A posse do novo presidente marca uma guinada ideológica, diplomática e securitária. O abandono da chamada “Paz Total” recoloca as Forças Armadas no centro da estratégia estatal, mas os primeiros ataques demonstram que recuperar territórios ocupados por guerrilhas, dissidências e organizações criminosas exigirá mais do que mudança de discurso. Para o Brasil, a transição abre uma relação necessária, porém politicamente distante do alinhamento existente entre Lula e Gustavo Petro.
Por Redação DefesaNet
(RDN) A posse de Abelardo de la Espriella como presidente da Colômbia, em 7 de agosto de 2026, foi organizada para marcar uma ruptura com o governo de Gustavo Petro. A escolha de Cali, fora do eixo político de Bogotá, a presença ostensiva das Forças Armadas, as manifestações religiosas e o discurso pronunciado no Batalhão Pichincha constituíram sinais calculados da nova orientação colombiana.
O contraste começou pela linguagem. Enquanto Petro definiu sua principal iniciativa de segurança como “Paz Total”, De la Espriella falou em ordem, autoridade, liberdade e combate ao narcotráfico. Diante das tropas, apresentou duas alternativas aos integrantes dos grupos armados: submeter-se à lei ou enfrentar a resposta das forças de segurança.
O novo presidente também declarou esgotada a opção de negociações com guerrilhas e organizações criminosas, anunciou a retomada da erradicação aérea de cultivos de coca, prometeu construir unidades penitenciárias de segurança máxima e indicou que pretende ampliar o emprego das capacidades militares contra grupos que exercem controle territorial.
A posse não representou, portanto, apenas a substituição de um presidente por outro. Foi a passagem de uma doutrina centrada no diálogo e nos cessar-fogos para uma estratégia que pretende recuperar a iniciativa do Estado por meio da pressão militar, do sistema penal e do bloqueio das economias ilícitas.
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Uma guinada ideológica na América do Sul
De la Espriella derrotou o senador Iván Cepeda, candidato ligado ao campo político de Petro, em uma eleição marcada pela polarização e por uma margem estreita. Sua vitória insere a Colômbia em um deslocamento político regional impulsionado pela insatisfação com a criminalidade, o baixo crescimento econômico e a deterioração da capacidade estatal.
A mudança é simultaneamente política, econômica e diplomática. O novo governo promete reduzir o tamanho da administração pública, congelar despesas, simplificar o sistema tributário, retomar a expansão dos setores de petróleo e gás e permitir modalidades consideradas “responsáveis” de fracking. No campo externo, pretende restabelecer a relação com Israel, fortalecer a aliança com os Estados Unidos e abandonar parte da aproximação de Petro com governos do chamado Sul Global.
O “Viva Israel” pronunciado durante a cerimônia pelo rabino-chefe da Comunidade Judaica Sefardita teve significado maior do que uma manifestação religiosa. Ele antecipou uma reversão da política adotada por Petro, que havia rompido as relações diplomáticas com Israel.
A presença de representantes religiosos judeus, evangélicos e católicos também demonstrou o peso político adquirido por setores conservadores. A cerimônia, contudo, provocou questionamentos sobre o equilíbrio entre liberdade religiosa e o caráter laico do Estado colombiano. Caberá ao novo governo demonstrar que sua identidade conservadora não substituirá as normas constitucionais nem transformará convicções religiosas em instrumento de exclusão política.
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A “Paz Total” como promessa, não como realidade
A expressão “Paz Total” foi o nome de uma política do governo Petro. Não correspondeu à situação efetivamente existente no território colombiano.
A iniciativa buscava estabelecer negociações simultâneas com o Exército de Libertação Nacional — ELN —, dissidências das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia — FARC —, estruturas paramilitares e organizações criminosas. Em tese, a proposta pretendia reduzir a violência, incentivar desmobilizações e ampliar a presença do Estado nas regiões historicamente abandonadas.
O problema não estava na busca pela paz, objetivo legítimo de qualquer governo. Estava na diferença crescente entre o nome da política e seus resultados concretos.
Relatório de segurança conhecido pela Reuters indicou que o contingente combinado das organizações armadas passou de aproximadamente 13 mil integrantes, em 2022, para cerca de 25 mil no primeiro semestre de 2026. Segundo a mesma apuração, um quarto dos municípios colombianos registrava presença ou atividade desses grupos.
O crescimento não pode ser atribuído exclusivamente a Petro. A fragmentação das FARC, a expansão do narcotráfico, a mineração ilegal e a ausência histórica do Estado são problemas anteriores ao seu mandato. Entretanto, os cessar-fogos e a redução da pressão militar criaram oportunidades que algumas organizações utilizaram para recrutar integrantes, reorganizar estruturas e ampliar o controle de corredores estratégicos.
O próprio governo Petro reconheceu, ainda em 2025, que grupos ilegais haviam crescido durante sua administração. Naquele momento, levantamento das autoridades de segurança apontava uma expansão de 45% desde meados de 2022, chegando a quase 22 mil integrantes. O então ministro da Defesa, Pedro Sánchez, admitiu que organizações armadas haviam explorado os processos de paz para aumentar sua presença territorial.
Houve resultados específicos que não devem ser ignorados, como apreensões de cocaína e períodos de redução de confrontos diretos. Isso, porém, não equivale a paz consolidada. A negociação diminuiu determinadas formas de violência, mas não desarticulou as economias ilegais nem garantiu o monopólio estatal da força.
A “Paz Total”, portanto, permaneceu como objetivo político e fórmula de comunicação. Não se transformou em realidade territorial.
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Quando a propaganda substitui o resultado
Governos frequentemente transformam metas legítimas em declarações definitivas. Anunciam ter acabado com a fome, pacificado regiões ou eliminado problemas sociais quando os próprios indicadores revelam que essas questões continuam existindo, ainda que apresentem melhora em determinados períodos.
Existe diferença entre reduzir a fome e afirmar que ela acabou. Da mesma forma, existe diferença entre diminuir alguns confrontos e declarar estabelecida uma “Paz Total”.
Uma política pública deve ser avaliada pelos seus resultados, não por sua denominação. Na Colômbia, a permanência das guerrilhas, o crescimento dos efetivos ilegais, a expansão das áreas de coca e o controle exercido sobre comunidades rurais demonstram que o Estado não havia alcançado a paz apresentada pelo governo anterior.
O uso político de expressões absolutas produz um problema adicional: dificulta a correção de rumos. Quando o governo passa a defender o slogan como parte de sua identidade, reconhecer falhas deixa de ser uma tarefa administrativa e transforma-se em derrota ideológica.
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Guerrilhas que preservaram a luta ideológica
A estrutura armada colombiana não pode ser classificada como fenômeno exclusivamente criminoso. O ELN mantém origem revolucionária, organização política, referências marxistas e a concepção de que a luta armada continua sendo instrumento legítimo de transformação do Estado.
Dissidências das FARC também preservam símbolos, discursos e métodos provenientes da antiga organização. Esses grupos rejeitaram ou abandonaram o acordo de 2016 e mantiveram estruturas militares em regiões onde a autoridade governamental é limitada.
A ideologia, entretanto, passou a coexistir com uma economia de guerra. Narcotráfico, extorsão, mineração ilegal, sequestro e controle de rotas fornecem os recursos necessários para armas, recrutamento, inteligência e corrupção.
O resultado é uma estrutura híbrida. A guerrilha utiliza discurso político para justificar sua existência, mas depende de atividades criminosas para sustentar sua capacidade operacional. Em alguns casos, a ideologia ainda exerce função central. Em outros, tornou-se cobertura para organizações progressivamente integradas ao narcotráfico.
Nem todos os grupos armados colombianos são guerrilhas ideológicas. O Clan del Golfo, por exemplo, possui características predominantemente criminosas e origem distinta do ELN e das dissidências das FARC. A política de segurança terá de distinguir os atores, suas estruturas de comando, fontes de financiamento e disposição real para desmobilização.
Tratá-los indiscriminadamente como interlocutores políticos concede legitimidade a organizações criminosas. Considerá-los apenas quadrilhas comuns, por outro lado, ignora a capacidade de controlar territórios, mobilizar comunidades e desafiar militarmente o Estado.
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O primeiro teste veio pelas estradas
Um dia depois da posse, um veículo carregado com explosivos foi detonado em um posto de pedágio na Rodovia Pan-Americana, no sudoeste colombiano. Dois seguranças sofreram ferimentos leves.
O Exército colombiano atribuiu o atentado a duas dissidências das antigas FARC que rejeitaram o acordo de paz de 2016. O ataque ocorreu na ligação entre os departamentos de Cauca e Valle del Cauca, cuja capital, Cali, havia sediado a posse presidencial.
Não existem elementos suficientes para afirmar que a ação tenha sido planejada especificamente como resposta à posse. A proximidade temporal, contudo, conferiu ao ataque um significado político inevitável. Enquanto o novo presidente prometia recuperar a autoridade, as dissidências demonstravam que continuavam capazes de interromper corredores rodoviários e atacar infraestrutura.
A explosão também confirmou que o desafio não começa em 2026. Nos meses anteriores à eleição, grupos rebeldes realizaram dezenas de ataques com explosivos e drones no sudoeste do país. Em abril, uma série de 26 ações atingiu localidades e vias próximas a Cali e Popayán.
Não se trata, portanto, de violência criada pela posse de De la Espriella. Trata-se de uma capacidade preexistente que o novo governo herdou e agora promete enfrentar por métodos diferentes.

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Coca, mineração e poder territorial
A sobrevivência das organizações armadas depende da existência de territórios onde o Estado não consegue exercer presença permanente. Nessas áreas, os grupos estabelecem regras, cobram taxas, controlam deslocamentos, recrutam jovens e exploram atividades ilegais.
Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime indicaram que a área cultivada com coca na Colômbia aumentou 10% em 2023, alcançando 253 mil hectares. A produção potencial de cocaína cresceu 53%, chegando a 2.664 toneladas.
Os números mostram que o enfrentamento não será resolvido apenas pela captura de comandantes. Enquanto a cadeia econômica permanecer operante, líderes mortos ou presos serão substituídos.
A estratégia de De la Espriella terá de combinar operações militares com inteligência financeira, controle de fronteiras, destruição de laboratórios, bloqueio das rotas e proteção às populações rurais. Também será necessário oferecer alternativas econômicas aos agricultores que dependem do cultivo da coca.
A erradicação sem presença estatal pode simplesmente deslocar plantações e laboratórios para outra região. A intervenção militar sem continuidade administrativa permite que os grupos retornem quando as tropas se retiram.
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Drones transformam a guerra interna
A difusão de drones comerciais adaptados para transportar explosivos representa uma das principais mudanças do conflito colombiano.
Em abril de 2026, três militares morreram em um ataque com drone em Ipiales, próximo à fronteira com o Equador. Autoridades atribuíram a ação aos Comandos de la Frontera, organização composta por antigos integrantes das FARC. O Ministério da Defesa colombiano havia registrado 115 ataques com drones contra tropas somente em 2024.
Esses equipamentos são relativamente baratos, acessíveis e difíceis de detectar em áreas rurais. Podem realizar reconhecimento, acompanhar deslocamentos, lançar explosivos e identificar posições policiais.
A nova doutrina exigirá investimento em sistemas antidrones, guerra eletrônica, inteligência de sinais, vigilância persistente e proteção das instalações militares e policiais. A promessa norte-americana de destinar US$ 1 bilhão em assistência de segurança ao novo governo poderá acelerar essa reconstrução, caso seja efetivamente implementada e aprovada.
A Colômbia possui forças experientes em contra insurgência, mas precisará adaptar doutrina e equipamentos a um ambiente no qual pequenos grupos podem produzir efeitos militares relevantes com tecnologia comercial.
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Brasil: reconhecimento institucional sem alinhamento político
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu à posse de De la Espriella. O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, que se reuniu em Cali com o vice-presidente José Manuel Restrepo.
Segundo o Itamaraty, Restrepo agradeceu a Lula pelo rápido reconhecimento do resultado eleitoral. O chanceler brasileiro reiterou a prioridade atribuída pelo Brasil às relações com a Colômbia e ao aprofundamento da cooperação bilateral.
A posição brasileira, até este momento, pode ser definida como institucionalmente correta, mas politicamente cautelosa. Lula reconheceu a decisão das urnas e enviou o principal responsável pela diplomacia brasileira, preservando a interlocução entre os dois Estados. Ao mesmo tempo, sua ausência contrastou com a presença de vários presidentes identificados com a guinada conservadora regional.
Não existe base factual para afirmar que Lula tenha rejeitado o novo governo colombiano. Também não seria correto ignorar que o presidente brasileiro mantinha maior proximidade política com Petro do que provavelmente terá com De la Espriella.
Essa diferença não pode contaminar os interesses permanentes do Brasil. Os dois países compartilham aproximadamente 1.645 quilômetros de fronteira, quase inteiramente amazônica. Narcotráfico, garimpo ilegal, contrabando de armas e organizações transnacionais atravessam essa região sem considerar afinidades partidárias.
O Brasil precisa manter cooperação em inteligência, controle aéreo, vigilância fluvial, operações de fronteira e combate às redes financeiras criminosas. Se o governo brasileiro reduzir a relação com Bogotá por divergência ideológica, estará comprometendo a própria segurança amazônica.
Da mesma forma, a Colômbia deverá reconhecer que o Brasil não adotará automaticamente todos os elementos de sua nova política externa, particularmente nos temas relacionados aos Estados Unidos e Israel.
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A autoridade necessária e os limites da força
De la Espriella está correto ao reconhecer que negociações sem fiscalização, prazos e pressão estatal podem permitir o fortalecimento das organizações armadas. Um cessar-fogo não pode funcionar como licença para recrutamento, ocupação territorial e expansão das economias ilegais.
A recuperação da autoridade estatal é necessária. Nenhum país pode aceitar que grupos armados imponham regras, controlem populações e substituam instituições públicas.
O contraponto está na crença de que a força, isoladamente, resolverá o conflito. A Colômbia já empregou intensa capacidade militar contra guerrilhas e cartéis. Obteve vitórias significativas, reduziu ameaças e enfraqueceu organizações, mas não eliminou as condições territoriais que possibilitam seu reaparecimento.
O novo governo precisará evitar três erros: confundir resultado tático com vitória estratégica, transformar oposição política legítima em inimigo interno e permitir que a urgência por segurança enfraqueça controles democráticos.
Autoridade não significa poder sem limites. Significa capacidade de aplicar a lei de forma permanente, previsível e subordinada à Constituição.

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A diferença entre discurso e capacidade
A doutrina anunciada por De la Espriella é mais ambiciosa do que as capacidades atualmente disponíveis. Parte da frota colombiana de helicópteros Black Hawk e Mi-17 encontrava-se indisponível devido à falta de peças e manutenção, reduzindo mobilidade e apoio às forças terrestres.
O país também enfrenta restrições fiscais, um Congresso dividido e organizações ilegais distribuídas por extensas áreas rurais. Reconstruir a capacidade de resposta exigirá tempo, recursos e integração entre Forças Armadas, Polícia, Justiça, inteligência e autoridades locais.
Operações ofensivas poderão desalojar grupos de determinadas regiões. Sem ocupação permanente, serviços públicos e alternativas econômicas, entretanto, o espaço será novamente preenchido por outra facção.
Os primeiros cem dias indicarão se existe uma doutrina estruturada ou apenas uma mudança de linguagem. Os indicadores relevantes serão a recuperação da mobilidade militar, a redução da presença territorial dos grupos, o bloqueio de suas fontes de financiamento e a proteção efetiva das comunidades.
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A ideologia mudou; o poder armado permanece
A eleição de Abelardo de la Espriella encerrou o ciclo político de Gustavo Petro e reposicionou a Colômbia no cenário regional. A nova administração pretende abandonar a negociação ampla, restabelecer relações com Israel, aprofundar a aliança com Washington e recolocar as forças de segurança no centro da ação estatal.
A ruptura ideológica é inequívoca. A alteração da correlação de forças no território, porém, ainda não ocorreu.
As guerrilhas que preservaram sua identidade política não abandonaram a luta armada. Ao contrário, associaram o discurso revolucionário a economias criminosas capazes de financiar sua sobrevivência. Outros grupos deixaram quase inteiramente a ideologia para trás e converteram-se em redes de narcotráfico dotadas de capacidade militar.
A chamada “Paz Total” não pacificou a Colômbia porque o Estado não recuperou plenamente os territórios, não destruiu as economias ilegais e não desmobilizou as principais organizações. O novo governo reconhece corretamente essa realidade, mas ainda precisa provar que sua política produzirá algo além de uma retórica oposta.
De la Espriella venceu a disputa política. Agora começa o confronto mais difícil: transformar autoridade anunciada em controle territorial, sem permitir que o necessário fortalecimento do Estado ultrapasse os limites do Estado de Direito.
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