EURODRONE apresentado no Paris Air Show 2025
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A decisão da Força Aérea Brasileira (FAB) de iniciar uma Request for Information (RFI) para um Sistema de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP) com potencial de desenvolvimento por uma empresa 100% nacional merece uma reflexão profunda. O objetivo de fortalecer a Base Industrial de Defesa é legítimo, necessário e estratégico. O questionamento não está no propósito, mas na estratégia escolhida para alcançá-lo.
A experiência internacional demonstra que, no atual ritmo de evolução tecnológica dos drones militares, programas de desenvolvimento que consomem uma década e exigem investimentos de dezenas ou centenas de milhões de dólares correm um sério risco de entregar uma plataforma tecnologicamente defasada antes mesmo de sua entrada em serviço.
O exemplo mais emblemático é o Eurodrone, programa europeu destinado ao desenvolvimento de uma aeronave MALE (Medium Altitude Long Endurance) para França, Alemanha, Itália e Espanha. Trata-se de quatro dos países mais desenvolvidos da OTAN, com orçamentos de defesa e capacidade tecnológica muito superiores aos do Brasil. Ainda assim, o programa já enfrenta questionamentos sobre sua relevância operacional antes mesmo de sua entrada em serviço.
Recentemente, durante audiência no Senado francês, o presidente da Dassault Aviation, Éric Trappier, fez críticas contundentes ao projeto. Segundo ele, o Eurodrone poderá não ser mais operacionalmente relevante em um cenário onde não exista superioridade aérea, tornando-se “um alvo relativamente fácil”. Trappier também revelou que a relação industrial entre a Dassault e a Airbus Defence and Space deteriorou-se a ponto de afirmar que “as pontes foram queimadas”.
Não se trata de uma crítica qualquer. Trata-se do principal executivo de uma das maiores fabricantes de aeronaves de combate do mundo questionando a viabilidade operacional de um programa bilionário antes mesmo de sua entrada em operação.
Detalhes Principais do Programa EURODRONE
- Participantes: Alemanha (país líder), França, Itália e Espanha. Índia e Japão também participam como observadores.
- Indústria Principal: A Airbus Defence and Space (Alemanha) lidera o desenvolvimento, com a Leonardo (Itália) e a Airbus (Espanha) como parceiras.
- Propulsão: O drone é equipado com dois motores turboélice General Electric Catalyst.
- Desempenho: Suporta cargas úteis de até 2,3 toneladas e seu primeiro voo está previsto para os próximos anos, visando a total soberania e integração de dados de defesa europeus.
O mundo mudou
A guerra na Ucrânia demonstrou que a evolução dos drones militares ocorre em uma velocidade inédita.
Drones FPV (First Personal View), munições vagantes e aeronaves táticas de pequeno porte passaram a evoluir praticamente a cada poucos meses, incorporando novos sensores, inteligência artificial, enlaces de dados mais seguros, navegação autônoma e soluções para operar mesmo sob intensa guerra eletrônica.
O ciclo tecnológico deixou de ser medido em décadas.
Hoje, ele é medido em meses.
O risco brasileiro
É justamente nesse ponto que surge a preocupação em relação ao programa RQ-XBR.
Caso a FAB opte por iniciar um longo processo de pesquisa, desenvolvimento, certificação e industrialização de uma plataforma inédita, o cronograma poderá facilmente consumir oito, dez ou até doze anos.
Quando essa aeronave finalmente entrar em operação, provavelmente refletirá requisitos definidos ainda em 2026.
Num segmento em que conceitos operacionais e tecnologias mudam continuamente, esse intervalo representa um enorme risco.
Além disso, o investimento dificilmente será modesto. Programas dessa natureza normalmente exigem dezenas ou centenas de milhões de dólares em desenvolvimento, prototipagem, certificação, integração de sensores, sistemas de missão e produção inicial.
Ao final desse ciclo, nada garante que a plataforma será competitiva diante das soluções existentes no mercado internacional.
Desenvolver, mas com inteligência
Isso não significa abandonar o desenvolvimento nacional.
Muito pelo contrário.
O Brasil precisa ampliar sua capacidade tecnológica, fortalecer sua indústria e dominar tecnologias críticas.
Entretanto, talvez o caminho mais eficiente seja outro.
Em vez de iniciar um projeto completamente novo, a FAB poderia selecionar uma plataforma estrangeira já comprovada operacionalmente e negociar uma ampla transferência de tecnologia, permitindo sua produção no Brasil e a nacionalização progressiva de sistemas, sensores, armamentos, enlaces de dados e softwares.
Essa estratégia reduziria significativamente os riscos técnicos e financeiros, aceleraria a entrada em serviço e permitiria que a indústria brasileira concentrasse seus esforços naquilo que realmente agrega valor: evolução contínua da plataforma, integração de tecnologias nacionais, inteligência artificial, guerra eletrônica e novos armamentos.
Foi exatamente essa lógica que diversos países utilizaram para construir capacidades industriais competitivas sem precisar reinventar toda a plataforma aérea.
A velocidade tornou-se um requisito operacional
Talvez a principal lição da guerra da Ucrânia seja que velocidade de adaptação passou a ser tão importante quanto desempenho.
Não vence quem desenvolve o melhor drone ao longo de dez anos.
Vence quem consegue modernizar sua aeronave continuamente, acompanhando a evolução das ameaças.
A indústria de drones aproxima-se cada vez mais da indústria de software: desenvolvimento contínuo, atualizações constantes e ciclos extremamente curtos de inovação.
Projetos excessivamente longos, burocráticos e baseados em requisitos congelados tendem a produzir equipamentos que já chegam operacionalmente superados.
Uma decisão estratégica
A iniciativa da FAB de fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID) merece reconhecimento.
O Brasil precisa desenvolver competências nacionais e reduzir dependências externas.
Mas autonomia tecnológica não deve ser confundida com a necessidade de desenvolver integralmente uma plataforma cuja arquitetura poderá estar ultrapassada quando entrar em operação.
A prioridade estratégica deve ser colocar rapidamente em serviço sistemas relevantes para o combate moderno, enquanto a indústria nacional absorve tecnologia, desenvolve novos sensores, integra armamentos nacionais e mantém capacidade permanente de evolução.
O debate que hoje ocorre na Europa em torno do Eurodrone representa um alerta importante.
Se países com recursos financeiros, tecnológicos e industriais muito superiores enfrentam dificuldades para manter a relevância de um programa dessa natureza, o Brasil deve analisar cuidadosamente os riscos antes de seguir o mesmo caminho.
Ainda há tempo para estruturar um programa que combine autonomia tecnológica, rapidez de incorporação e evolução contínua.
Na guerra moderna, o maior risco não é depender de tecnologia estrangeira.
É investir anos e centenas de milhões de dólares em um sistema que, quando finalmente estiver pronto, já pertença ao passado.




















