17 de Julho, 2014 - 09:16 ( Brasília )

Pensamento

Uma opção estratégica

A virada geopolítica brasileira não analisada ainda devidamente pela sociedade nacional é detalhada neste importante artigo de Luiz Carlos Azedo



Luiz Carlos Azedo
Colunista do Correio Braziliense

O Brasil se distancia dos Estados Unidos e da União Europeia para se aproximar politicamente da Rússia e da China. Perdeu o "complexo de vira-latas", dirão os porta-vozes do governo, mas entra numa briga de cachorro grande

O Brasil assinou ontem um acordo com a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul — os demais integrantes dos Brics — para a criação do chamado Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), com sede em Xangai, cujo objetivo será o financiamento de projetos de infraestrutura em países emergentes. É um contraponto ao Banco Mundial e o coroamento de uma guinada na política externa brasileira iniciada no governo Lula. O NBD terá o capital inicial de US$ 50 bilhões, divididos igualmente entre os membros fundadores.

Além da intensificação das trocas comerciais já existentes, o acordo abre uma nova possibilidade de financiamento para as grandes empreiteiras brasileiras que atuam no exterior, principalmente na África, e para a ampliação das exportações de commodities agrícolas e de minérios. A Índia terá o direito de indicar o primeiro presidente e, a Rússia, o presidente do Conselho de Governadores. O presidente do Conselho de Administração será um brasileiro. A África do Sul sediará o Centro Regional Africano do banco. Haverá rotatividade na presidência da instituição.

O Brasil se distancia ainda mais dos Estados Unidos e da União Europeia para se aproximar politicamente da Rússia e da China. Perdeu o "complexo de vira-latas", dirão os porta-vozes do Palácio do Planalto, mas entra numa briga de cachorro grande: a queda de braço da Rússia com os países da OTAN (Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e França, principalmente) por áreas de influência no Leste Europeu e a forte concorrência entre os EUA e a China pelo controle dos mercados afro-asiáticos.

Índia e África do Sul são importantes, mas não protagonizam a grande política mundial, atuam como coadjuvantes. Têm, porém, indiscutível peso regional e são players do Hemisfério Sul. O Brasil até agora não havia conseguido chegar a acordos com a Rússia e a China em relação a questões importantes para nossa diplomacia brasileira. Como a indicação de um nome de consenso para presidir o Banco Mundial ou a reestruturação do Conselho de Segurança da ONU, com a entrada do Brasil e da Índia no restrito grupo de países com poder de veto sobre decisões da guerra e da paz no mundo.

 

Aposta de risco

A presidente Dilma Rousseff fez uma aposta de risco ao aprofundar essa estratégia diplomática, que se sustenta nas contradições Norte-Sul. O acrônimo Bric foi uma criação do economista Jim O"Neil, do Goldman Sachs, num um estudo de 2001 intitulado "Building better global economic Brics". Ele acreditava que Brasil, Rússia, Índia e China, as chamadas potências emergentes, teriam um papel proeminente no desenvolvimento da economia mundial.

O"Neil excluiu a Coreia do Sul e o México desse conjunto por considerar esses países desenvolvidos e plenamente integrados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), criada em 1948 para gerir a reconstrução europeia (o Plano Marshall), sob os princípios da democracia e da economia de mercado.

O que o economista do Goldman Sachs não previu foi que o líder russo Vladimir Putin agarraria a tese com unhas e dentes para tirar a Rússia do isolamento e formar um novo bloco geopolítico, para o qual foi fundamental a inclusão da África do Sul, cuja economia nem de longe se equipara às dos demais integrantes do grupo. O país de Nelson Mandela, porém, tem um papel estratégico para o reposicionamento da África nas relações Norte-Sul.

Em tese, a formação do banco e a criação do fundo de estabilização de US$ 100 bilhões também são uma vitória da diplomacia brasileira. O novo presidente chinês, Xi Jinping, aderiu ao projeto. Com isso, foram criadas instituições de socorro aos países parceiros em caso de turbulências financeiras à margem do Fundo Monetário Internacional (FMI), que impõe rigoroso controle de contas públicas e outras exigências para liberar recursos.

Agora, quando governos da América Latina, da África e da Ásia estiverem com problemas temporários no balanço de pagamentos, poderão pedir recursos e recebê-los em dólares; em contrapartida, fornecerão sua moeda aos países contribuintes. Ou seja, a China, responsável por US$ 41 bilhões; o Brasil, a Índia e a Rússia, por US$ 18 bilhões cada; e a África do Sul, que entrou com US$ 5 bilhões.

Essa estratégia brasileira, porém, é objeto de grande polêmica nos nossos meios financeiros, empresariais e diplomáticos, pois distancia o Brasil dos Estados Unidos e da União Europeia. Ainda mais porque o Mercosul, para esses críticos, virou um entrave ao comércio do Brasil com os países desenvolvidos e à própria integração econômica latino-americana.

O recrudescimento dessas críticas decorre do fato de que as economias mais desenvolvidas começam a sair da crise global, enquanto os Brics enfrentam um cenário de baixo crescimento, com exceção da China. Mesmo assim, o gigante asiático, que é a segunda economia do mundo, reduziu o ritmo. Além disso, tornou-se um voraz concorrente da nossa indústria.


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