Notas Estratégicas BR – Brasil precisa ser proativo e se preparar para as Incertezas e até a Guerra

Em dois fronts o interno e o externo o Brasil apresenta-se: despreparado, desatento, desmotivado, deslocado e desarmado.

Fiel Observador
14 Março 2026

A guerra, que por décadas parecia um fenômeno distante para os brasileiros — restrito aos livros de história ou às imagens transmitidas pelos noticiários internacionais — voltou a se tornar uma possibilidade concreta no cenário global. Os conflitos na Europa, no Oriente Médio e em diversas regiões do mundo demonstram que a estabilidade internacional pode se deteriorar rapidamente. Em um ambiente de crescente rivalidade entre potências, ataques híbridos, sabotagem, terrorismo e conflitos regionais voltaram ao centro da agenda estratégica.

Nesse contexto, o Brasil permanece perigosamente adotando os 5D: despreparado, desatento, desmotivado, deslocado e desarmado.

Ao contrário de vários países que revisaram suas políticas de defesa após os recentes conflitos internacionais, o Brasil continua operando sob a premissa implícita de que a guerra é algo impossível ou improvável em seu território ou em seu entorno estratégico. Essa visão pode ser confortável politicamente, mas é irresponsável do ponto de vista da segurança nacional.

Recentemente, o próprio Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil precisa estar preparado para a possibilidade de ser invadido. A declaração, feita em tom de alerta, reflete uma realidade que muitas vezes é ignorada no debate público: nenhum país está imune às turbulências do cenário internacional. Se o próprio chefe de Estado reconhece essa possibilidade, então a consequência lógica é que o país precisa começar imediatamente a se preparar para esse cenário.

A preparação de um país para situações de crise ou conflito não começa apenas com tanques, aviões ou navios de guerra. Ela começa pela preparação da sociedade. Em diversas nações europeias e asiáticas, programas de defesa civil, mobilização nacional e treinamento da população para situações de emergência voltaram a ser discutidos e implementados. Sirenes de alerta, sistemas de comunicação de emergência, planos de evacuação e exercícios de proteção civil são medidas básicas em países que levam a sério a proteção de suas populações.

No Brasil, praticamente nada disso existe.

Grandes cidades brasileiras não possuem sistemas de alerta para ataques, sabotagem ou desastres em larga escala. Não existem exercícios nacionais de mobilização civil. A população não recebe qualquer tipo de orientação sobre como agir em cenários extremos. A própria estrutura de defesa civil, que poderia servir como base para um sistema nacional de preparação, permanece fragmentada e focada quase exclusivamente em desastres naturais.

O evento de maior impacto que são os potenciais blecautes regionais ou nacionais não há uma clara e definida estrutua de alerta e informação para a população. Nem mesmo quando é localizado devido a desastres naturais.

As estradas principais do Sul-Sudeste estão saturadas e não comportam os caminhões com os conceitos bitrem e tritrem. No bitrem o peso bruto total (pode chegar a 74 toneladas no bitrem e 91 toneladas no tritrem). Acompanhar acidentes rodoviários de monta sempre há veículos destes envolvifos.

A Guerra Híbrida Interna desgasta e consome preciossa energia e recursos que o país não possui. É o caso do transporte urbano. O primeiro registro de incêndio proposital de ônibus urbanos no Brasil aconteceu no Rio de
Janeiro, durante protestos realizados em 1987. Segundo dados da Associação Nacional das Empresas
de Transportes Urbanos (NTU), nos últimos cinco anos, no Brasil, em média, um ônibus foi incendiado a cada dois
dias. O documento aponta que, até agosto de 2025, foram incendiados, de forma criminosa, mais de 4.900 ônibus no país

Isso precisa mudar.

Preparar a população para emergências não significa promover alarmismo ou militarização da sociedade. Significa reconhecer que o mundo mudou e que Estados responsáveis precisam estar prontos para responder a crises inesperadas. Sistemas de alerta urbano, redes de comunicação de emergência e exercícios periódicos de proteção civil deveriam fazer parte da infraestrutura básica de segurança nacional.

No campo militar, a situação é igualmente preocupante. As Forças Armadas brasileiras enfrentam há anos um processo contínuo de envelhecimento de equipamentos, limitações orçamentárias e atrasos em programas estratégicos. Em diversos casos, unidades operam com estoques de munição limitados, equipamentos obsoletos e capacidade operacional reduzida.

A realidade da guerra moderna exige prontidão, logística robusta e capacidade industrial para sustentar operações prolongadas. Isso inclui estoques adequados de munição, modernização de equipamentos, investimento em novas tecnologias e fortalecimento da base industrial de defesa.

Mas essa discussão também exige uma mudança de prioridades dentro das próprias Forças Armadas.

Em um cenário estratégico cada vez mais instável, não faz sentido desperdiçar recursos escassos em iniciativas que pouco contribuem para a capacidade real de combate. Programas como a modernização de veículos blindados antigos, como o Cascavel, projetos administrativos ou institucionais que não agregam poder militar efetivo, manutenção de estruturas burocráticas ou investimentos em atividades periféricas — como museus aeronáuticos, inspeções administrativas sem impacto operacional ou projetos de desenvolvimento que se arrastam por décadas sem resultados concretos — precisam ser revistos com urgência.

O foco deve ser simples e direto: aumentar a capacidade de combate e a prontidão operacional.

Isso significa priorizar munição, logística, defesa antiaérea, guerra eletrônica, drones, defesa cibernética, proteção de infraestruturas críticas e a capacidade de operar em cenários de alta intensidade.

Também é fundamental que o Brasil redefina com clareza sua política de alianças e parcerias estratégicas. Em um ambiente internacional cada vez mais fragmentado, o país precisa saber exatamente quem são seus aliados confiáveis, quem são parceiros estratégicos de longo prazo e quem são apenas parceiros circunstanciais ou de conveniência. Segurança nacional não se constrói apenas com equipamentos, mas também com redes de cooperação militar, tecnológica e política capazes de garantir apoio em momentos de crise.

Essa reflexão deve orientar acordos de defesa, cooperação industrial, compartilhamento de tecnologia e interoperabilidade entre forças armadas.

Ao mesmo tempo, é necessário superar um problema estrutural antigo: a burocracia e o corporativismo institucional. Disputas internas sobre qual força deve operar determinado sistema ou possuir determinadas capacidades frequentemente atrasam decisões estratégicas. Em um cenário de crise real, esse tipo de disputa simplesmente não pode existir.

A defesa nacional exige integração entre Exército, Marinha e Força Aérea, planejamento conjunto e decisões rápidas. O foco precisa ser a capacidade de defesa do país, não a preservação de espaços institucionais.

Nesse contexto, a responsabilidade política é clara.

Cabe ao presidente da República, na condição de comandante em chefe das Forças Armadas, liderar um processo de revisão urgente da preparação nacional. Ao lado do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, e dos comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea, recai a responsabilidade de estabelecer uma agenda concreta de fortalecimento da defesa e da mobilização nacional.

Isso inclui revisar estoques estratégicos, acelerar programas de reaparelhamento, simplificar processos de aquisição militar e desenvolver um verdadeiro sistema nacional de preparação para emergências e conflitos.

Também será necessário tomar decisões rápidas e pragmáticas no campo do reaparelhamento. O Brasil precisa considerar aquisições emergenciais com entrega imediata, especialmente de meios essenciais para a defesa nacional. Isso inclui aviões de combate adicionais para reforçar a defesa aérea, veículos blindados sobre rodas e sobre lagartas para aumentar a mobilidade e o poder de choque das forças terrestres, além de navios de guerra capazes de ampliar a presença e a proteção marítima do país.

Nenhum país escolhe o momento em que uma crise internacional se transforma em ameaça direta. A história demonstra repetidamente que nações que ignoram os sinais de mudança no ambiente estratégico acabam pagando um preço elevado por sua falta de preparação.

A primeira fragata da Classe Tamandaré já está operacional? Tem a sua disposição um estoque de munições e mísseis? Foto – CCEM

O Brasil não precisa desejar a guerra. Mas precisa estar preparado para ela.

E há um ponto que não pode mais ser ignorado: informações e avaliações estratégicas produzidas pelos serviços de inteligência indicam que um cenário de crise ou conflito capaz de afetar diretamente o Brasil pode surgir muito mais cedo do que muitos imaginavam. Isso torna ainda mais urgente que o país abandone a complacência estratégica e comece, imediatamente, a preparar suas instituições, suas forças armadas e sua sociedade para enfrentar um mundo cada vez mais instável.

O disparo dos missil BVR Meteor a partir de um F-39E foi um marco porém são só dez aeronaves após 10 anos de contrato assinado. Os mísseis Diehl Iris-t não foram ainda testados. Foto FAB

Centauro anunciado pelo Exército até o momento não tem contrato assinado,

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