COBERTURA ESPECIAL - Brasil - Rússia - Terrestre

15 de Janeiro, 2014 - 11:43 ( Brasília )

Defesa Antiaérea - Uma decisão realista

Os requerimentos militares precisam ser realistas.

Nota DefesaNet

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O editor


Defesa Antiaérea - Uma decisão realista
 

Pedro Riopardense



Os requerimentos militares precisam ser realistas. De nada adianta estabelecer metas que não serão cumpridas facilmente em situação de crise. O primeiro ponto é avaliar quais são os principais riscos à defesa do país. O segundo envolve a melhor maneira de enfrentá-los. Para um país com problemas orçamentários a flexibilidade é outro ponto importante. Os sistemas necessitam cumprir várias funções adequadamente e serem capazes de autoproteção. O caso dos requerimentos para o fornecimento de três baterias de mísseis antiaéreos de médio alcance para as Forças Armadas brasileiras é emblemático.

Originalmente, previa-se um raio de ação maior para os mísseis, 30 km, e a possibilidade de transporte por avião KC-390 ou C-130 Hercules. Os requesitos de mobilidade terrestre foram minimizados no documento inicial, fato destacado por revista de grande circulação nacional (Acesse a matéria de VEJA - Um Tiro no Bolso Link). No papel, uma decisão acertada, mas que seria de difícil implantação num ambiente de conflito e dificilmente justificável no quadro latino-americano.
 
Estudo de ameaças

O subcontinente passa por acelerado processo de integração por meio da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e caminha para a implantação de uma Zona de Cooperação de Paz. Nesse âmbito, as hipóteses de conflito entre os países que compõem o bloco tornam-se cada vez mais remotas. Os riscos à segurança brasileira resumir-se-iam, dessa forma, a eventuais incursões de grupos guerrilheiros e ao combate ao narcotráfico.

A justificativa para uma força antiaérea completamente aeromóvel embasava-se na necessidade de deslocar, rapidamente, meios para as fronteiras. Atentemos para o fato de que grupos irregulares ou organizações criminosas, por melhor organizados que sejam, não possuem meios de ataque aéreo. O mesmo pode ser dito sobre as missões de manutenção de paz do qual o Brasil participa.

É preciso ressaltar que armas antiaéreas de tubo ou de míssil são de grande porte e de difícil movimentação. Uma bateria de SAMP/T, que emprega mísseis ASTER 15 e 30, é formada por quinze veículos de grande porte e quatro eixos, o que implicaria no uso de oito KC-390 para deslocamentos aéreos. Mesmo os sistemas mais leves, como o SPYDER SR israelense, que tem apenas 15 km de alcance e não é empregado em seu país de origem, exigiriam quatro aviões com capacidade de carga na classe de 26 toneladas para movimentar os equipamentos de detecção, tiro e munição. Ou seja, entre 30% e 15% da frota prevista de KC-390 estaria comprometida com o deslocamento de equipamentos que não teriam qualquer uso imediato nas hipóteses mais prováveis de conflito no subcontinente sul-americano. Se a versão do modelo israelense adotada fosse a MR, com 30 km de alcance, que emprega um lançador de quatro eixos, o total de aviões subiria para seis.

A doutrina da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estabelece os meios que os meios antiaéreos raramente são transportados por aviões. Nessas hipóteses específicas empregam-se aviões pesados militares e civis, como o C-5 Galaxy, o C-17, o Antonov An-124 e o Ilyushin 76.
 
Mobilidade é sobrevivência

A necessidade de uma força antiaérea completamente móvel em qualquer terreno e capaz de disparar em movimento foi uma das principais lições da Guerra de Kosovo. A Iugoslávia conseguiu preservar quase íntegro seu potencial militar terrestre, apesar da avassaladora superioridade das nações da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O regime de Slobodan Milosevic só cedeu depois que a coalizão passou a atacar a infraestrutura civil do país. Obviamente, esses pontos nem sequer foram tocados na matéria publicada em meio de grande circulação nacional.

Todos os modelos citados no texto, com exceção do PANTSIR S-1 russo, disparam de posições fixas e dependem da instalação de radares de detecção e centrais de controle remoto, um processo que demora entre 15 e 40 minutos. É um modelo adequado ao teatro europeu, que prevê o uso de posições preparadas com antecedência, equipadas com suprimentos e munições. Uma das propostas feitas ao Brasil, o BAMSE, da SAAB, emprega unidades de tiro sobre reboques, com difícil movimentação fora de estradas.

Os sistemas propostos pela Federação Russa ao Brasil possuem características únicas. Além da possibilidade de operar a partir de posições fixas, com grande capacidade de detecção e de engajamento, as unidades de tiro, quatro a seis por bateria, podem engajar, enquanto se encontram em deslocamento, até 60 alvos e disparar, com mísseis e canhões de 30 mm, sobre quatro deles. O sistema de guiagem é imune a contramedidas. Boa parte dos produtos ocidentais emprega mísseis concebidos para a arena ar-ar, que podem sofrer interferência de flares ou de contramedidas eletrônicas. Em função dessa deficiência, o SPYDER SR foi empregado sem sucesso pelas forças da Geórgia contra a aviação russa na Guerra da Ossétia.

O total de munições por unidade lançadora também é superior às alternativas disponíveis no mercado. Cada uma carrega 12 mísseis. A guisa de comparação, o BAMSE, fabricado pela SAAB, dispõe de seis mísseis por reboque, O SAMP/T de oito e o SPYDER de quatro (SR) a oito (MR). Nenhum deles tem capacidade de autoproteção por canhões.
 
Integração ao SISDABRA

Outro ponto refere-se à integração dos sistemas ao Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (SISDABRA). Qualquer que fosse a escolha, seria necessária sua adaptação às necessidades nacionais. A Força Aérea Brasileira emprega um sistema de datalink proprietário, o Link Br2, diferenciado do padrão OTAN e russo. Recentemente, a Turquia, membro da Aliança Atlântica, optou pela aquisição de mísseis de defesa de área chineses do modelo HQ-9 em detrimento dos Patriot PAC2 norte-americanos e dos SAMP/T europeus, mesmo sabendo que terá de integrá-los à defesa aérea do bloco, que emprega o Link 16. O ponto principal para a decisão foi a possibilidade de construir todos os componentes em indústrias turcas, gerando empregos no país, exatamente o que a Rússia propôs ao Brasil.

No texto, além disso, há forte manipulação de dados, comparando preços de vendas de sistemas com transferência de tecnologia com aquisições de prateleira, sem qualquer perspectiva de fabricação no país. O total de US$ 1 bilhão previsto para o programa inclui a instalação de uma fábrica de IGLA-S e de PANTSIR S-1 no Brasil com capacitação de pessoal para desenvolvimento e manufatura. O programa é o primeiro passo na cooperação brasileiro-russa que prevê o desenvolvimento de sistemas específicos para a realidade sul-americana. O projeto PARANA de defesa de área será criado por técnicos dos dois países com participação das forças armadas brasileiras.

 

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