Felipe Salles
Editor Base Militar Video Magazine
No início de 2026, o Brasil se vê cambaleando em direção a uma guerra que não planejamos, que não desejamos e que uma vez mais deve nos ser impingida por terceiros. Foi exatamente isso que nos ocorreu em 1942. Nosso desejo então era o de mantermo-nos neutros, infelizmente, isso não casava com as necessidades e vontades dos EUA ou dos países aliados. Naquele momento o Brasil era um anão econômico, agrícola e industrial com uma imensa parte de sua população totalmente analfabeta. Aos “anões”, só resta dizer “sim Senhor”.
Hoje o Brasil fica entre o 5º e o 10 maior país do mundo de acordo com o parâmetro que queiramos usar nessa medida. Nós somos muito maiores e mais importantes do que jamais fomos, e comparações com o Brasil de 1942 tem pouca ou nenhuma relevância agora. A ameaça atual responde pelo nome de “exportações para a China”. O governo Trump considera o nosso comércio com o país oriental, algo deletério para sua segurança e declara na Estratégia Nacional de Defesa que os rivais dos EUA não podem deter/expandir sua presença e influência no hemisfério “dos EUA”. O racional de Trump que justifica o sequestro de Nicolas Maduro e a cooptação do governo bolivariano, que explica o sequestro de navios petroleiros com petróleo venezuelano no alto mar é exatamente este: O hemisfério é deles, nós não passamos do “quintal”.
No passado recente nós escolhemos ver os Estados Unidos como o país que pretensamente nos dava a segurança no plano global. Assim pudemos investir um mínimo na nossa defesa, tínhamos a certeza de que eles estariam sempre ali, prontos para “nos salvar” no caso uma nova Grande Guerra surgir no horizonte. Ironicamente, os Estados Unidos sob Trump, escolheram saltar da categoria de “protetor” dos países menores para a classificação de “super-ameaça”. afinal eles são uma potência gigante.
Nosso Agro é uma maravilhosa história de sucesso, muitas famílias neste setor da economia vieram de uma origem humilde e ascenderam meteoricamente, produzindo riqueza pra si, seus filhos e netos além de alavancar o rápido desenvolvimento do interior nossas exportações, nossa economia e nosso governo. Se essa poderosa roda virtuosa for forçada a parar, nós não vamos conseguir reconhecer o Brasil que resultará disso
Como sairemos dessa arapuca? Antes de tudo, caberá ao Brasil, repensar a sua capacidade de Defesa daqui para frente. Precisamos criar uma forma de garantir que toda a nossa produção de Soja e outras sementes, as estrelas da exportação do Agro, e também sem esquecer do petróleo e dos minérios, todos itens exportados primordialmente para a China chegarem em segurança até seu destino. É esta pauta que hoje, praticamente, sustenta a economia brasileira. Mas sair de nossos portos e chegar nos portos chineses em segurança não é algo trivial, lembrem-se dos petroleiros sequestrados. Se Trump, naquele caso não hesitou em confiscar no alto mar a carga Venezuela e os navios petroleiros que o transportam, porque ele haveria atuar diferentemente com nossas cargas destinadas à China?
Temos uma ameaça real hoje, não num futuro inespecífico. Uma ameaça que pende como uma proverbial espada de Dâmocles sobre a “cabeça” do Brasil. Ou corremos para nos preparar para preparar os meios para reagir, ou para conseguir melhor suportar esse golpe, uma punição norte-americana inicialmente dirigida à China acabará sendo bem mais devastadora para nós do que para eles.
Desde 1900, praticamente todas as grandes tensões geopolíticas relevantes aconteciam na Europa, no Oriente Médio ou na Ásia. A América do Sul parecia uma “ilha” de tranquilidade, isolada totalmente das turbulências no exterior. Mas na hora em que o governo Trump publicou a sua nova doutrina estratégica de defesa, em novembro do ano passado, a América do Sul, e por consequência o Brasil, passaram a ficar no proverbial centro do mundo para os interesses do novo governo. Por boa parte do século 20 e do século 21 (até a ascensão de Trump) toda política exterior dos Estados Unidos foi construída ao redor do conceito extremamente atraente da “guerra justa”. Os norte-americanos só iriam a uma guerra, só provocariam a guerra, se aquilo fosse indispensável para salvar vidas, para proteger pessoas, para tornar o mundo um lugar melhor. Os regimes “democráticos” viraram no discurso americano o paradigma da virtude, eles tinham a única condição justa de um governo existir de forma soberana e em segurança. Ditaduras foram demonizadas ao redor do mundo, com exceção, naturalmente daquelas ditaduras que serviam aos interesses dos EUA, mas isso é outra história.
No entanto, o estilo ultra personalista de Trump, talvez por ele ter se criado na atividade na construção e na área imobiliária em Nova York, é uma forma muito peculiar de encarar o mundo, diferente de tudo que os presidentes dos EUA fizeram no último século. Trump pode vir a ser lembrado como o grande rei do “sincericídio”, já que ele diz exatamente o que ele quer de você, e aparentemente não gasta tempo dourando a pílula com referências à democracia ou à justiça social, liberdade religiosa… Nada disso tem importância mais, talvez no passado também não tivesse tido importância, mas o governo americano nunca disse “eu vou invadir seu país porque eu quero a sua reserva de petróleo”. Trump apresenta-se surpreendentemente direto e franco, acreditando que essa franqueza vai garantir a ele aquilo que ele quer. Trump não se importa se alguém vai ficar chateado. Se vai ficar magoado, ou se ficarão com raiva dele. Ele confia, como todo bom bully, que basta a ameaça crível da aplicação do poder econômico ou militar bruto para lhe conceder todos os “direitos”. O bully prefere mirar nas vítimas mais indefesas do grupo, transformando-os em exemplo para os demais.
No pátio do colégio de primeiro grau, mesmo aqueles que são fisicamente fortes, ao ver o dano feito pelo bully contra uma criança menor, podem optar por não se expor e não tomar partido ficando de fora da história. É isso que a gente vê hoje, o ataque frontal de Trump contra o BRICS começou justamente contra a África do Sul, inquestionavelmente o país economicamente mais frágil deste grupo. Depois, tivemos o ataque contra a Venezuela bolivariana, um país que apenas uma democracia na fachada, também não se posicionava como grande ameaça a ninguém (fora talvez com a Guiana em que maduro atuou como o bully).
E como nos protegeremos? No mar aberto a proteção da navegação mercantes é apenas uma: os comboios. Foi assim na 2ª Guerra e seria assim numa guerra contra a URSS e o Pacto de Varsóvia.na Guerra Fria. Para realizar comboios que levem nossas cargas até o outro lado do planeta precisaremos dispor de muitos navios militares. E isso é justamente o que não temos agora.
A última vez que compramos navios de escolta em alguma quantidade foi entre a décadas de 1970 e de 1980. Obviamente estes navios aí, ou estão aposentados ou operam com muitas restrições sem efetiva cobdição de combate. Mas uma virada é possível, mas só se o governo brasileiro encarar sem tentar se auto iludir, do tamanho do risco que nossas exportações pra China já enfrentam.
Os mais céticos apontam que mesmo comprando, por exemplo, uns doze navios modernos emergencialmente, eles nada poderiam fazer contra a US Navy e seus mais de 300 navios. Isso se eles resolvessem sumariamente nos afundar no mar aberto, mas isso, felizmente, é algo fácil de ser dito do que de ser feito. Se Trump optasse por ir até o ponto de afundar nossos navios militares navegando para a China, retomando a metáfora da irrelevância/indispensabilidade, ele correria o risco de gerar uma revolta no Brasil e nos demais países do continente que seu desejo de controlar o hemisfério ocidental ficaria totalmente inviável.
O renomado Prof. Dr. John Mearsheimer da Universidade de Chicago, um pensador das relações Internacionais americano muito respeitado, afirma que a América do Sul encarna a improvável situação de ser, ao mesmo tempo, totalmente irrelevante e completamente vital para o governo dos EUA. Pessoalmente, eu nos vejo como um “continente de Schrödinger” onde o gato proverbial da física quântica está simultaneamente “vivo” e/ou “morto”. Irrelevantes, porque não termos bombas atômicas ou mesmo grandes exércitos e marinhas, normalmente, só aparecemos no radar dos EUA por tráfico de drogas ou pelo “tsunami” de imigrantes ilegais. Mas, se um inimigo dos EUA porventura estabelecer presença permanentemente no Hemisfério Ocidental, aí nos tornamos a “cabeça de praia” de uma iminente invasão contra o território continental dos EUA. Para eles, algo completamente inaceitável e intolerável.
Se o sonho de uma Doutrina Monroe rediviva, soa atraente para Donald Trump, para o Brasil e para a maioria de seus vizinhos, ele é algo inconcebível.
Entre nós, hoje, e o “inconcebível anunciado”, precisamos colocar de uma nova, moderna e letal Esquadra da MB na defesa de nosso comércio marítimo. Como provavelmente diria hoje em dia o Almirante Barroso “O Brasil espera que cada um (dos centenas de deputados da Bancada do Agro, da Mineração e do Petróleo no Congresso) façam (o quanto antes) o seu seu dever”.





















