Inteligência Artificial em Defesa: Potencialidade para o Brasil


Julio Cezar Rodrigues Eloi


A Inteligência Artificial (IA), como ramo de conhecimento científico, tem se posicionado de forma relevante nas atuações de defesa com a inserção de equipamentos militares inteligentes e/ ou autônomos, sistematicamente, a contar dos anos noventa (Ferreira & Matos, 2022). Sua importância é crescente na sociedade contemporânea, de forma a transformar a economia, com presença silenciosa em setores variados, com particular destaque nos bancos e finanças, nas redes de energia e no comércio, entre outros (Barreiros & Poty, 2021).

Embora atualmente as máquinas serem menos inteligentes do que os seres humanos, no tocante à inteligência em geral, muitos dos avanços tecnológicos perceptíveis em aparelhos celulares e microprocessadores, são advindos de processos de IA (Ferreira & Matos, 2022). É notável que a IA tem se disseminado exponencialmente não somente na academia, gestão e saúde, mas também militar.

Dada o impacto dessa tecnologia nas relações econômico-sociais, este artigo pretende discutir suas potencialidades para a esfera de defesa brasileira, com base em publicações de autores nacionais. O contexto brasileiro é interessante para a conjuntura internacional, cuja imensidade territorial e longas fronteiras representam desafios significativos para o setor de defesa (Soares & Souza, 2024). Dessa maneira, o Brasil, para ocupar espaço entre as potências mundiais, deve dominar essa tecnologia, para obter a capacidade de se defender de ataques externos (Faria, 2024).

Orginalmente concebida por Alan Turing na década de 1950, a IA tem se transformado em uma poderosa ferramenta capaz de processar informações com agilidade ao mesmo tempo em que fornece soluções para problemas complexos (Alves, 2024). De maneira conceitual, a IA é referida aos sistemas desenvolvidos para imitar a inteligência humana, programados para aprender, raciocinar, resolver problemas, perceber e até interpretar a linguagem (Soares & Souza, 2024).

Como parte da 4ª Revolução Industrial (Indústria 4.0), a IA, ao lado da análise de big data, blockchain, computação em nuvem (cloud computing), computação quântica, defesa e segurança cibernéticas, drones, impressão 3d (manufatura aditiva), internet das coisas (Internet of Things – IoT), robótica, metaverso, etc, possui vasta aplicação em defesa. Assim, a IA pode racionalizar as operações, aprimorar a tomada de decisão, precisão e eficácia de missões (Soares & Souza, 2024).

Nessa conjuntura, a militarização da IA reflete a competição tecnológica entre grandes potências, com EUA e China liderando o desenvolvimento em vigilância, logística e operações autônomas (Migon, 2024). Ademais, ocorre crescimento da aplicação dessa tecnologia em defesa desde 2018, por parte desses dois países, de forma que no Brasil, apesar das iniciativas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a produção científico-tecnológica permanece modesta (Sá, Girardi, Duarte & Galdino, 2025).

Gráfico 1 – Distribuição das publicações científicas de 1962 a 2023

Fonte: adaptado de Sá et al. (2025).

O Gráfico 1 mostra que a partir de 2018 os estudos sobre IA em defesa assumem forte tendência no mundo. Sá et al. (2025) delimitaram a consulta no período de 2019 a 2024, cujos resultados apontaram que a China e os EUA
responderam por mais de 1/3 (um terço) da produção nesse recorte temporal (Gráfico 2).

Gráfico 2 – Dez países mais prolíficos em estudos sobre IA de 2019 a 2024

Fonte: adaptado de Sá et al. (2025).

Esse ambiente de desenvolvimento científico e tecnológico demonstra que a IA é elemento central na estratégia contemporânea de defesa dos Estados (Pinto & Medeiros, 2022). Nesse sentido, é importante destacar que enquanto os EUA priorizam a inovação através de parcerias público-privadas, a China tem adotado
modelo centralizador visando o domínio da IA global até 2030, ao passo que a Rússia tem focado em robótica e cibernética, com abordagem ofensiva (Migon, 2024).

A Rússia tem sido vista pelos EUA com menor potencial que a China nos investimentos em IA (Barreiros & Poty, 2021). Esses pesquisadores reforçam que a China é a principal competidora em IA, inclusive próxima aos EUA, em que citam Webb (2019), pelo fato de que das nove empresas de tecnologia à época, seis são estadunidenses (Apple, IBM, Microsoft, Amazon, Google e Facebook, atual Alphabet), ao passo que três são chinesas (Baidu, Alibaba e Tencent).

Israel, por seu turno, lidera em drones autônomos, enquanto Singapura visa robustecer sua defesa cibernética, demonstrando a IA como “equalizador” no poder militar (Migon, 2024). Esse xadrez global exige que o Brasil se posicione ativamente da revolução tecnológica abrangida pela IA, dado ser um país com a 5ª maior dimensão territorial sobre o globo, população diversificada com 212,6 milhões de habitantes, e vasto potencial econômico, cultural e tecnológico (Faria, 2024).

O Brasil compartilha ampla fronteira com dez países, com relações pacíficas e harmoniosas, apoiadas na preservação da ordem e paz no continente, de modo que busca mitigar as vulnerabilidades fronteiriças e impedir o avanço dos crimes transnacionais (Soares & Souza, 2024). De forma ampla, cabe compreender que tecnologias emergentes, como a IA, permitem o emprego em múltiplos domínios (terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético) (Ferreira & Matos, 2022).

Desse modo, a fronteira entre a paz e a guerra se mostra cada vez mais indefinida, dado que a expansão dos conflitos motiva ações conectadas que configuram intervenções em ambientes geográficos, espaciais e cibernéticos (Ferreira & Matos, 2022). Em tais ambientes, é perceptível a dualidade presente na IA. E isso significa que para o governo chinês, a contar de desenvolvimentos da IA em âmbito civil, ganhos de escala serão alcançados com impactos na produção de artefatos e software para a esfera militar (Barreiros & Poty, 2021).
Tal expansão das capacidades de IA das forças chinesas pretende ampliar o poder em C4ISR (command, control, communications, computers, intelligence, surveillance and reconnaissance), segundo Barreiros e Poty (2021). A IA no contexto de comando, controle, comunicações, computadores, inteligência, vigilância e reconhecimento, representa a integração de algoritmos avançados e aprendizado de máquina para processar grandes volumes de dados, assim como aumentar a consciência situacional e acelerar o ciclo de tomada de decisão militar.

Sá et al. (2025) listaram três áreas mais proeminentes de 2019 a 2024 atinentes à IA em defesa: aprendizado de máquina (machine learning – ML), segurança cibernética (cibersegurança) e simulação. Os modelos de aprendizado de máquina são empregados na previsão de demandas, com ajustes em estoques e recursos conforme às necessidades, sobretudo em campanhas prolongadas (Migon, 2024).

O aprendizado de máquina com análise preditiva identifica ameaças, analisa padrões de comportamento em tempo real, de modo que os algoritmos preveem falhas em equipamentos (aeronaves, blindados e navios) antes que ocorram, otimizando a prontidão operacional. Outra capacidade de ML reside em visão computacional, que quando utilizada em veículos autônomos (aéreos, terrestres ou marítimos), reconhecem alvos, além da navegação e monitoramento de ambientes.

Ademais, em segurança cibernética, a IA se transforma de postura reativa para proativa, ao eliminar pontos cegos e atuando na prevenção de ataques. Em simulação, a IA proporciona treinamento de combate adaptativo, com o uso de realidade virtual/ aumentada e gêmeos digitais, incrementada com a análise de desempenho em tempo real e modelagem de cenários futuros.

Outro componente importante se traduz no mercado de IA no setor de defesa.

A pesquisa de Sá et al. (2025) cita M&M (2023) que projeta um crescimento de cerca de 322%, saltando de US$ 9,3 bilhões, aplicados em 2023, para uma previsão de investimento de 38,8 bilhões de dólares americanos em 2028. Essa mesma investigação aponta empresas de destaque no ecossistema de IA em sistemas de
defesa, que é uma realidade latente e encontra-se em franca expansão (Figura 1).


Figura 1 – Principais empresas do ecossistema de IA em sistemas de defesa

Fonte: adaptado de Sá et al. (2025), com base em M&M (2023).

Em resumo, a produção global apresenta crescimento acentuado sobre os estudos de IA na perspectiva de defesa, especialmente a partir de 2018, no que China e EUA respondem por 36% das pesquisas no período de 2019 a 2024 (Sá et al., 2025). No estudo em tela, aprendizado de máquina (ML), segurança cibernética
e simulação resultaram nas áreas mais investigadas sobre o assunto. Entretanto, em que pese a importância do Brasil no cenário internacional, a referida investigação apontou a 20ª posição do ranking internacional nesse período, com 0,82% do percentual mundial.

A IA tem se consolidado pelo desenvolvimento iniciado pelos primeiros computadores programáveis após a II Guerra Mundial (Alves, 2024). De ampla aplicação civil e especificamente em defesa, Ferreira e Matos (2022) explicam que a IA pode ser empregada em múltiplos domínios (terrestre, marítimo, aéreo, espacial e
cibernético). No tocante às capacidades em C4ISR, há o processamento e interpretação de informações, emprego de algoritmos para reconhecimento e interpretação massiva de imagens, e análise e sugestão de soluções militares para problemas informados pelo comando humano, etc (Barreiros & Poty, 2021).

Em que pesem desafios, a IA fornece oportunidades para modernização das Forças Armadas e ampliar suas capacidades em áreas críticas como logística, operações e formação de lideranças (Migon, 2024). Por fim e não menos importante, no horizonte de curto prazo, trata-se de recrutar a IA em suas capacidades para
aumentar a eficiência e agilidade na realização de atividades cognitivas regulamente empreendidas por humanos sem que redunde na substituição dos próprios humanos como operadores da guerra (Barreiros & Poty, 2021).

Referências

Alves, F. T. (2024). A aplicabilidade da Inteligência Artificial nas Operações Militares, face aos desafios do século XXI.
https://bdex.eb.mil.br/jspui/bitstream/123456789/14007/1/MO%207014%20-%20Flavio%20TOSTES%20Alves.pdf

Barreiros, D., & Poty, Í. B. (2021). Estratégia norte-americana para o desenvolvimento de Inteligência Artificial militar: um horizonte de curto prazo (2020-2030). Austral: Brazilian Journal of Strategy & International Relations, 10 (19). https://seer.ufrgs.br/austral/article/download/97219/63527

Faria, L. C. D. S. (2024). O impacto da IA para a defesa cibernética: proposta para criação do Comando Conjunto de Inteligência Artificial.
https://repositorio.esg.br/bitstream/123456789/1971/1/LUIS%20CLAUDIO%20DA%20SILVA%20FARIA.pdf

Ferreira, E. A. S., & Matos, P. O. (2022). A Inteligência Artificial e seu empregomilitar. Áquila, (26), 13-25. https://ojs.uva.br/index.php/revista-aquila/article/view/519/303

Migon, E. X. F. G. (2024). Inteligência Artificial e Defesa: uma análise teórica sobre a transformação do poder militar. Panorâmico, Vol. 3, nº 09, p. 58-66.
https://ompv.eceme.eb.mil.br/images/publicacoes/panoramico/panoramico-vol3-n09- set-dez2024/Inteligencia_artificial_e_defesa-_uma_analise_teorica_sobre_a_transformaco_do_poder_militar_Eduardo_Xavier_Ferreira_Glaser_Migon.pdf

Pinto, D. J. A., & Medeiros, S. E. (2022). Inteligência Artificial e o seu uso no contexto Militar:
desafios e dilemas éticos. Cadernos Adenauer, (2), p-97.
https://www.kas.de/documents/265553/265602/Cad+2022-2+-+cap%C3%ADtulo+6.pdf/0c14124e-3557-65e2-366a-a034069aabdd?t=1657650736551

Sá, H. A., Girardi, R., Duarte, J. C., & Galdino, J. F. (2025). Tendências da inteligência artificial aplicada à defesa: forças, fraquezas, oportunidades e ameaças para o Brasil. Boletim de Conjuntura (BOCA), 21 (62), 01-33.
https://revista.ioles.com.br/boca/index.php/revista/article/view/6573/1388

Soares, R., & Souza, J. (2024). O uso da Inteligência Artificial no SISFRON. Revista de Segurança, Desenvolvimento e Defesa, 1 (1). https://rsdd.esd.gov.br/index.php/rsdd/article/view/9

Julio Cezar Rodrigues Eloi é subtenente de intendência do Exército Brasileiro (EB), egresso do Curso de Formação de Sargentos (CFS) de 2001, da Escola de Instrução Especializada (EsIE). Possui o Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS) da Escola de Sargentos de Logística (EsSLog) de 2012, e o Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais (CHQAO) da EsIE (2023/ 2024).

Doutorando e mestre em Administração pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Paulista (PPGA/ UNIP). Especialista em Gestão Pública pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Bacharel em Ciências Contábeis pela Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL), bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC), bacharel em Ciências e Humanidades (UFABC) e
licenciado em Geografia pela Universidade Bandeirante de São Paulo (UNIBAN).

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