ameaça. english.nv.ua

Nesse processo, a forma humanoide não é necessariamente a característica mais importante. Uma plataforma sobre rodas ou esteiras pode ser mais adequada para carregar suprimentos, transportar um ferido ou operar durante longos períodos, conforme o terreno e a missão.

A utilidade militar depende da carga transportada, da autonomia de deslocamento, da resistência, das comunicações e da possibilidade de recuperar o equipamento quando algo falha. Um robô que conclui uma demonstração controlada ainda precisa provar que funciona repetidamente sob fogo, interferência e desgaste.

A tendência estratégica é a combinação de sensores, drones aéreos, veículos terrestres e sistemas de comando em uma mesma operação. Um sensor pode identificar uma rota ameaçada; uma plataforma terrestre pode então levar material ou retirar um ferido sem expor uma equipe de transporte.

Essa sequência exige coordenação humana e informação confiável. Seu valor está em preservar pessoal e sustentar a capacidade de combate das unidades, não apenas em substituir um soldado por uma máquina.

Representação conceitual de robôs humanoides e veículos terrestres não tripulados em uma zona de combate. A imagem ilustra a visão de Fedorov para a guerra robotizada; não documenta uma operação real das forças ucranianas.

Proteção da tropa e limites da autonomia

O argumento favorável à expansão dos robôs é sólido: se uma máquina pode executar uma entrega ou uma evacuação em uma área observada pelo inimigo, a unidade deixa de assumir parte do risco humano daquela tarefa.

O crescimento das missões terrestres divulgado pela Ucrânia sugere que essa aplicação já passou da fase de demonstrações isoladas. Ela também pode liberar militares para atividades que ainda exigem presença, julgamento e adaptação direta ao terreno. mod.gov.ua

O contraponto está na distância entre essa capacidade e a ideia de uma infantaria substituída por humanoides. Robôs terrestres precisam atravessar obstáculos, manter comunicação com operadores, receber energia e reparos e sobreviver a ataques. Muitas plataformas atuais dependem de controle remoto.

Assim, retirar o operador da zona de perigo não elimina a necessidade de pessoas, infraestrutura e decisões humanas para que a missão aconteça. Os cenários apresentados por Fedorov devem ser tratados como objetivos de desenvolvimento, e não como capacidades já estabelecidas no campo de batalha. english.nv.ua

Há ainda uma distinção jurídica essencial. Um veículo não tripulado comandado por uma pessoa não equivale a uma arma que seleciona e ataca alvos sem nova intervenção humana. Para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o aumento dessa autonomia na aplicação da força traz dificuldades para prever efeitos, cumprir o direito internacional humanitário e preservar o julgamento humano sobre decisões de vida ou morte.

Quanto mais os robôs avançarem de tarefas logísticas para funções de ataque, mais relevante será definir com precisão quem autoriza o uso da força e responde por seus efeitos. International Committee of the Red Cross

O efeito estratégico de médio prazo

A Ucrânia procura reduzir a exposição de suas tropas e ampliar a capacidade de sustentá-las em uma frente vigiada continuamente. Se os sistemas terrestres se tornarem confiáveis e numerosos, o ganho mais imediato estará na continuidade logística: abastecer posições, retirar feridos e executar trabalhos perigosos mesmo quando o movimento de veículos tripulados for difícil. Isso pode alterar o tempo pelo qual uma unidade consegue permanecer e operar em determinada posição.

Para a indústria de defesa, o teste será produzir plataformas em quantidade sem perder a capacidade de modificá-las segundo a experiência das brigadas. Para outros países, inclusive os membros da OTAN que acompanham a guerra, a lição vai além da compra de robôs: envolve doutrina, treinamento, aquisição ágil, comunicações e integração entre sistemas tripulados e não tripulados.

A Ucrânia já estruturou uma força dedicada ao emprego de meios não tripulados aéreos, terrestres e marítimos, sinal de que a mudança também é organizacional. MoD News

A Army of Robots dá força política e industrial a essa direção, mas seu êxito não será medido pela imagem de humanoides em uma trincheira. O indicador decisivo será a capacidade de repetir missões úteis, sob condições reais de combate, com perdas e custos sustentáveis.

No horizonte próximo, a robotização tende a retirar soldados de tarefas específicas e perigosas; a substituição ampla da presença humana na linha de frente permanece uma hipótese muito mais exigente. O futuro do campo de batalha dependerá menos da aparência das máquinas do que da confiança operacional que elas forem capazes de conquistar.

…

Compartilhar:

Leia também

Inscreva-se na nossa newsletter