Em Santa Maria, uma cerimônia militar revelou que disciplina e sensibilidade não se opõem — e que a presença feminina amplia, com profundidade humana, os valores da caserna.
Por General R1 Ribeiro
Ontem, em Santa Maria, presenciei uma cena simples, mas daquelas que a carreira militar nos oferece sem aviso e que permanecem guardadas na memória. Era uma cerimônia de entrega de boinas às soldadas pioneiras do Serviço Militar Inicial Feminino.
Um ato militar, portanto, revestido de ordem, disciplina, solenidade e simbolismo. Eu estava posicionado bem à frente delas, ao lado do General Comandante da Divisão Encouraçada, e, daquele ponto, testemunhei um fato único. Para mim, a cerimônia deixou de ser apenas um rito de passagem e tornou-se uma profunda revelação humana, que me levou a refletir sobre a presença feminina nas Forças Armadas.
A soldada destaque foi chamada à frente. Havia nela a postura firme de quem compreendia a grandeza daquele momento. A tropa formada, o uniforme impecável, os comandos precisos, a boina aguardando sua imposição — tudo obedecia à liturgia própria da caserna.
Para quem serviu durante décadas, cenas assim parecem familiares. Ao longo de minha carreira, vi muitos jovens receberem símbolos, promoções, distintivos e condecorações. Vi o orgulho contido, a tensão do instante, o brilho discreto no olhar.
Mas ontem algo distinto ocorreu: quando seus familiares se aproximaram para entregar-lhe a boina, seus olhos se encheram de lágrimas. Não foi uma quebra da solenidade. Ao contrário, foi talvez o instante em que a solenidade se tornou mais profunda.
Naquela lágrima havia muito mais do que emoção passageira. Havia esforço, família, pertencimento, reconhecimento e história. Havia a menina que chegara até ali, a filha que desejava honrar seus pais, a jovem militar que recebia a boina e, com ela, a confirmação silenciosa de que seu lugar também era aquele.
A boina, naquele momento, não cobriu apenas uma cabeça. Coroou uma trajetória inicial, ainda breve, mas já carregada de significado. E a lágrima que surgiu não diminuiu a soldada. Pelo contrário: engrandeceu o momento.
Mostrou que a disciplina militar não precisa excluir a sensibilidade; que o rigor da formação pode conviver com a alma; que a firmeza não se mede pela ausência de emoção, mas pela capacidade de permanecer inteira mesmo quando o coração se manifesta.
Talvez esteja aí uma das marcas mais bonitas da presença feminina neste novo capítulo do serviço militar: a possibilidade de acrescentar à tradição da caserna uma expressão mais visível de sensibilidade, cuidado e inteireza. Não se trata de substituir valores antigos, mas de ampliá-los.
A coragem, a disciplina, a hierarquia e o espírito de corpo permanecem. Mas, com aquelas jovens, parece chegar também uma forma singular de colocar alma no que se faz. Em quarenta anos, foi a primeira vez que vi uma cena assim em uma entrega de boina.
Os soldados destaques se aproximam aguerridos, orgulhosos, com um entusiasmo que expressa sua virilidade. A reação da soldada foi completamente distinta — e, por isso, me tocou tanto. Porque há momentos em que a história não se anuncia por grandes discursos nem por atos grandiosos.
Às vezes, ela se revela em um gesto mínimo: ontem, em Santa Maria, a história teve olhos marejados, expressando a grandeza que a feminilidade aporta à carreira das armas.



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Nota do autor:
O uso do termo “soldadas” neste texto não é casual, tampouco estilístico. Trata-se de uma escolha deliberada, fundamentada na lógica da própria língua portuguesa. A palavra “soldado” deriva de soldo — a remuneração paga ao militar —, de modo que, sob o ponto de vista gramatical, aquele ou aquela que recebe soldo pode ser corretamente designado como soldado ou soldada.
Ainda que, no ambiente da caserna, o uso consagrado e institucional permaneça majoritariamente no masculino — inclusive como forma de padronização funcional —, entendo que tal prática não esgota as possibilidades da língua nem precisa limitar sua evolução. A adoção do feminino, quando aplicável, não compromete a tradição militar; ao contrário, dialoga com a realidade contemporânea da tropa.
Assim, ao empregar “soldadas”, busco não apenas precisão linguística, mas também coerência com a presença efetiva e crescente das mulheres nas fileiras das Forças Armadas. Trata-se, portanto, de uma escolha consciente entre o uso consagrado e a exatidão gramatical.
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