Dia 8 de Maio: Uma Vitória para o Mundo e um Orgulho para o Brasil

Por General de Brigada André Luiz de Souza Dias e Coronel Julio Cezar Fidalgo Zary

O dia 8 de maio de 1945 marca um ponto de inflexão na história da humanidade: o Dia da Vitória das forças aliadas contra o Eixo Berlim-Roma-Tóquio, na Europa, na 2ª Guerra Mundial (Victory on Europe Day – VE Day, no idioma inglês). Por questões de fuso horário, a Rússia comemora a efeméride dia 9 de maio.

Cabe salientar que a Guerra ainda prosseguia contra o Japão, de forma igualmente violenta, terminando somente em 2 de setembro de 1945.

Em sua vertente no Pacífico, o conflito só teria fim em meio ao horror de explosões atômicas em Hiroshima, em 6 de agosto, e em Nagasaki, três dias depois. Como resultado direto do emprego destes artefatos, cerca de 150 mil pessoas morreram, assim como uma grande parcela da população acometida pelos mais variados efeitos da radiação.

No Teatro de Operações do Mediterrâneo, onde atuou a Força Expedicionária (FEB), sucessivas vitórias, a partir de fevereiro de 1945, culminaram com a rendição de Colecchio-Fornovo e deram mostras do iminente colapso ítalo-germânico.

O rápido avanço para o nordeste da Itália contribuiu para livrar do julgo nazifascista as cidades de Piacenza, Cremona, Lodi, Alexandria, Milão e Turim, muitas delas com o auxílio dos partisans1. A libertação de Susa, em 2 de maio, caracterizou o encerramento da Ofensiva da Primavera. Em Berlim, Adolf Hitler cometera suicídio em seu bunker, no dia 30 de abril, submerso em sua completa insanidade e na iminência de ser capturado por tropas soviéticas.

O cargo de Chanceler do “Reich de mil anos” viu-se rifado de mão em mão. Primeiramente, ocupou-o Joseph Goebbels, o fiel escudeiro do “Führer”, mestre das falsas narrativas, fanático antissemita e adorador da delirante teoria da “super-raça ariana”.

Posteriormente, coube ao Almirante Karl Dönitz a inglória missão de assumir o controle de uma nação à beira do abismo, por longos 23 dias. Em solo italiano, a FEB cumpriu o seu dever. Com desprendimento e compromisso, auxiliou os aliados na etapa final do conflito, que negando aos 10° e 14° Exércitos alemães o acesso ao Passo de Brenner, impossibilitaram a sua fuga pela Áustria. Foi uma verdadeira corrida contra o tempo, quando ficou evidente a sagacidade e a resiliência do soldado brasileiro.

No mesmo dia em que houve a redição de quase 15.000 mil inimigos aos pracinhas, em Colecchio-Fornovo, o Comandante do Grupo de Exércitos “C” alemão, General Heinrich von Vietinghoff, informou ao escalão superior nazista ser impossível prosseguir combatendo no norte da Itália. O elevado nível de deterioração e esgotamento da tropa, aliado à falta de munição e toda sorte de suprimentos, havia deixado as lideranças tedescas em xeque-mate.

Assim, às quatorze horas de 29 de abril, a rendição no Teatro de Operações do Mediterrâneo foi finalmente assinada, formalizando o encerramento das hostilidades, a partir das 12h (horário de Greenwich), do dia 2 de maio. Poucos depois, em 7 de maio, a rendição incondicional seria firmada, em Reims, na França, e em Caserta, na Itália.

A alegria contagiante da vitória e as saudades do lar fizeram com que o pracinha não visse a hora de retornar para casa. Infelizmente, nem todos fizeram isso: quase 500 febianos permaneceram sepultados em Pistóia, na Itália, até terem seus restos mortais transladados 2 para o Brasil, no início da década de 1960.

O local do descanso eterno foi o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, na Cidade do Rio de Janeiro. O espaço foi construído especificamente para servir de morada definitiva aos brasileiros que tombaram no cumprimento do dever, além de imortalizar os feitos de bravura e coragem empreendidos por todos os expedicionários. Cumpria-se, enfim, a promessa do Comandante da FEB, então General de Divisão Mascarenhas de Morais, de trazer todos de volta à Pátria.

No retorno triunfal ao Brasil, uma comemoração jamais vista lotou as principais avenidas da antiga Capital Federal, Rio de Janeiro, selando o justo reconhecimento de um povo agradecido ao seus heróis. Do outro lado do Atlântico, o febiano havia superado todo o tipo de dificuldades. Adaptando-se com rapidez a uma nova realidade de guerra, suportou os rigores do combate e lutou com destemor contra um oponente experimentado, duro e competente.

Combatendo ombro a ombro com os exércitos aliados, os brasileiros paulatinamente conquistaram a confiança de superiores, pares e subordinados das nações amigas. Interagindo com a população local italiana, esbanjaram a habitual empatia e solidariedade que emolduram tão bem o caráter do soldado-cidadão do Brasil.

Em resumo, foram homens e mulheres que, marcados para sempre pelos horrores da guerra, compreenderam com profundade o significado de lutar pela liberdade e democracia.

Com o término da 2ª Guerra Mundial, o estado de tensão entre os povos se manteve vivo, sem solução de continuidade. Era a chamada Guerra Fria a apresentar sua sinistra credencial, pautada na intolerância, na sede de poder e na autodestruição nuclear do planeta.

Quase 45 anos depois, os novos acontecimentos advindos da simbólica queda do Muro de Berlim, em 1989, dariam novo contorno à desgastada arquitetura global. No Brasil, a participação na 2ª Guerra Mundial acendeu a centelha do desenvolvimento econômico, impulsionando os primeiros passos da gradual transição do campo para a cidade.

Trouxe consigo, também, a semente de um inevitável amadurecimento sociopolítico, cujo resultando, oportuno e necessário, contribuiu para o progresso nacional. Já no âmbito do Exército Brasileiro, houve a atualização doutrinária e a incorporação de modernos e diversificados materiais de emprego militar ao inventário da Força Terrestre.

Mais importante, a Instituição passou a contar com um ponderável efetivo de militares experimentados em combate. Eram oficiais e praças prontos a galvanizar a cadeia de comando com novos ensinamentos, inspirando pelo exemplo e exercendo uma liderança calcada no comportamento ético, no desenvolvimento permanente das virtudes e orientada na retidão de propósitos. Uma nova e frutífera era se descortinava.

Foto capa: Desfile de parte da FEB, no dia 17 de setembro de 1945, no centro do Rio de Janeiro, então Capital Federal do País. Ao fundo, a Igreja da Candelária.

General de Brigada André Luiz de Souza Dias – Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer, com sede em Santa Maria-RS. Nesta mesma Brigada, foi o Comandante da Companhia de Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado – Batalhão Cidade de Santa Maria, no biênio 2019-20. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os seguintes Mestrados Acadêmicos: em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil; em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha; e em Segurança, Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).

Coronel Julio Cezar Fidalgo Zary – Formado em 1997, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, é Assistente do Comandante Militar da Amazônia, cujo Comando tem sede em Manaus-AM. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, comandou o VII Contingente brasileiro na Missão de Paz na tríplice fronteira Líbano – Israel – Síria. Possui os Mestrados Acadêmicos em Operações Militares e em Ciências da Motricidade Humana, ambos no Brasil. É o atual Vicediretor do Museu Virtual da Força Expedicionária Brasileira (MVFEB).

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