Projeto AFX: uma decisão estratégica para o poder naval brasileiro

A aviação de caça não é um luxo para a Marinha do Brasil. É uma capacidade militar que amplia as possibilidades de emprego da Esquadra, contribui para a defesa do Atlântico Sul e preserva competências essenciais ao exercício do poder naval.

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

A substituição dos A-4 Skyhawk é urgente. Mais do que renovar aeronaves, o Brasil precisa preservar sua aviação de caça naval, preparar seus pilotos para os combates do futuro e manter aberta a possibilidade de voltar a operar um navio-aeródromo. O projeto AFX deve ser uma prioridade estratégica da Marinha do Brasil.

A aviação de caça não é um luxo para a Marinha do Brasil. É uma capacidade militar que amplia as possibilidades de emprego da Esquadra, contribui para a defesa do Atlântico Sul e preserva competências essenciais ao exercício do poder naval. Por isso, a substituição dos AF-1 Skyhawk não pode ser tratada como uma simples renovação de material. Trata-se de uma decisão sobre o futuro da aviação naval brasileira.

Projetados há décadas, os Skyhawk enfrentam limitações crescentes de disponibilidade, sustentação logística e modernização. Prolongar indefinidamente sua operação significa aumentar o risco de perder uma capacidade militar cuja reconstrução exigiria tempo, recursos e um esforço institucional considerável.

A questão central é objetiva: a Marinha precisa substituir seus A-4 antes que a obsolescência comprometa a continuidade operacional da aviação de caça ou a segurança das operações.

Preservar o VF-1 é preservar uma capacidade estratégica

O Primeiro Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1) representa muito mais do que uma unidade equipada com aeronaves de combate. Ele reúne pilotos, especialistas, pessoal de manutenção, doutrina e experiência operacional acumulada ao longo de três décadas.

Essas competências não podem ser recuperadas rapidamente caso a atividade seja interrompida. Formar pilotos de caça naval e preparar equipes para operar sistemas complexos exige treinamento contínuo, infraestrutura adequada e experiência prática.

Manter o VF-1 formalmente ativo, entretanto, não é suficiente. É necessário oferecer uma plataforma que permita treinamento avançado, incorpore tecnologias contemporâneas e prepare o esquadrão para as exigências do combate no moderno teatro de operações aeronavais.

A substituição dos Skyhawk deve assegurar não apenas a continuidade das operações e o cumprimento das missões atribuídas ao esquadrão, mas também a evolução da capacidade de combate naval brasileira.

Uma ferramenta de combate a serviço da Esquadra

A aviação de caça amplia as opções operacionais de uma força naval. Pode contribuir para missões de reconhecimento, esclarecimento armado, ataque de precisão, defesa aérea e emprego contra alvos de superfície, além de apoiar operações do Corpo de Fuzileiros Navais.

Aeronaves modernas, integradas aos sensores, aos sistemas de comando e controle e aos armamentos dos demais meios navais, podem ampliar a consciência situacional e oferecer maior flexibilidade de resposta diante de ameaças aéreas e marítimas.

Mesmo sem um navio-aeródromo, aeronaves baseadas em terra podem cumprir missões em apoio à Esquadra, desde que o alcance, a autonomia, a infraestrutura e as condições de sustentação sejam compatíveis com os objetivos operacionais.

Essa capacidade ganha relevância diante da transformação da guerra naval. Drones aéreos, embarcações não tripuladas e ataques coordenados representam ameaças que exigem respostas integradas, combinando sensores, guerra eletrônica, sistemas antiaéreos e aeronaves de combate.

Um caça moderno não é a solução para todas essas ameaças, nem necessariamente a opção mais econômica para enfrentar qualquer sistema não tripulado. Sua disponibilidade, contudo, acrescenta alternativas de interceptação, reconhecimento e proteção da força naval. Hoje, uma das maiores ameaças a uma fragata ou grupo-tarefa são os drones marítimos e aéreos, e a capacidade de interceptar e destruir é fundamental para proteção e liberdade de operação dos meios de superfície.

O projeto AFX precisa responder a esse ambiente operacional, priorizando sensores, armamentos, integração em rede, guerra eletrônica, disponibilidade e custos sustentáveis de aquisição, operação e suporte ao longo de todo o ciclo de vida.

O futuro do poder naval exige visão de longo prazo

A discussão sobre o AFX está diretamente relacionada a uma questão maior: que Marinha o Brasil pretende ter nas próximas décadas?

A defesa de uma extensa área marítima, a proteção das linhas de comunicação oceânicas e a salvaguarda dos interesses nacionais no Atlântico Sul exigem capacidades que não podem ser improvisadas durante uma crise.

Nesse contexto, a possibilidade de voltar a operar um navio-aeródromo deve permanecer no horizonte do planejamento estratégico brasileiro. Assim como o submarino de propulsão nuclear representa uma capacidade diferenciada para a força submarina, um navio-aeródromo permitiria projetar poder aéreo a partir do mar e ampliar a flexibilidade de emprego da Esquadra, reduzindo sua dependência de bases terrestres em determinadas operações.

São capacidades distintas, com custos e requisitos próprios. Sua viabilidade depende de financiamento sustentável, infraestrutura, pessoal, logística e integração operacional. Ainda assim, descartar essas possibilidades sem uma avaliação estratégica de longo prazo poderia limitar as opções futuras do País.

A retomada da operação de um navio-aeródromo não precisa ser imediata para justificar a preservação da aviação de caça hoje. Pelo contrário: a formação de pilotos, especialistas e equipes de apoio deve ser contínua, de modo que uma eventual decisão futura não encontre a Marinha sem o conhecimento e a experiência necessários.

Sem continuidade operacional no presente, o Brasil corre o risco de não dispor do conhecimento, do pessoal e da estrutura necessários para reconstruir sua aviação de caça embarcada no futuro.

Preparar hoje os pilotos para as aeronaves de amanhã

A aviação de combate moderna exige muito mais do que desempenho de voo. O treinamento envolve o emprego de sensores, guerra eletrônica, combate além do alcance visual, gerenciamento de informações e operações integradas com outras plataformas.

Uma aeronave moderna permitirá ao VF-1 atualizar sua doutrina e desenvolver competências compatíveis com ambientes operacionais mais complexos. Também poderá facilitar a evolução para sistemas de combate mais avançados, desde que acompanhada de treinamento, simuladores e infraestrutura adequados.

Em um horizonte de aproximadamente duas décadas, a Marinha poderá avaliar a adoção de aeronaves de quinta geração, como o F-35B, caso decida reconstruir sua capacidade de aviação embarcada e disponha dos recursos necessários.

Essa hipótese exige cautela. Uma eventual aquisição do F-35B dependeria da compatibilidade com um futuro navio-aeródromo, dos custos de aquisição e sustentação, do acesso à tecnologia, da infraestrutura disponível e das condições políticas e operacionais de emprego. Não seria uma consequência automática da modernização do VF-1, mas uma possibilidade a ser considerada no planejamento de longo prazo.

O ponto fundamental é preservar uma trajetória de evolução. Sem pilotos adestrados, equipes técnicas experientes e doutrina atualizada, qualquer programa futuro de aviação embarcada partirá de uma posição muito mais desfavorável.

Bases terrestres e defesa do Atlântico Sul

A operação a partir de bases terrestres constitui uma dimensão complementar da aviação naval. Em coordenação com a Força Aérea Brasileira, aeronaves de combate podem contribuir para missões de reconhecimento, proteção de áreas marítimas e apoio à Esquadra.

Fernando de Noronha merece atenção nesse planejamento por sua posição no Atlântico Sul e sua relevância para a vigilância dos espaços marítimos de interesse brasileiro. Em sentido figurado, a ilha pode ser considerada um “porta-aviões fixo”, uma posição avançada de apoio potencial a operações aéreas e de vigilância marítima.

Essa analogia, entretanto, não deve ser confundida com uma capacidade operacional já estabelecida. O emprego de aeronaves de combate a partir da ilha dependeria de infraestrutura adequada, logística, autonomia das aeronaves, proteção da própria posição e coordenação entre a Marinha e a Força Aérea Brasileira.

Esses fatores reforçam a necessidade de avaliar o AFX com base em um conjunto realista de missões, e não apenas em sua eventual operação a partir de um navio-aeródromo. A disponibilidade futura de um navio desse tipo não deve nem precisa ser um requisito para a escolha da aeronave que substituirá os Skyhawk.

A participação em exercícios e coalizões internacionais também deve ser considerada. Sistemas modernos de comunicação, procedimentos compatíveis e capacidade de integração com outras forças ampliam a interoperabilidade e permitem que a Marinha participe de operações combinadas sem abrir mão de sua autonomia de decisão.

O projeto AFX como prioridade estratégica

A Marinha do Brasil já investiu recursos, infraestrutura e capital humano na implantação e na manutenção de sua aviação de asa fixa. Esse patrimônio institucional precisa ser considerado nas decisões sobre o futuro da Força.

A perda da capacidade de caça não significaria apenas retirar aeronaves de serviço. Poderia comprometer a experiência acumulada, interromper a formação de especialistas e tornar muito mais difícil uma eventual retomada das operações aéreas embarcadas. Também colocaria em risco o aproveitamento de centenas de milhões de reais já investidos na reconstrução e na manutenção da aviação naval de asa fixa.

Por isso, o projeto AFX deve ocupar posição prioritária no planejamento estratégico da aviação naval. Sua definição urgente precisa considerar os custos de aquisição e de ciclo de vida, a disponibilidade operacional, a sustentação logística, a integração de armamentos, a formação de pessoal e as possibilidades de modernização ao longo dos anos.

A escolha não deve se limitar à aquisição de uma aeronave. Deve contemplar um sistema de combate sustentável, capaz de atender às necessidades presentes e preservar opções para o futuro, inclusive a possibilidade preparar pilotos para integrar novas capacidades, como o F-35B, caso a Marinha venha a dispor de um navio-aeródromo compatível e das condições financeiras, tecnológicas e operacionais necessárias.

O objetivo imediato do AFX deve ser preservar a capacidade de caça naval. Ao mesmo tempo, a escolha precisa evitar soluções que limitem desnecessariamente a evolução tecnológica, operacional e doutrinária do VF-1.

Não perder hoje a capacidade de combater amanhã

O Brasil precisa decidir que papel pretende desempenhar no Atlântico Sul nas próximas décadas. Se deseja manter uma Marinha capaz de proteger os interesses nacionais e atuar em cenários de maior complexidade, precisa preservar competências militares que levam anos para ser desenvolvidas.

A aviação de caça é uma delas.

A substituição dos A-4 Skyhawk deve ser compreendida como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento do poder naval, ao lado da modernização da Esquadra, do desenvolvimento da capacidade submarina e da preservação da autonomia estratégica brasileira.

Não é necessário decidir hoje qual será a aeronave de quinta geração do futuro ou quando um novo navio-aeródromo entrará em serviço. É necessário, porém, evitar que a falta de decisões no presente elimine essas possibilidades.

O projeto AFX não é apenas um programa de substituição de aeronaves. É um investimento necessário para preservar a aviação de caça naval, manter o VF-1 operacionalmente relevante e preparar a Marinha do Brasil para os desafios das próximas décadas.

Adiar essa decisão até que os Skyhawk já não possam cumprir suas funções seria uma escolha estratégica de alto risco. A capacidade de combate naval não se reconstrói de um dia para o outro.

A hora de preservar o futuro da aviação de caça da Marinha do Brasil é agora.

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