Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
A possível aquisição em larga escala do Saab JAS 39 Gripen pela Ucrânia poderá redefinir completamente o futuro do caça sueco e consolidar Kyiv como o principal centro operacional, logístico e doutrinário da aeronave nas próximas décadas. Mais do que uma simples compra militar, o programa tende a transformar o Gripen em uma plataforma verdadeiramente multinacional, integrada por operadores estratégicos como Brasil, Suécia, Tailândia, futuramente Colômbia e, principalmente, a própria Ucrânia.
As negociações entre Suécia e Ucrânia avançaram significativamente nos últimos meses e a expectativa em círculos europeus de defesa é que o contrato seja aprovado e formalizado nos próximos meses. O programa em discussão envolveria uma frota muito superior à atualmente operada por qualquer outro usuário do Gripen E, colocando imediatamente Kyiv na posição de maior operador mundial da aeronave.
A dimensão estratégica do projeto é tão relevante que as futuras entregas para a Ucrânia deverão receber prioridade dentro da linha de produção da Saab.
Dois fatores explicam essa tendência.
O primeiro é financeiro. A Ucrânia passou a ter acesso a volumes inéditos de recursos internacionais voltados para reconstrução militar e modernização de suas Forças Armadas. Diversos países europeus e estruturas ligadas à OTAN vêm criando mecanismos de financiamento de longo prazo destinados especificamente à sustentação da defesa ucraniana.
Isso significa que Kyiv poderá dispor de orçamento suficiente não apenas para adquirir aeronaves, mas também para financiar infraestrutura, armamentos, treinamento, logística, estoques estratégicos e produção associada em escala raramente vista em programas europeus recentes.
O segundo fator é ainda mais profundo: a convergência estratégica entre Suécia e Ucrânia diante da ameaça russa.
A entrada da Suécia na OTAN alterou radicalmente a percepção de segurança do país escandinavo. Pela primeira vez desde a Guerra Fria, Estocolmo voltou a enxergar o equilíbrio militar no Mar Báltico e no Leste Europeu como uma questão existencial de segurança nacional.
Nesse contexto, fortalecer a capacidade aérea da Ucrânia tornou-se também uma forma indireta de proteger a própria Suécia.
Existe ainda uma dimensão histórica particularmente simbólica nessa aproximação. O Gripen foi concebido justamente para enfrentar um cenário de guerra de alta intensidade contra a antiga União Soviética. Sua filosofia operacional priorizou desde o início dispersão, sobrevivência, operação em rodovias e bases improvisadas, além da capacidade de continuar combatendo mesmo após ataques maciços contra infraestrutura aérea.
Hoje, a Ucrânia vive exatamente o tipo de guerra para o qual o Gripen foi originalmente desenhado.
Essa convergência operacional cria uma afinidade estratégica natural entre Estocolmo e Kyiv.
A prioridade nas entregas também teria enorme peso político e industrial. Para a Saab, o sucesso operacional do Gripen em combate real na Ucrânia representaria uma vitrine global sem precedentes para a aeronave. Nenhum outro operador teria capacidade de demonstrar o desempenho do caça em um ambiente tão extremo e tecnologicamente complexo.
Ao mesmo tempo, a Ucrânia tende a tornar-se o maior laboratório operacional do Gripen no mundo. A experiência adquirida em combate contra sistemas russos de defesa aérea, guerra eletrônica, drones, mísseis balísticos e ataques de longo alcance influenciará diretamente futuras modernizações da aeronave.
Existe ainda a possibilidade de que os Gripen E ucranianos recebam sensores, sistemas de guerra eletrônica e tecnologias exclusivas superiores às versões atualmente operadas por outros países, em lógica semelhante ao que ocorre com o F-16 Fighting Falcon israelense (F-16I). A necessidade operacional extrema da Ucrânia poderá levar ao desenvolvimento de variantes altamente especializadas para guerra eletrônica, integração de drones, combate em ambiente saturado por defesa antiaérea e operações de sobrevivência em cenários de alta intensidade.
Entre as possibilidades discutidas no ambiente operacional europeu está a integração de pods avançados de ataque eletrônico SPEAR, além de armamentos de ataque de longo alcance como o míssil Rampage, desenvolvido pela Israel Aerospace Industries e pela Elbit Systems. A combinação do Gripen E com sistemas desse tipo poderia ampliar significativamente a capacidade ucraniana de supressão de defesas aéreas, guerra eletrônica ofensiva e ataques de precisão contra alvos estratégicos em profundidade.
Um Gripen E ucraniano equipado com sensores avançados, integração massiva com drones, guerra eletrônica ofensiva e armamentos de longo alcance poderá tornar-se uma das variantes mais sofisticadas do caça no mundo.
Na prática, Kyiv vai se transformar no principal centro mundial de evolução tecnológica do Gripen.
Como principal operador da aeronave e em razão das exigências impostas por uma guerra de alta intensidade, a Ucrânia também deverá concentrar os maiores esforços logísticos já realizados para o Gripen E. Nenhum outro país operador enfrentará um ambiente operacional comparável.
Enquanto Brasil, Suécia e Tailândia operam o caça em cenários de paz ou baixa intensidade, a Ucrânia precisará sustentar uma grande frota em combate permanente, submetida diariamente a desgaste extremo, dispersão de bases, ataques de mísseis, drones e intensa guerra eletrônica.
Isso obrigará Kyiv a desenvolver uma gigantesca infraestrutura logística dedicada ao Gripen E. A Ucrânia deverá concentrar centros de manutenção pesada, estoques estratégicos de peças, capacidade acelerada de reparo estrutural, integração rápida de armamentos, modernizações contínuas de software, sistemas de dispersão operacional, infraestrutura descentralizada de suporte e treinamento permanente de pilotos e técnicos.
Com o tempo, a dimensão da estrutura logística ucraniana poderá superar inclusive a originalmente planejada pela própria Saab.
O país deverá assumir liderança crescente dentro do futuro “Gripen User Group”, coordenando doutrina operacional, prioridades de modernização, integração de armamentos, evolução de software e logística compartilhada entre os operadores internacionais do caça.
Nesse novo ecossistema internacional, o Brasil continuará desempenhando papel fundamental. Foi a Força Aérea Brasileira que viabilizou financeiramente o desenvolvimento do Gripen E, tornando economicamente possível a evolução do projeto sueco para sua atual geração.
A participação da Embraer e da indústria brasileira transformou o Brasil em parceiro tecnológico estratégico da Saab. A experiência brasileira em engenharia, integração de sistemas, produção e treinamento complementará a experiência operacional extrema que será acumulada pela Ucrânia em combate real.
Forma-se assim uma divisão natural de competências dentro da futura comunidade internacional do Gripen: o Brasil como principal polo industrial e de engenharia; a Suécia como centro original de desenvolvimento estratégico; e a Ucrânia como principal laboratório operacional, tecnológico e logístico em combate real.
A adesão já confirmada da Tailândia e a futura entrada da Colômbia ampliam ainda mais essa comunidade internacional de operadores.
Mas será a Ucrânia que deverá assumir o protagonismo central.
Com uma grande frota, prioridade estratégica para Suécia e OTAN, enorme disponibilidade de recursos internacionais e experiência operacional adquirida em guerra de alta intensidade, Kyiv poderá transformar-se não apenas no maior operador do Gripen E, mas no principal centro mundial de evolução operacional, tecnológica e logística da aeronave — redefinindo o futuro do caça sueco-brasileiro nas próximas décadas.





















