21 de Fevereiro, 2014 - 11:10 ( Brasília )

Aviação

André Borschberg: "Não vamos revolucionar a aviação a curto prazo"

Um dos inventores do primeiro avião tripulado totalmente movido a energia solar afirma que ainda levará um tempo para a tecnologia chegar à indústria, mas que o projeto já ajudar a mudar a mentalidade das pessoas

FELIPE PONTES
 (publicada originalmente: 29/10/2013)

O suíço André Borschberg, de 60 anos, se considera um privilegiado. Ao lado do compatriota Bertrand Piccard, um balonista, Borschberg desenvolveu e pilota o Solar Impulse, o primeiro avião tripulado totalmente movido a energia solar. “É possível voar ininterruptamente com ele”, afirma Borschberg. Desde 2010, o Solar Impulse já atravessou a Suíça, o Mediterrâneo e os Estados Unidos. Engenheiro formado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Borschberg, ao lado de Piccard, planeja dar uma volta ao mundo, a partir de março de 2015. “Um dos nossos sonhos é pousar o Solar Impulse no Brasil”, diz. No dia 25, ele deu uma palestra sobre inovação na Unicamp, em Campinas.

ÉPOCA – O que motivou o senhor a participar da criação do Solar Impulse?
André Borschberg –
A ideia de trabalhar com novos paradigmas para a aviação. Ele é o primeiro e único avião no mundo com autonomia ilimitada. Em tese, é possível voar ininterruptamente com ele. Nós somos os pioneiros.

ÉPOCA – O avião já sobrevoou a Suíça, o Mediterrâneo e atravessou os EUA de costa a costa. Qual é seu objetivo com esses voos?
Borschberg –
Há dois motivos. O primeiro é demonstrar que a tecnologia limpa pode fazer coisas consideradas impossíveis, como voar ilimitadamente. Também queremos ser uma inspiração para as pessoas buscarem novas alternativas diante de problemas. Nosso objetivo é passar uma mensagem positiva sobre o que podemos ser no futuro.

 

ÉPOCA – Qual é o próximo passo do projeto?
Borschberg –
Queremos dar uma volta ao mundo a partir de 2015. Ela levará cerca de 18 meses. No momento, estamos trabalhando na estratégia para fazer essa jornada. Um dos desafios atuais é criar um novo modelo do Solar Impulse, que deverá ficar pronto até fevereiro. Ainda temos de estudar questões técnicas como cruzar um oceano, sem opção de fazer um pouso de emergência. Planejamos fazer escalas em países importantes também. É bem provável que pousemos no Brasil. É um dos nossos sonhos apresentar o Solar Impulse para os brasileiros.

ÉPOCA – Se o Solar Impulse tem autonomia ilimitada, por que fez várias escalas para sobrevoar os EUA de uma costa a outra neste ano?
Borschberg –
Bertrand Piccard e eu poderíamos ter feito o trajeto sem escalas. Mas somos dois e, no avião, não podemos dormir nem descansar, porque só tem espaço para uma pessoa de cada vez. Então, decidimos não fazer voos com mais de 24 horas. Também queríamos mostrar nosso avião pelo país, especialmente para universidades e políticos. Nosso argumento sobre a importância da eficiência energética é importante para os EUA neste momento. Paramos em locais como Nova York, por ser uma cidade mítica. E no Vale do Silício, onde queríamos que companhias focadas no futuro, como o Google, vissem o que estamos fazendo. Todas as nossas escalas tinham alguma razão de ser. Foi uma missão de apresentação. O voo para quebrar recordes será o da volta ao mundo, quando atravessaremos os oceanos Atlântico e Pacífico.

ÉPOCA – O que o Solar Impulse representa para a aviação mundial?
Borschberg –
É o primeiro passo para uma nova era. É como a década de 1920, quando os aviões só tinham um piloto e não conseguiam cruzar o oceano. Novas tecnologias começam assim. Os primeiros aviões dos irmãos Wright (os americanos Orville e Wilbur, pioneiros da aviação no início do século XX com o brasileiro Santos Dumont) só voavam 800 metros de distância. Naquele momento os pioneiros ainda estavam tentando compreender como construir aviões maiores e mais rápidos. Para a aviação, nosso avião solar também é somente um começo. A indústria entenderá que levará ainda um bom tempo até que um avião use energia limpa desse jeito. Mas isso precisaria começar algum dia e com alguém. Não vamos revolucionar a aviação a curto prazo. Nossa missão agora é mudar a mentalidade das pessoas.

ÉPOCA – O senhor acredita que os irmãos Wright inventaram o avião? No Brasil, aprendemos que Santos Dumont foi o primeiro.
Borschberg –
É difícil de responder. Não sei se os irmãos Wright foram os primeiros. Eles testaram vários projetos e soluções para seus aviões e foram muito inteligentes e inventivos. Foram supostamente os primeiros a voar com um motor e se deslocar no ar por certo tempo. Também estou ciente do papel de Santos Dumont, que era extremamente criativo. É curioso notar como várias pessoas ao redor do mundo desenvolveram soluções para a aviação ao mesmo tempo, criando invenções similares.

ÉPOCA – O senhor se considera um explorador contemporâneo?
Borschberg –
Certamente. Exploro novas tecnologias e maneiras de usá-las. Um novo jeito de voar. Para dar a volta ao mundo, será preciso voar por 120 horas seguidas para atravessar o Pacífico. Serão cinco dias e cinco noites sem dormir. Ainda estamos treinando para conseguir isso. É um desafio mecânico e também humano.

ÉPOCA – A era tradicional dos exploradores já passou há muito tempo. Qual é a relevância desses voos?
Borschberg –
Sob um ponto de vista técnico, o mundo já foi explorado nos séculos XVIII e XIX. A exploração agora vai para muitas direções, e uma delas é descobrir novas maneiras de fazer as coisas. Nosso modo de vida não é mais sustentável em longo prazo. Temos de buscar opções para que as pessoas possam se deslocar a grandes distâncias sem queimar combustíveis fósseis.

ÉPOCA – Quantas horas de voo o Solar Impulse já acumulou até o momento?
Borschberg –
Cerca de 500 horas, o que é impressionante. Enquanto aviões tradicionais com esse tempo já apresentam problemas técnicos, o Solar Impulse continua se comportando muito bem. Ele foi projetado para responder dessa maneira.

ÉPOCA – Qual é a sensação de pilotar o Solar Impulse? Ele é mais complicado que aviões tradicionais?
Borschberg –
É muito boa. O piloto pode pilotar a até 9.000 metros, quase na mesma altitude que as outras aeronaves. Sem contar que ele armazena energia do dia para usar à noite. É uma experiência completamente diferente de um voo comum, limitado pela capacidade de combustível no tanque. Quando você tira energia do Sol durante o voo, o tempo no ar não é mais um problema. Nosso avião também faz pouquíssimo barulho, tornando o contato do piloto com o meio ambiente muito mais profundo.

ÉPOCA – O senhor pode revelar quanto ele custou?
Borschberg –
Primeiro é preciso entender que esse projeto tem o apoio de muitas companhias. Sem elas e sua experiência em determinados campos científicos e tecnológicos, não seria possível construir o Solar Impulse. Temos uma equipe grande de engenheiros e técnicos, e o financiamento do projeto como um todo nos últimos 12 anos, desde seu início, girou em torno de US$ 140 milhões.

ÉPOCA – Quais são as maiores limitações tecnológicas da equipe para desenvolver uma aeronave solar?
Borschberg –
A capacidade de voar à noite. Porque de dia é possível armazenar energia do Sol facilmente. É necessário guardar parte disso em baterias. Durante a noite, o avião tem de ser muito eficiente. O consumo da energia tem de ser reduzido. Graças a essa tecnologia, o avião consegue voar à noite e voltar a armazenar energia solar na manhã seguinte, reiniciando o ciclo e continuando seu trajeto quando escurecer novamente.

ÉPOCA – O senhor acredita que os voos do Solar Impulse possam se tornar lucrativos no decorrer do tempo?
Borschberg –
Fazemos missões pioneiras, de exploração. Mas é claro que nossos testes estão trazendo opções de aplicações de tecnologias para o futuro da aviação tradicional, como o funcionamento das baterias e o sistema de iluminação noturna eficiente. É possível que essas tecnologias sejam usadas em outras coisas. Mas tudo isso levará muitos e muitos anos.

ÉPOCA – Veremos voos comerciais com aviões movidos a energia solar algum dia?
Borschberg –
Piccard e eu seríamos malucos de dizer “não” e estúpidos de falar “sim”. Dos aviões dos irmãos Wright até Charles Lindbergh cruzar o Atlântico (em 1927) foram 25 anos. É difícil prever o que pode acontecer. Mas a aviação limpa poderá ter grande impacto no planeta.