Editorial — REVISTA INTERAÇÃO (2026, EDIÇÃO 02)
A guerra não desapareceu.
Ela se transformou — e, com ela, transformou-se também o próprio conceito de segurança. Se, em sua formulação clássica, a guerra esteve associada ao Estado, ao território e ao confronto direto — como consolidado no sistema internacional a partir da Paz de Vestfália —, hoje ela se manifesta em dimensões mais difusas, complexas e persistentes.
A distinção entre guerra e paz, outrora relativamente clara, dissolve-se em um contínuo marcado por tensões permanentes, disputas estruturais e conflitos de baixa intensidade.
É nesse contexto que se insere o Sul Global.
Historicamente situado em uma posição periférica na arquitetura internacional, o Sul Global passa, no século XXI, a ocupar um lugar estratégico central. Não apenas como espaço de disputa entre grandes potências, mas como ator ativo na redefinição das dinâmicas de poder, segurança e governança.
A transição em curso — do chamado “rules-based order” para uma lógica de competição entre potências — impõe novos desafios. O enfraquecimento das instituições multilaterais, a crescente instrumentalização da interdependência econômica e a intensificação das rivalidades estratégicas reposicionam a defesa e a segurança pública como dimensões estruturais da autonomia estatal.
Nesse cenário, a segurança já não pode ser compreendida exclusivamente sob a ótica militar tradicional.
Ela se expande.
A guerra contemporânea articula múltiplos domínios: o econômico, o tecnológico, o financeiro, o informacional e o cognitivo. Sanções econômicas, disputas por cadeias produtivas, controle de tecnologias críticas, fluxos de capitais e operações informacionais passam a compor aquilo que se pode denominar como uma arquitetura ampliada da guerra.
Essa transformação impacta diretamente o Sul Global.
Em muitos casos, os Estados enfrentam simultaneamente desafios internos, como violência urbana, fragilidade institucional e desigualdades estruturais, e pressões externas, associadas à competição geopolítica e à reorganização do sistema internacional. O resultado é um ambiente híbrido, no qual segurança pública e defesa nacional deixam de ser esferas separadas e passam a se interconectar.
A chamada “zona cinzenta” torna-se, assim, uma categoria central de análise.
Entre a guerra declarada e a paz formal, emerge um espaço de conflito contínuo, caracterizado por operações indiretas, coerção econômica, disputas narrativas e intervenções não convencionais. Nesse ambiente, a capacidade estatal de antecipar, responder e adaptar-se torna-se um elemento decisivo.
É precisamente nesse ponto que se insere o eixo estruturante deste dossiê: governança, capacidades e autonomia estratégica.
A governança refere-se à capacidade dos Estados de coordenar instituições, integrar políticas públicas e construir mecanismos eficazes de resposta a ameaças complexas. Não se trata apenas de controle, mas de articulação — entre níveis de governo, entre agências e entre o setor público e a sociedade.
As capacidades dizem respeito aos instrumentos concretos de ação: forças de segurança, inteligência, tecnologia, infraestrutura e recursos humanos. No contexto contemporâneo, essas capacidades não podem mais ser pensadas apenas em termos quantitativos, mas qualitativos — isto é, em termos de flexibilidade, integração e adaptabilidade.
Por fim, a autonomia estratégica emerge como um objetivo central.
Em um sistema internacional cada vez mais competitivo, a capacidade de formular e executar políticas de defesa e segurança sem dependência excessiva de atores externos torna-se condição para a soberania efetiva. Para o Sul Global, isso implica não apenas resistir a pressões externas, mas também construir caminhos próprios de desenvolvimento institucional e tecnológico.
Este dossiê propõe, portanto, uma reflexão crítica e multidimensional sobre esses desafios.
Ao reunir contribuições que exploram diferentes dimensões da defesa e da segurança pública no Sul Global, a Revista InterAção reafirma seu compromisso com a produção de conhecimento rigoroso, relevante e atento às transformações do sistema internacional.
Mais do que analisar a guerra, trata-se de compreender o mundo em que ela se tornou permanente.
E, sobretudo, de refletir sobre como, a partir do Sul Global, é possível construir respostas que não sejam apenas reativas, mas estratégicas.
Porque, no cenário contemporâneo, a segurança deixou de ser apenas uma condição — e passou a ser um projeto político.
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Atenção: Novo prazo para submissão!

Prorrogação de Prazo: Dossiê Temático
Comunicamos que o prazo para a submissão de artigos para o Dossiê Temático foi estendido. Pesquisadores e interessados agora têm até o dia 15 de maio para enviar suas contribuições.
Não perca a oportunidade de integrar esta publicação. Confira as diretrizes completas em nosso portal.
A InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) abriu oficialmente a chamada para seu 2º Dossiê Temático (ano 2026), intitulado “A Defesa e a Segurança Pública no Sul Global: Governança, Capacidades, Autonomia e Gestão Estratégica”.
A chamada pública pode ser acessada aqui:
https://periodicos.ufsm.br/interacao/announcement/view/853
A revista recebe artigos, ensaios, estudos de caso, entrevistas e resenhas em Português, Espanhol, Francês e Inglês.
Objetivo do dossiê
O dossiê busca reunir pesquisas inovadoras sobre defesa e segurança pública no Sul Global, abordando:
– governança e controle democrático,
– capacidades militares, policiais e tecnológicas,
– autonomia estratégica,
– gestão integrada da segurança,
– desafios geopolíticos e institucionais contemporâneos.
As Diretrizes para Autores podem ser consultadas diretamente na revista:
https://periodicos.ufsm.br/interacao/about/submissions
Temáticas prioritárias
Entre os temas de interesse:
- Governança da defesa e segurança pública.
- Relações civis-militares e accountability.
- Inovação e capacidades tecnológicas (ciberdefesa, IA, drones, sistemas autônomos).
- Indústria de defesa e cadeias produtivas.
- Ameaças híbridas, terrorismo, crime transnacional.
- Cooperação Sul–Sul e diplomacia de defesa.
- Segurança climática e ambiental como fator estratégico.
- Policiamento democrático, direitos fundamentais e uso progressivo da força.
- Gestão estratégica e federalismo de segurança pública.
- Abordagens críticas, decoloniais e comparadas sobre defesa e segurança.
Organizadores
– Gen Bda R1 Jomar Barros de Andrade – Exército Brasileiro / CDCiber
– Prof. Dr. José Renato Ferraz da Silveira – UFSM (Editor-Chefe)
– Gen Bda R1 Marcelo Carvalho Ribeiro – ADESG / UFSM
– Gen Bda R1 Marcelo Gurgel do Amaral Silva – CEEEx
– Gen Div R1Sergio Luiz Tratz – IGHMB
– Cel Vladimir Luís Silva da Rosa – Instituto de Pesquisas da Brigada Militar / UCS
Submissão dos trabalhos
As submissões devem ser feitas exclusivamente pelo sistema da revista, no link:
https://periodicos.ufsm.br/interacao/about/submissions
O processo de avaliação segue o padrão double-blind review.
Sobre a revista
A InterAção é uma publicação científica da UFSM dedicada às áreas de Relações Internacionais, Segurança Internacional e Estudos Estratégicos.
Página principal da revista:
https://periodicos.ufsm.br/interacao
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