A expansão do uso de drones comerciais e equipamentos FPV pressiona autoridades brasileiras a acelerar regras de proteção aeroportuária, enquanto o setor debate quais tecnologias serão capazes de enfrentar ameaças de baixa altitude e difícil detecção.
Por Redação DefesaNet
A decisão do governo brasileiro de avançar na regulamentação obrigatória de sistemas antidrone para aeroportos civis marca uma mudança estrutural na forma como o país enxerga a proteção de infraestruturas críticas. O tema, antes restrito ao ambiente militar e à segurança de grandes eventos, passa agora ao centro da aviação civil após episódios recentes que evidenciaram vulnerabilidades operacionais relevantes diante da proliferação de drones comerciais, equipamentos modificados e plataformas FPV de baixo custo.
A movimentação conduzida pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), em coordenação com o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e o Ministério de Portos e Aeroportos, ganhou força após a interrupção das operações no Aeroporto Internacional de Guarulhos durante o Carnaval de 2026. Na ocasião, múltiplos drones foram detectados nas proximidades da área operacional, provocando suspensão temporária de pousos e decolagens, atrasos em cadeia, cancelamentos e desvios de aeronaves por cerca de três horas.
O episódio expôs um problema que já preocupa autoridades aeronáuticas em diversas partes do mundo: a dificuldade de detectar pequenos drones utilizando exclusivamente sistemas tradicionais de vigilância aérea. Diferentemente de aeronaves convencionais, drones comerciais possuem reduzida assinatura radar, voam em baixa altitude e operam em ambientes urbanos saturados por interferências eletromagnéticas, o que dificulta sua identificação por sensores convencionais.
A preocupação brasileira acompanha uma tendência internacional observada após ocorrências semelhantes em aeroportos estratégicos da Europa, Estados Unidos e Oriente Médio. O caso mais emblemático ocorreu em 2018, no Aeroporto de Gatwick, no Reino Unido, quando relatos de drones nas proximidades da pista provocaram a paralisação das operações durante mais de 30 horas, afetando aproximadamente 140 mil passageiros e gerando prejuízos milionários. Desde então, a proteção antidrone deixou de ser vista apenas como uma questão de policiamento aeroportuário e passou a integrar o conceito mais amplo de defesa de infraestrutura crítica.
Nesse novo cenário, cresce o interesse por sistemas C-UAS (Counter-Unmanned Aircraft Systems), arquitetura que combina sensores, inteligência artificial, rastreamento e mecanismos de resposta para detectar, identificar e eventualmente neutralizar ameaças aéreas de pequeno porte. A discussão no Brasil ocorre justamente em um momento em que diferentes tecnologias disputam espaço dentro do mercado global de proteção aeroportuária.
Hen Harel, CEO da Ôguen e especialista em segurança de infraestruturas críticas, avalia que o debate brasileiro precisará considerar não apenas a obrigatoriedade regulatória, mas também o modelo tecnológico adotado pelos aeroportos.
Segundo ele, soluções baseadas exclusivamente em radares convencionais ou em bibliotecas limitadas de assinatura digital podem apresentar restrições diante da evolução dos drones FPV e de equipamentos modificados.
“O Brasil está diante de uma decisão estratégica. Se os aeroportos investirem apenas em sistemas tradicionais, continuarão vulneráveis a drones modernos de baixa assinatura e equipamentos adaptados para escapar de métodos convencionais de detecção”, afirma.
Nos bastidores da discussão regulatória, autoridades brasileiras observam experiências internacionais que migraram para modelos multisensoriais de defesa aérea de curto alcance. Em muitos casos, radares passaram a operar integrados a sensores ópticos, inteligência artificial, detecção acústica e sistemas de radiofrequência passiva capazes de identificar emissões entre drone e operador.
A radiofrequência passiva tornou-se particularmente relevante em cenários urbanos complexos porque permite detectar sinais de comunicação sem necessidade de emissão ativa de energia eletromagnética. Além da identificação da aeronave, alguns sistemas conseguem localizar a posição aproximada do operador, ampliando a capacidade de resposta preventiva das forças de segurança.
Especialistas do setor, entretanto, observam que não existe solução única para o problema. Sistemas exclusivamente baseados em RF também apresentam limitações diante de drones autônomos, rotas pré-programadas ou equipamentos operando em silêncio eletromagnético. Por isso, a tendência internacional aponta para arquiteturas em camadas, combinando múltiplos sensores e inteligência de fusão de dados.
O avanço dos drones FPV utilizados em conflitos recentes reforçou ainda mais a preocupação global. Inicialmente populares em competições esportivas e uso recreativo, esses equipamentos passaram a ser empregados em cenários de guerra assimétrica devido à alta velocidade, baixo custo e dificuldade de interceptação.
A experiência observada na guerra da Ucrânia acelerou investimentos em tecnologias de detecção de baixa altitude e ampliou o interesse de operadores civis por soluções originalmente desenvolvidas para emprego militar.
No Brasil, o desafio regulatório envolve também questões jurídicas e operacionais complexas. Embora a detecção de drones seja tecnicamente viável, a neutralização ainda depende de regras específicas relacionadas ao uso do espectro eletromagnético, interferência em comunicações e responsabilidade sobre eventual queda da aeronave. Atualmente, o emprego de sistemas de bloqueio eletrônico permanece restrito e controlado por órgãos federais.
A possível exigência regulatória da ANAC deverá impactar diretamente concessionárias aeroportuárias, integradores de defesa e empresas de tecnologia voltadas à proteção perimetral. O setor avalia que a nova fase poderá abrir um mercado significativo para soluções C-UAS no país, especialmente em aeroportos de grande fluxo, instalações estratégicas e áreas próximas a centros urbanos densamente povoados.
Mais do que uma adaptação tecnológica, a discussão sinaliza uma mudança conceitual importante: aeroportos civis passam a ser tratados dentro da lógica contemporânea de defesa de infraestrutura crítica, ambiente no qual ameaças de baixo custo e alta imprevisibilidade assumem relevância crescente no planejamento de segurança nacional.
…





















