A estratégica base de Santa Maria, localizada no centro do Rio Grande do Sul, poderá ser profundamente afetada por decisões do Alto Comando da FAB.
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A retirada final dos caças A-1 AMX da Base Aérea de Santa Maria está abrindo um vazio operacional extremamente grave na capacidade de combate da Força Aérea Brasileira. O problema vai muito além da simples substituição de uma aeronave envelhecida. O que está em jogo é a própria manutenção da capacidade nacional de ataque ao solo, reconhecimento armado e apoio aéreo aproximado a partir do coração estratégico do Rio Grande do Sul.
Hoje, a realidade é dura: o Brasil praticamente perdeu sua capacidade dedicada de ataque tático de profundidade no sul do país.
Durante décadas, os A-1 cumpriram um papel essencial na doutrina operacional da FAB. Eram aeronaves voltadas para missões de interdição, destruição de alvos estratégicos, apoio às forças terrestres e reconhecimento armado. Sua presença em Santa Maria garantia capacidade de pronta resposta em uma região historicamente sensível do ponto de vista geopolítico e militar.
A Base Aérea de Santa Maria (BASM) não é uma unidade qualquer. Ela ocupa posição central no teatro operacional do sul do Brasil, funcionando como ponta de lança de qualquer operação de defesa territorial, dissuasão regional ou ataque de profundidade. Em caso de crise, é dali que deveriam partir aeronaves para neutralizar ameaças, apoiar tropas terrestres e garantir superioridade operacional no Cone Sul.
Sem uma aviação de caça operacional, Santa Maria perde sua razão estratégica.
A situação se torna ainda mais preocupante diante da incapacidade da FAB em encontrar uma solução prática e rápida para substituir os A-1. Diversas gestões do Estado-Maior da Aeronáutica e do Comando de Preparo (COMPREP) produziram estudos, análises, avaliações e cenários. Entretanto, anos se passaram sem que qualquer solução definitiva fosse implementada.
Enquanto isso, a capacidade operacional desapareceu.
A tentativa de obtenção de caças F-16 usados não avançou. Da mesma forma, não houve êxito na possibilidade de aquisição de Gripen C/D como solução intermediária até a plena chegada dos F-39E Gripen. O resultado é um vácuo operacional perigoso e crescente.
O Brasil assiste passivamente ao fechamento gradual de uma das mais importantes capacidades táticas da FAB.
O problema não é apenas militar. Há também um enorme impacto econômico e institucional. Uma base aérea sem missão operacional relevante torna-se difícil de justificar orçamentariamente. Sem esquadrões de combate ativos, Santa Maria inevitavelmente entrará em um processo de esvaziamento progressivo. Estruturas serão reduzidas, efetivos diminuídos e investimentos interrompidos.
Na prática, sem novos aviões de combate, a Base Aérea de Santa Maria caminha para a inviabilidade econômica e operacional.
Isso representaria um erro estratégico histórico.
O mundo atual demonstra diariamente que a guerra convencional voltou a ser realidade. O conflito na Ucrânia mostrou a importância da aviação tática, do ataque de precisão, da integração entre drones e caças tripulados e da capacidade de operar em profundidade contra alvos militares estratégicos.
Nenhuma força aérea moderna pode abrir mão da capacidade de ataque ao solo.
Mesmo em cenários de baixa intensidade, aeronaves de combate são fundamentais para dissuasão, controle territorial, demonstração de força e resposta rápida. No caso brasileiro, a ausência dessa capacidade no sul do país cria uma lacuna operacional incompatível com as dimensões e responsabilidades estratégicas do Brasil.
A FAB precisa abandonar o ciclo interminável de estudos e tomar uma decisão objetiva.
Se o Gripen E ainda demandará anos para atingir plena disponibilidade em números suficientes, então torna-se indispensável buscar uma solução intermediária. Seja por meio de F-16 adicionais, Gripen C/D, FA-50, M-346FA ou qualquer outra plataforma disponível no mercado internacional, o essencial é restaurar rapidamente a capacidade de combate de Santa Maria.
Não existe mais tempo para indefinições.
A preservação da Base Aérea de Santa Maria exige uma nova aviação de caça. Exige vontade política, prioridade estratégica e visão de futuro. Caso contrário, o Brasil aceitará voluntariamente perder uma de suas mais importantes capacidades de poder aéreo no sul do continente.
E recuperar capacidades militares perdidas costuma ser muito mais caro — e muito mais lento — do que preservá-las.
Nota – O Aeroporto Regional Brigadeiro Cherubim Rosa Filho ( Código IATA – RIA), em Santa Maria (RS), tem uma companhia que compartilha as instalações é a Azul Linhas Aéreas.
A companhia atua no terminal com voos regionais diretos para o Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre (POA), operando com uma frequência reduzida (cerca de três vezes por semana) utilizando aeronaves turboélice do tipo ATR-72. As rotas diretas para o estado de São Paulo (Campinas) foram suspensas pela companhia. sob o argumento da necessidade de melhorias na pista para os jatos E2 da Embraer






















