A nova proposta da Saab para o Gripen F reposiciona o conceito do caça biposto no século XXI ao integrar guerra em rede, inteligência artificial, comando de sistemas não tripulados e arquitetura aberta em uma única plataforma operacional.
Por Ricardo Fan – DefesaNet
A apresentação oficial do Gripen F pela Saab vai muito além do lançamento de uma variante biposto do Gripen E. O material divulgado pela empresa sueca representa, na prática, uma formulação doutrinária sobre como a indústria de defesa europeia interpreta o futuro do combate aéreo.
Em vez de concentrar a narrativa em velocidade, manobrabilidade ou desempenho cinemático — elementos tradicionalmente associados à propaganda aeronáutica militar — o documento enfatiza integração digital, guerra em rede, inteligência artificial, operação colaborativa com sistemas não tripulados e superioridade cognitiva no ambiente de combate.
A mudança de abordagem não é trivial. Ela revela uma transformação mais ampla do próprio conceito de superioridade aérea. Em um cenário marcado pela proliferação de sensores, guerra eletrônica avançada, saturação informacional e crescente emprego de drones autônomos, o Gripen F surge como uma tentativa de converter o caça biposto em um centro avançado de comando tático e gerenciamento de batalha.
O aspecto mais forte da proposta sueca não está necessariamente no desempenho aerodinâmico da aeronave, mas na capacidade de integrar informações, distribuir carga cognitiva e acelerar o ciclo de tomada de decisão em ambientes operacionais complexos.
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O Gripen F como plataforma de guerra em rede
O núcleo conceitual do Gripen F está na transformação da aeronave em um nó avançado de guerra em rede. A Saab procura posicionar o caça não apenas como um vetor de combate tradicional, mas como uma plataforma capaz de coordenar múltiplos ativos simultaneamente em um ambiente operacional altamente conectado.
A lógica apresentada aproxima o Gripen F de conceitos atualmente discutidos em programas estratégicos norte-americanos e europeus, como o NGAD dos Estados Unidos, o FCAS franco-germano-espanhol e as iniciativas de Collaborative Combat Aircraft voltadas para operações tripuladas e não tripuladas integradas.
Nesse contexto, o operador do assento traseiro deixa de exercer exclusivamente funções de instrução ou apoio tático e passa a atuar como gestor do campo de batalha.
A proposta envolve controle de enxames de drones, coordenação de guerra eletrônica, gerenciamento de sensores distribuídos, processamento de inteligência em tempo real e integração de dados provenientes de múltiplos domínios operacionais. A aeronave passa a funcionar como uma espécie de “quarterback aéreo”, responsável por organizar o fluxo de combate em ambientes de elevada complexidade.
Esse conceito revela uma percepção estratégica importante: o desafio contemporâneo talvez não esteja apenas em produzir plataformas mais rápidas ou furtivas, mas em garantir superioridade decisória em cenários saturados por informações, interferências eletrônicas e ameaças simultâneas.
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A superioridade cognitiva como fator de combate
Um dos aspectos mais sofisticados da proposta da Saab é a compreensão de que o combate moderno produz um problema crescente de saturação cognitiva. Sensores mais avançados, sistemas de fusão de dados, inteligência artificial, operações multidomínio e proliferação de ameaças aumentam exponencialmente a carga de trabalho dos pilotos.
O Gripen F tenta responder a esse problema por meio da divisão operacional de funções entre os dois tripulantes. Enquanto o piloto dianteiro concentra-se na execução tática imediata e no combate direto, o operador traseiro administra o quadro estratégico ampliado, coordena ativos externos e mantém consciência situacional em um ambiente potencialmente degradado por guerra eletrônica.
A Saab associa esse modelo ao conceito do ciclo OODA — observar, orientar, decidir e agir — formulado pelo estrategista militar John Boyd. A intenção é acelerar o processo decisório e reduzir o tempo de resposta diante de ameaças múltiplas e dinâmicas.
Essa abordagem reflete uma tendência crescente na doutrina militar contemporânea: a valorização da integração homem-máquina em detrimento da substituição completa do operador humano. A inteligência artificial aparece como elemento de ampliação da capacidade humana, não como substituição integral da tomada de decisão.

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Arquitetura aberta e adaptabilidade operacional
Outro eixo central da proposta do Gripen F é a arquitetura aberta. A Saab enfatiza repetidamente a capacidade de rápida integração de novos softwares, sensores, armamentos e algoritmos de inteligência artificial.
Essa característica possui implicações estratégicas relevantes. Em um ambiente tecnológico onde ciclos de obsolescência tornam-se cada vez mais curtos, sistemas excessivamente fechados podem perder competitividade operacional rapidamente. A adaptabilidade passa a ser tão importante quanto a capacidade originalmente instalada na plataforma.
A proposta sueca busca oferecer uma alternativa mais flexível em comparação a programas extremamente caros, complexos e politicamente restritivos. Países médios que não possuem acesso irrestrito a plataformas como o F-35 podem enxergar no Gripen F uma solução mais modular, atualizável e menos dependente de cadeias estratégicas rigidamente controladas.
Além disso, a arquitetura aberta facilita integração de armamentos nacionais, adaptação doutrinária própria e desenvolvimento local de capacidades complementares. Isso amplia a atratividade do programa para países que buscam maior soberania tecnológica.
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A dimensão industrial e o papel estratégico do Brasil
O programa Gripen F também possui forte dimensão geopolítica e industrial. O documento divulgado pela Saab enfatiza de forma significativa a participação brasileira no desenvolvimento da aeronave, destacando empresas como Embraer, AEL Sistemas e Akaer.
A narrativa procura consolidar a imagem do Brasil não apenas como cliente, mas como co-desenvolvedor de uma plataforma avançada de combate. Essa distinção possui enorme relevância estratégica. Ela fortalece a Base Industrial de Defesa brasileira, amplia capacidade tecnológica nacional e posiciona o país em segmentos mais sofisticados da cadeia global aeroespacial.
O programa também reforça uma lógica crescente de parcerias industriais distribuídas em grandes projetos militares internacionais. Em vez de simples aquisição de equipamentos, países buscam participação tecnológica, transferência de conhecimento e inserção produtiva em programas de longo prazo.
Para a Saab, o Brasil funciona simultaneamente como parceiro industrial, cliente lançador e vitrine internacional para expansão do Gripen F em mercados emergentes.

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Os limites da proposta sueca
Apesar da sofisticação conceitual apresentada pela Saab, existem limitações relevantes que relativizam parte da narrativa estratégica do Gripen F.
A primeira delas envolve a questão da furtividade. O Gripen F não pertence à categoria stealth no padrão de aeronaves como F-35, J-20 ou futuros programas NGAD. Em cenários de guerra de alta intensidade contra potências pares equipadas com sistemas modernos de defesa aérea integrada, essa limitação pode reduzir significativamente a capacidade de sobrevivência da plataforma.
Outro ponto crítico envolve a dependência estrutural de conectividade. Grande parte da proposta operacional do Gripen F depende de data links, satcom, sensores distribuídos e troca contínua de informações. Em ambientes severamente degradados por guerra eletrônica, spoofing ou destruição parcial da infraestrutura de comunicação, a eficiência do conceito pode ser comprometida.
Além disso, existe o desafio da maturidade operacional. Muitas das capacidades apresentadas ainda dependem de evolução doutrinária, integração de inteligência artificial confiável e desenvolvimento efetivo de sistemas não tripulados interoperáveis. A distância entre conceito operacional e capacidade plenamente consolidada permanece significativa.
Há também questionamentos sobre o custo-benefício real de operar aeronaves biposto em cenários futuros dominados por automação crescente. Parte da comunidade estratégica argumenta que avanços em IA poderão reduzir progressivamente a necessidade de segundo tripulante humano em missões complexas.
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O reposicionamento estratégico do caça biposto
Historicamente, aeronaves biposto foram associadas principalmente a treinamento avançado ou missões específicas de ataque e guerra eletrônica. O Gripen F tenta romper parcialmente com essa lógica ao reposicionar o segundo assento como elemento central de gerenciamento do campo de batalha.
Essa mudança doutrinária é importante porque redefine o papel operacional da configuração biposto no século XXI. Em vez de representar apenas redundância ou capacidade de instrução, o segundo tripulante passa a atuar como operador de sistemas, coordenador de sensores e gestor de operações multidomínio.
A Saab aposta que o crescimento da complexidade operacional tornará novamente relevante a presença de dois operadores humanos em determinadas missões de alta intensidade. Trata-se de uma interpretação estratégica distinta daquela adotada por parte da indústria norte-americana, que prioriza crescente automação associada a aeronaves monoposto furtivas.

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Implicações estratégicas para o mercado internacional
O Gripen F também revela mudanças importantes no mercado global de defesa. A aeronave busca ocupar um espaço intermediário entre caças extremamente sofisticados e caros, como o F-35, e plataformas mais tradicionais de quarta geração.
Essa posição pode ser particularmente atraente para países que:
- necessitam modernizar forças aéreas sem assumir custos massivos de aquisição e manutenção;
- buscam maior autonomia tecnológica;
- desejam integração industrial local;
- pretendem operar sistemas não tripulados no futuro;
- precisam equilibrar restrições orçamentárias com capacidades avançadas de combate.
Nesse sentido, o Gripen F representa não apenas uma aeronave, mas um modelo alternativo de modernização militar para países médios.
A proposta sueca também possui implicações geopolíticas relevantes ao oferecer uma alternativa ocidental menos centralizada politicamente do que programas fortemente controlados pelos Estados Unidos.
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Do R.I.O. do F-14 ao Gestor de Batalha do Gripen F: a evolução do segundo tripulante no combate aéreo

A proposta apresentada pela Saab para o Gripen F reacende um debate que acompanha a aviação de combate há décadas: qual é o verdadeiro valor operacional de uma aeronave biposto em um ambiente cada vez mais digitalizado e automatizado?
À primeira vista, a presença de um segundo tripulante pode parecer um conceito herdado da Guerra Fria. No entanto, uma análise mais aprofundada revela que a filosofia adotada para o Gripen F possui raízes diretas em uma das aeronaves mais emblemáticas da história da aviação naval: o F-14 Tomcat.
No Tomcat, o segundo ocupante da cabine era o Radar Intercept Officer (RIO), profissional responsável por operar o poderoso radar AWG-9, gerenciar interceptações de longo alcance, coordenar o emprego dos mísseis AIM-54 Phoenix e manter a consciência situacional da missão. Enquanto o piloto concentrava-se na condução da aeronave e no combate direto, o RIO atuava como um gerente tático do espaço aéreo, permitindo que a tripulação explorasse plenamente as capacidades do caça.
A lógica por trás dessa divisão de tarefas era simples: a crescente complexidade dos sistemas embarcados já havia ultrapassado a capacidade de um único operador gerenciar simultaneamente pilotagem, navegação, sensores, armamentos e tomada de decisão tática. A solução encontrada pela Marinha dos Estados Unidos foi distribuir a carga de trabalho entre dois especialistas.
Cinco décadas depois, a Saab parece ter chegado a uma conclusão semelhante, embora em um contexto operacional completamente diferente.
No Gripen F, o segundo tripulante não foi concebido para atuar apenas como operador de radar ou instrutor. Sua função aproxima-se do conceito de Mission Commander ou Battle Manager, responsável por administrar uma arquitetura de combate muito mais ampla do que aquela existente na época do F-14.
Além do gerenciamento dos sensores embarcados, esse operador deverá coordenar sistemas não tripulados, controlar enxames de drones, integrar informações provenientes de satélites e enlaces de dados, supervisionar operações de guerra eletrônica e processar, em tempo real, grandes volumes de informações produzidas por uma rede de combate distribuída.
A comparação evidencia uma mudança importante na natureza da guerra aérea. Se o RIO do F-14 era um especialista em interceptação aérea e combate além do alcance visual, o operador do Gripen F surge como um gestor multidomínio, capaz de integrar capacidades aéreas, eletrônicas, informacionais e não tripuladas em um único ambiente operacional.
Essa evolução reflete uma realidade cada vez mais evidente nas forças aéreas modernas. O principal desafio não está necessariamente na falta de sensores ou de capacidade de processamento, mas na capacidade humana de interpretar, priorizar e transformar dados em decisões eficazes dentro de um ciclo de combate cada vez mais acelerado.
Nesse contexto, o Gripen F pode ser interpretado como uma tentativa de responder a um problema que, de certa forma, também motivou a criação do F-14 décadas atrás: evitar que o piloto se torne o gargalo do sistema.
A diferença é que, enquanto o RIO do Tomcat administrava o radar mais avançado de sua época, o segundo tripulante do Gripen F foi concebido para administrar uma rede inteira de combate. Trata-se da evolução natural de um conceito que atravessou gerações de aeronaves e que volta a ganhar relevância à medida que inteligência artificial, drones e operações multidomínio redefinem o campo de batalha do século XXI.
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O desafio da massa de caça da FAB

Embora o programa F-39 Gripen represente o mais importante salto qualitativo da aviação de caça brasileira desde a introdução dos caças supersônicos, a questão quantitativa permanece um desafio estratégico relevante. O contrato original firmado entre Brasil e Saab prevê a aquisição de 36 aeronaves — 28 Gripen E monopostos e 8 Gripen F bipostos.
Sob a ótica operacional, esse número é considerado insuficiente para atender plenamente às necessidades de vigilância, defesa aérea e projeção de poder de um país com mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, aproximadamente 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres e uma extensa área marítima de interesse estratégico conhecida como Amazônia Azul.
Historicamente, a Aviação de Caça da FAB operou diversas unidades equipadas com Mirage III, Mirage 2000, F-5EM/FM e A-1 AMX distribuídas por diferentes regiões do país. A substituição integral dessas capacidades por apenas 36 aeronaves modernas implica elevada concentração de meios em poucos esquadrões.
Considerando os padrões de organização de forças aéreas ocidentais, um esquadrão de caça plenamente equipado normalmente opera entre 12 e 18 aeronaves. Dessa forma, os 36 Gripen atualmente contratados permitem equipar efetivamente apenas dois esquadrões de primeira linha, mantendo ainda aeronaves destinadas ao treinamento operacional, testes, reserva técnica e manutenção programada.
Não por acaso, a própria FAB já manifestou interesse em ampliar a frota nas próximas décadas. Autoridades suecas confirmaram recentemente o interesse brasileiro na aquisição de mais 20 aeronaves, enquanto análises especializadas apontam que uma força de aproximadamente 60 a 80 Gripen permitiria recompor de forma mais adequada a massa de combate necessária para um país das dimensões continentais do Brasil.
Sob essa perspectiva, o debate estratégico deixou de ser apenas sobre a qualidade do Gripen e passou a envolver a quantidade necessária para que suas capacidades possam produzir efeitos proporcionais à dimensão geográfica, econômica e política do Brasil.
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O futuro do combate aéreo

O Gripen F representa uma tentativa ambiciosa de reinterpretar o futuro do combate aéreo a partir de uma lógica centrada em informação, integração digital e superioridade decisória. O aspecto mais forte da proposta sueca não está exclusivamente na aeronave em si, mas na arquitetura operacional que ela pretende viabilizar.
Ao transformar o caça biposto em uma plataforma de gerenciamento tático, coordenação de sistemas autônomos e integração homem-máquina, a Saab procura antecipar um ambiente operacional no qual velocidade e furtividade continuarão importantes, mas talvez deixem de ser suficientes para garantir superioridade aérea isoladamente.
O sucesso dessa visão dependerá menos do discurso institucional e mais da capacidade concreta de transformar conceitos avançados em sistemas resilientes, interoperáveis e efetivamente sobreviventes em guerras de alta intensidade. Ainda assim, o Gripen F sinaliza uma tendência estratégica relevante: no campo de batalha do futuro, a vantagem decisória poderá valer tanto quanto a vantagem cinemática.
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