O chanceler da Estônia afirma que Moscou utiliza as negociações conduzidas pelos Estados Unidos para ampliar sua margem de manobra na Ucrânia. A continuidade dos ataques, as exigências russas e as novas medidas de Washington exigem uma avaliação pelos resultados, além da retórica dos líderes.
Por Redação DefesaNet
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O presidente Donald Trump tenta reabrir uma via de negociação entre Rússia e Ucrânia enquanto a guerra prossegue. Em entrevista publicada em 22 de setembro, o ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, afirmou que Vladimir Putin estaria usando a iniciativa americana para ganhar tempo e aumentar a pressão sobre Kiev. A acusação coloca uma questão estratégica diante de Washington: o diálogo está aproximando um acordo ou permitindo que Moscou mantenha sua ofensiva sem alterar suas exigências? currently.att.yahoo.com
A resposta ainda não pode ser medida pela disposição declarada dos governos de conversar. Em 25 de setembro, Estados Unidos e Ucrânia discutiam uma nova rodada de reuniões trilaterais, possivelmente nos Emirados Árabes Unidos. Moscou admitia a possibilidade do encontro, mas não havia data anunciada nem avanço público sobre os pontos centrais do conflito. Ao mesmo tempo, ataques russos contra a Ucrânia e ataques ucranianos contra instalações em território russo continuavam. A negociação permanece aberta; uma redução sustentada das hostilidades, até aqui, não está demonstrada. Al Jazeera
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O tempo como recurso militar
A avaliação estoniana parte de uma lógica concreta. Uma negociação pode oferecer espaço para reduzir perdas e testar concessões recíprocas. Também pode permitir que uma das partes preserve suas posições enquanto procura melhorar as condições militares antes de assumir compromissos. Para distinguir os dois cenários, é necessário observar o comportamento russo durante as conversas: intensidade dos ataques, objetivos territoriais, condições apresentadas a Kiev e aceitação de mecanismos verificáveis de cessar-fogo.
Até agora, Moscou não apresentou uma concessão pública capaz de resolver a disputa territorial ou a questão das garantias de segurança ucranianas. Após o encontro de Putin com enviados americanos no início de setembro, a avaliação do Institute for the Study of War foi de que o Kremlin mantinha suas exigências centrais e a intenção de alcançar objetivos pela força. Essa é uma análise independente, sujeita à evolução do campo de batalha, mas oferece um parâmetro mais útil do que a simples continuidade das reuniões. ISW
A situação militar tampouco autoriza tratar uma vitória russa como inevitável. Na avaliação de 25 de setembro, o ISW registrou um avanço russo a sudeste de Dobropillya, mas também operações ucranianas que dificultavam planos ofensivos em outros setores de Donetsk. No mesmo período, relatou ataques russos contra centros de dados e telecomunicações ucranianos, além de novos golpes ucranianos contra refinarias e instalações industriais russas. O quadro é de pressão prolongada e custos crescentes para ambos os lados, sem que uma declaração diplomática altere, por si, essas capacidades. ISW
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Washington entre a negociação e a pressão
A crítica a Trump exige um contraponto. Em 18 de setembro, o presidente americano sancionou uma lei que amplia instrumentos legais para impor sanções, tarifas e outras restrições à Rússia. Dias depois, a Presidência ucraniana informou que Trump e Volodymyr Zelensky haviam discutido passos para abrir caminho à diplomacia e a proteção aérea da Ucrânia antes do inverno. As equipes dos dois países também trabalhavam na possibilidade de produzir interceptadores para sistemas Patriot em território ucraniano. Esses fatos não sustentam a descrição de uma política americana composta apenas de concessões a Putin. The White House
Existe, porém, uma distância entre autorizar pressão e produzir pressão efetiva. A assinatura de uma lei amplia as opções de Washington; seu efeito dependerá das medidas adotadas, de sua aplicação e da resposta econômica russa. Do mesmo modo, discutir a produção de interceptadores Patriot fortalece uma perspectiva industrial de longo prazo, mas não equivale a entregar imediatamente os mísseis de que Kiev precisa para enfrentar ataques balísticos. Em 24 de setembro, Zelensky voltou a tratar dessa necessidade com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte. The White House
A diplomacia americana, portanto, não deve ser julgada somente pelo número de encontros nem descartada antes de seus resultados. Seu teste será a combinação entre negociação, capacidade de defesa ucraniana e custos impostos à continuidade da ofensiva russa. Um acordo limitado sobre ataques a infraestrutura ou troca de prisioneiros teria valor concreto, mas não resolveria automaticamente as causas militares e territoriais da guerra.

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Uma guerra sustentada dentro e fora da Rússia
A perspectiva de conflito prolongado também aparece fora das frentes de combate. Uma reportagem da Deutsche Welle descreveu um material sobre patriotismo distribuído a escolas de Novosibirsk que pede a estudantes disposição para morrer pela pátria. O caso revela como a guerra pode ser incorporada à formação política de jovens, embora o material examinado não permita generalizar seu uso para todas as escolas russas. Seu significado estratégico está na tentativa de preparar a sociedade para custos que podem persistir além de uma campanha militar específica. amp.dw.com
Na Europa, a preocupação assume outra forma. Em 24 de setembro, Emmanuel Macron afirmou considerar possíveis novas ações hostis russas contra a França e relatou o reforço da vigilância em locais sensíveis, entre eles aeroportos, instalações militares e infraestrutura de transporte. O governo francês já havia anunciado um plano para proteger infraestrutura crítica contra drones e ataques cibernéticos. São avaliações de risco e medidas preventivas; não confirmam, isoladamente, a preparação de um ataque específico contra o território francês. noticias.uol.com.br
Essas dimensões ampliam o alcance da negociação. Para Kiev, o tempo significa resistência militar, defesa aérea e sustentação da economia. Para Moscou, pode significar a possibilidade de manter pressão sobre cidades ucranianas e aguardar mudanças políticas entre seus apoiadores externos. Para os europeus, significa proteger infraestrutura e conservar capacidade de apoiar a Ucrânia mesmo sob ameaças em seu próprio território. Quem se beneficia de uma negociação prolongada depende do que cada lado consegue fazer enquanto negocia.

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A suspeita sobre Trump e o limite das provas
A conduta de Trump diante de Putin alimenta uma controvérsia anterior à atual rodada diplomática. Em “Agente Krasnov? Os mistérios e a sombra Russa na liderança americana”, a DefesaNet examinou alegações de ex-integrantes dos serviços soviéticos e decisões americanas que coincidiram com interesses de Moscou. O próprio artigo registra o limite decisivo: não foram apresentadas provas independentes de que Trump tenha sido recrutado ou aja como agente russo. www.defesanet.com.br
Há fatos estabelecidos que justificam escrutínio rigoroso. A inteligência americana concluiu que Putin ordenou uma campanha de influência na eleição de 2016 e que o governo russo demonstrava preferência por Trump. Já a investigação conduzida por Robert Mueller não estabeleceu que a campanha de Trump tivesse conspirado ou coordenado com o governo russo aquela interferência eleitoral. Preferência russa, eventual benefício político e atuação sob comando do Kremlin são afirmações diferentes, que exigem provas diferentes. www.intelligence.senate.gov
No conflito atual, a hipótese mais diretamente verificável é a levantada pela Estônia: Putin pode explorar o método e o ritmo das negociações americanas para preservar sua liberdade de ação. Isso não exige presumir que Trump deseje esse resultado. Exige examinar se Washington condiciona o diálogo a mudanças observáveis, mantém instrumentos de pressão e responde à continuidade dos ataques russos.
A próxima rodada de conversas será relevante apenas na medida em que alterar esse cálculo. Se Moscou reduzir ataques, apresentar concessões verificáveis e aceitar garantias que tornem um cessar-fogo sustentável, a diplomacia terá produzido efeitos além da abertura de canais. S
e as reuniões prosseguirem enquanto as exigências russas e a ofensiva permanecem intactas, a crítica estoniana ganhará força. A questão estratégica não é quantas vezes Trump consegue levar Putin à mesa, mas o que Putin deixa de ganhar enquanto está sentado nela.
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