A grande estratégia brasileira é abrir os portões?

A grande estratégia brasileira é abrir os portões?

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

O mundo está entrando em uma fase de instabilidade que pode alterar, de forma definitiva, o equilíbrio de poder construído desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Guerras regionais transformaram-se em conflitos de dimensão internacional. Potências militares passaram a testar abertamente os limites umas das outras. Alianças estão sendo redefinidas, cadeias logísticas e industriais estão sendo reorganizadas e a corrida por munições, drones, mísseis, defesa antiaérea e capacidade de guerra eletrônica ganhou velocidade.

A pergunta que o Brasil precisa responder é simples:

Estamos preparados para esse novo mundo?

A resposta é desconfortável: não.

O Brasil possui dimensões continentais, uma população de mais de 200 milhões de habitantes, riquezas minerais, energia, alimentos, água, uma extensa costa marítima e uma posição estratégica privilegiada. Mas continua sem capacidades militares compatíveis com aquilo que representa.

E isso não é uma questão de quantidade de soldados.

É uma questão de capacidade real de combate.

Soberania não é discurso

Durante décadas, o Brasil repetiu que sua política externa é baseada na soberania, na autonomia e na defesa dos interesses nacionais.

São princípios legítimos.

Mas soberania não é uma declaração diplomática.

Soberania é capacidade.

Um país soberano precisa possuir condições para defender seu território, suas fronteiras, seu espaço aéreo, suas águas jurisdicionais, suas infraestruturas críticas e seus interesses estratégicos.

Caso contrário, a soberania transforma-se em discurso político.

No mundo real, os países não são avaliados apenas pelo que dizem. São avaliados também pelo que conseguem fazer.

Quem tem capacidade de agir possui opções.

Quem não tem capacidade de agir possui apenas protestos, notas diplomáticas e pedidos de compreensão.

E, em uma crise internacional, isso pode ser insuficiente.

A neutralidade também precisa ser defendida

Existe no Brasil uma percepção confortável de que, diante de um eventual grande conflito internacional, poderíamos simplesmente declarar nossa neutralidade e permanecer afastados.

Mas neutralidade não é um salvo-conduto.

Ela precisa ser respeitada pelos outros.

E, para que seja respeitada, o país precisa possuir capacidade suficiente para deixar claro que violar sua neutralidade terá um custo.

A neutralidade é sustentada pela dissuasão.

Um Brasil militarmente frágil pode declarar neutralidade. A questão é saber se terá capacidade para fazê-la prevalecer.

Em uma crise envolvendo o Atlântico Sul, por exemplo, quem protegeria nossas rotas marítimas? Quem garantiria a segurança dos portos? Quem protegeria as plataformas de petróleo, cabos submarinos, usinas, centros de comunicações e infraestrutura energética?

  • Quem garantiria a integridade do espaço aéreo?
  • Quem defenderia a Amazônia?
  • Quem protegeria Brasília?
  • Quem garantiria que nossas fronteiras permaneceriam sob controle?

Não basta possuir Forças Armadas.

É necessário possuir Forças Armadas capazes de combater.

A América Latina também mudou

O Brasil historicamente tratou a América do Sul como uma região de relativa estabilidade.

Essa premissa está sendo colocada à prova.

A Venezuela é o exemplo mais evidente de como uma crise política, econômica e militar pode transformar rapidamente o ambiente estratégico regional. A situação venezuelana demonstrou que a estabilidade regional não pode ser considerada permanente nem garantida.

Ao mesmo tempo, o Brasil precisa observar com atenção o comportamento de cada país da região e evitar generalizações. Não se trata de afirmar que todos os vizinhos são inimigos.

Trata-se de reconhecer uma realidade elementar do planejamento militar: não se constrói uma estratégia de defesa supondo que o cenário permanecerá benigno para sempre.

Planejamento militar trabalha com possibilidades, riscos e capacidades.

Não com desejos.

O Brasil não pode descobrir suas deficiências durante uma guerra

O problema brasileiro é que muitas das capacidades consideradas essenciais ainda estão no campo dos programas, projetos, intenções ou processos de aquisição.

  • Precisamos de mais caças.
  • Precisamos de defesa antiaérea de médio alcance.
  • Precisamos de drones de reconhecimento e ataque.
  • Precisamos de guerra eletrônica.
  • Precisamos de munição.
  • Precisamos de mísseis.
  • Precisamos de artilharia moderna.
  • Precisamos de blindados.
  • Precisamos de capacidade de guerra antinavio.
  • Precisamos proteger nossas infraestruturas críticas.
  • Precisamos de uma Marinha capaz de controlar e negar o acesso ao Atlântico Sul.Precisamos de submarinos.
  • Precisamos de capacidade de patrulha marítima.
  • Precisamos de logística.
  • E, acima de tudo, precisamos de estoques.

Porque uma Força Armada pode possuir os melhores equipamentos do mundo e ainda assim ser incapaz de sustentar uma guerra se não possuir munição, peças de reposição, combustível, manutenção e capacidade industrial para recompor suas perdas.

  • A guerra na Ucrânia mostrou isso de maneira brutal.
  • Carta de intenção não detém mísseis
  • Existe ainda uma cultura brasileira perigosa: anunciar intenções.
  • Assinar memorandos.
  • Produzir declarações conjuntas.
  • Criar grupos de trabalho.
  • Prometer transferência de tecnologia.
  • Anunciar futuras aquisições.
  • Esperar o próximo orçamento.
  • Esperar o próximo governo.
  • Esperar a próxima crise passar.

Mas uma capacidade militar só existe quando está contratada, financiada, produzida, entregue, integrada, treinada e disponível para emprego.

  • Antes disso, é projeto.
  • E projeto não combate.
  • Carta de intenção não intercepta míssil.
  • Memorando não afunda navio.
  • Discurso não protege uma base aérea.
  • Promessa não fornece munição.
  • Quem quer fazer e tem poder faz.

Não precisa transformar cada decisão estratégica em uma interminável cerimônia de intenções.

A hora de investir é antes da crise

O maior erro estratégico seria acreditar que podemos esperar o agravamento da situação internacional para então começar a reconstruir nossas capacidades.

Não podemos.

  • Quando uma guerra começa, a indústria mundial de defesa é imediatamente pressionada.
  • Prazos aumentam.
  • Preços sobem.
  • As linhas de produção ficam comprometidas.
  • Os estoques desaparecem.
  • E os países produtores priorizam suas próprias Forças Armadas e seus aliados.

O Brasil não pode chegar à próxima crise procurando no mercado internacional aquilo que deveria ter produzido, contratado e estocado durante a paz.

Poder militar leva anos para ser construído.

E pode ser destruído em semanas.

Fechar os portões

Durante muito tempo, o Brasil acreditou que sua dimensão territorial, sua diplomacia e sua tradição pacífica seriam suficientes para mantê-lo protegido.

Essa época acabou.

Não significa abandonar a diplomacia.

Ao contrário.

Uma diplomacia forte depende de uma estrutura nacional forte.

Não significa buscar uma corrida armamentista com os vizinhos.

Significa possuir capacidade suficiente para impedir que alguém decida, por nós, o que podemos ou não fazer.

Não significa escolher a guerra.

Significa tornar a guerra contra o Brasil uma opção pouco atraente.

Isso é dissuasão.

E dissuasão é, talvez, a mais eficiente política de paz.

Por isso, diante do atual ambiente internacional, cabe uma pergunta incômoda ao Estado brasileiro:

Qual é a nossa grande estratégia?

Abrir os portões e acreditar que ninguém entrará?

Ou construir capacidade militar suficiente para que todos saibam que, se alguém tentar atravessá-los, encontrará um país preparado para defender seus interesses?

O Brasil precisa decidir.

Porque soberania sem poder é apenas uma palavra.

E, na política internacional, quem não possui poder suficiente para defender sua soberania acaba dependendo da boa vontade de quem possui.

O momento de reconstruir a capacidade de defesa brasileira não será quando a próxima guerra chegar às nossas fronteiras.

É agora.

Depois pode ser tarde demais.

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