A combinação de drones, minas, fortificações e vigilância permanente transformou a guerra em uma disputa de erosão. Moscou conserva a iniciativa e conquista terreno lentamente, enquanto Kiev impede uma ruptura operacional, mas enfrenta uma equação cada vez mais difícil entre efetivos, território, defesa aérea e apoio externo.
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Por Redação DefesaNet
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(RDN) A guerra na Ucrânia apresenta um aparente paradoxo. A Rússia sofre perdas humanas e materiais excepcionalmente elevadas, mantém operações ofensivas em diversos setores e emprega grande volume de drones, artilharia, mísseis e bombas planadoras. Ainda assim, as linhas de frente registram alterações relativamente pequenas diante da extensão do teatro de operações e dos recursos mobilizados por Moscou.
A percepção de imobilidade, contudo, precisa ser qualificada. A frente não está congelada. A Rússia continua conquistando terreno, principalmente no leste, mas seus ganhos permanecem majoritariamente táticos. Entre julho de 2025 e junho de 2026, as forças russas avançaram aproximadamente 3.100 quilômetros quadrados, equivalentes a cerca de 0,5% do território internacionalmente reconhecido da Ucrânia. Em julho de 2026, diferentes levantamentos situaram o ganho líquido russo entre 36 e 88 quilômetros quadrados.
Esses números demonstram que existe movimento, mas não uma ruptura capaz de desorganizar todo o dispositivo defensivo ucraniano. Moscou avança por erosão, enquanto Kiev procura transformar cada quilômetro cedido em um custo humano, material e econômico desproporcional para o atacante. O resultado é uma guerra de atrito na qual o controle territorial continua importante, mas já não é o único indicador de sucesso ou fracasso.

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O campo de batalha tornou-se transparente
A estabilidade relativa da linha de contato decorre, em grande medida, da transformação tecnológica do campo de batalha. Satélites, sensores acústicos, radares, interceptação de comunicações e milhares de drones de reconhecimento reduziram drasticamente a possibilidade de concentrar forças sem ser detectado.
Uma ofensiva de grande escala exige reunir blindados, infantaria, engenharia, defesa antiaérea, artilharia, combustível, munições e veículos de recuperação. Na Ucrânia, essa concentração produz uma assinatura que pode ser identificada antes mesmo de alcançar a linha de partida.
O espaço entre as posições russas e ucranianas passou a funcionar como uma extensa zona de vigilância e destruição. Drones FPV atacam veículos, peças de artilharia, depósitos, antenas, equipes logísticas e soldados isolados. Sistemas de guerra eletrônica procuram interromper essas aeronaves, mas também expõem suas próprias emissões e posições. Cada inovação produz uma contramedida, que por sua vez exige nova adaptação.
O efeito operacional é favorável à defesa. Mesmo quando o atacante rompe a primeira posição, precisa transportar tropas, munições e apoio através de áreas continuamente observadas. A dificuldade não está apenas em conquistar a trincheira inicial, mas em ampliar a brecha e manter o impulso antes que o defensor desloque reservas.
Foi exatamente essa capacidade de exploração que faltou tanto à Rússia em diferentes momentos da guerra quanto à Ucrânia durante sua contraofensiva de 2023.

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Minas, drones e fortificações bloquearam a manobra
A guerra demonstrou que o carro de combate não se tornou obsoleto, mas perdeu a liberdade de ação que possuía em ambientes menos vigiados. Blindados continuam essenciais para oferecer proteção, mobilidade e poder de fogo à infantaria, porém passaram a operar sob ameaça permanente de minas, drones, mísseis anticarro e artilharia de precisão.
Os extensos campos minados obrigam os atacantes a utilizar corredores previsíveis. Equipamentos de engenharia precisam aproximar-se da linha de contato para abrir passagens, tornando-se alvos prioritários. Quando uma viatura é destruída dentro de uma rota desminada, bloqueia o movimento das demais e oferece ao defensor tempo para concentrar fogos.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que as colunas blindadas foram substituídas, em muitos setores, por pequenos grupos de infantaria, motocicletas, quadriciclos e veículos leves. A Rússia utiliza formações reduzidas para diminuir a exposição, infiltrar soldados entre posições ucranianas e identificar pontos menos defendidos.
A dispersão aumenta a sobrevivência diante dos sensores, mas reduz a massa necessária para uma ruptura profunda. Pequenas equipes podem ocupar uma árvore, uma casa ou uma posição abandonada. Não possuem, porém, capacidade para avançar dezenas de quilômetros, sustentar corredores logísticos e derrotar reservas mecanizadas.
A própria adaptação destinada a reduzir perdas contribui, portanto, para limitar a velocidade da ofensiva.

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A Rússia substituiu a ruptura pela erosão
A estratégia russa atual não depende de uma única operação decisiva. Moscou pressiona simultaneamente diferentes setores, força a Ucrânia a movimentar reservas e busca tornar posições específicas progressivamente insustentáveis.
Esse método combina ataques de infantaria, drones, artilharia, bombas planadoras e ações contra as rotas logísticas. Em vez de atacar apenas a linha defensiva, as forças russas procuram atingir estradas, pontes, veículos de abastecimento, depósitos e postos de comando na retaguarda imediata. A posição ucraniana pode continuar intacta fisicamente, mas perde valor quando não consegue receber munição, evacuar feridos ou realizar a rotação das tropas.
As bombas planadoras representam um componente importante dessa estratégia. Lançadas por aeronaves que permanecem fora do alcance de parte da defesa antiaérea ucraniana, elas carregam grande quantidade de explosivos e podem destruir fortificações, edifícios e centros logísticos. A Ucrânia dispõe de poucos meios para interceptá-las depois do lançamento. A solução mais eficaz seria afastar ou destruir as aeronaves lançadoras, o que exige defesa aérea de maior alcance, caças, sensores e autorização para atacar bases e estruturas de apoio em profundidade.
Moscou não precisa necessariamente ocupar uma cidade em um ataque frontal. Pode degradar suas defesas, ameaçar os acessos e obrigar Kiev a escolher entre uma retirada organizada ou o risco de cercamento. O avanço permanece lento, mas evita parte das dificuldades encontradas nas grandes operações mecanizadas realizadas em 2022.

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O preço russo: perdas elevadas sem colapso imediato
As perdas russas são reais e extraordinariamente altas, mas sua quantificação exige cautela. Rússia e Ucrânia restringem dados próprios e ampliam as baixas atribuídas ao adversário. Além disso, o termo “baixas” reúne mortos, feridos, desaparecidos e militares temporariamente afastados, parte dos quais pode retornar ao serviço.
Um estudo publicado pelo Center for Strategic and International Studies estimou que, até o final de 2025, a Rússia havia sofrido aproximadamente 1,2 milhão de baixas, incluindo entre 275 mil e 325 mil mortos. Para a Ucrânia, a mesma análise calculou entre 500 mil e 600 mil baixas, com aproximadamente 100 mil a 140 mil mortos. Os valores posteriores são ainda maiores, mas permanecem sujeitos a ampla margem de incerteza.
As estimativas permitem sustentar que as perdas russas superam significativamente as ucranianas, embora não autorizem relações matemáticas excessivamente precisas. Afirmações de que Moscou estaria perdendo oito soldados para cada militar ucraniano, por exemplo, podem refletir períodos ou setores específicos, mas não devem ser automaticamente aplicadas a toda a guerra.
A Rússia também acumula milhares de equipamentos destruídos, danificados, abandonados ou capturados. Registros visuais demonstram perdas superiores ao inventário ativo que Moscou possuía antes da invasão em algumas categorias, especialmente carros de combate. Parte da capacidade russa foi recomposta por meio da reativação de estoques soviéticos, produção de novos veículos e adaptações de plataformas antigas.
A quantidade, contudo, não equivale integralmente à qualidade. Equipamentos retirados de depósitos frequentemente exigem reparos, possuem proteção inferior e utilizam sistemas eletrônicos menos avançados. Ainda assim, permitem substituir perdas e manter unidades em combate, mesmo com desempenho abaixo do padrão originalmente planejado.

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Por que as perdas não interrompem a ofensiva?
A capacidade de absorver baixas depende menos do número absoluto de mortos e feridos do que da relação entre perdas, recrutamento, treinamento e reposição de equipamentos.
A Rússia possui população superior à da Ucrânia, maior base industrial e capacidade financeira para oferecer contratos militares com remuneração elevada em regiões economicamente vulneráveis. Moscou também distribui de maneira desigual o custo social da guerra, recrutando proporcionalmente mais homens em áreas periféricas e entre grupos com menor capacidade de influência política.
Esse modelo reduz, até certo ponto, o impacto da guerra sobre os grandes centros urbanos. O Kremlin evita uma mobilização geral que poderia produzir maior resistência interna e procura compensar as perdas por contratos, bônus regionais, recrutamento prisional e outras formas de incorporação.
Há sinais, entretanto, de deterioração. Em junho de 2026, estimativas citadas pelo Institute for the Study of War indicavam que as forças russas sofriam aproximadamente 35 mil baixas mensais, diante de um recrutamento próximo de 27 mil homens por mês. Caso essa diferença se torne estrutural, Moscou precisará elevar os incentivos financeiros, reduzir os requisitos de ingresso, ampliar a mobilização ou diminuir o ritmo das operações.
Isso não significa colapso imediato. Um exército pode continuar atacando mesmo com saldo negativo durante determinado período, utilizando reservas já formadas, transferindo tropas de outros comandos ou reduzindo efetivos em setores considerados secundários. O problema surge quando as substituições deixam de compensar a perda de experiência, coesão e capacidade de comando.
A Rússia ainda consegue repor quantidade. Sua dificuldade crescente está em preservar qualidade.

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A equação ucraniana: trocar espaço por tempo sem perder o exército
A Ucrânia procura impor uma relação de atrito desfavorável à Rússia. Isso significa utilizar fortificações, drones, artilharia e contra-ataques locais para aumentar o custo de cada avanço russo.
A estratégia apresenta lógica militar, mas contém um limite demográfico. Mesmo quando perde menos soldados, a Ucrânia suporta um impacto proporcionalmente maior devido à sua população menor, ao deslocamento de milhões de pessoas e à competição entre as necessidades das Forças Armadas, da economia e da indústria.
Unidades da linha de frente enfrentam déficit de pessoal, dificuldades de rotação, desgaste de veteranos e redução do recrutamento voluntário. A mobilização tornou-se politicamente sensível, enquanto o treinamento de novos soldados precisa acompanhar a velocidade com que são enviados para formações pressionadas.
A substituição numérica não resolve integralmente o problema. Um combatente recém-incorporado não possui imediatamente a experiência de um sargento, operador de drone, engenheiro, artilheiro ou comandante de pequena unidade com anos de guerra. Assim como acontece com os equipamentos russos, a reposição de quantidade pode ocultar perda de qualidade.
A decisão ucraniana não pode ser simplesmente defender cada povoado até o último homem. Posições de baixo valor operacional precisam ser comparadas ao custo necessário para mantê-las. Retiradas planejadas podem preservar brigadas e atrair o adversário para novas áreas preparadas. Retiradas tardias, ao contrário, aumentam o risco de cerco, desorganização e perda de equipamentos.
O desafio de Kyiv é ceder o mínimo de território sem consumir as forças necessárias para a defesa das cidades e eixos realmente decisivos.

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Por que uma nova grande contraofensiva permanece improvável?
Uma ofensiva ucraniana de grande escala exigiria superioridade local em tropas, engenharia, munição, guerra eletrônica, defesa antiaérea e apoio aéreo. Kiev ainda não dispõe dessa combinação em quantidade suficiente.
A contraofensiva de 2023 demonstrou as limitações de empregar brigadas mecanizadas contra defesas escalonadas sem domínio do espaço aéreo. Veículos ocidentais elevaram a proteção e a sobrevivência das tripulações, mas não eliminaram minas, drones, helicópteros de ataque, artilharia e obstáculos anticarro.
Caças F-16 e outras plataformas ocidentais ampliam as opções da Ucrânia, mas sua presença não representa automaticamente superioridade aérea. A aviação ucraniana precisa operar diante de sistemas antiaéreos russos de longo alcance, grande número de aeronaves adversárias e restrições na disponibilidade de armamentos, manutenção e pilotos.
A Ucrânia também não pode concentrar reservas ofensivas sem enfraquecer outros setores. A Rússia mantém pressão ao longo de uma frente extensa justamente para impedir que Kyiv reúna massa suficiente em um único eixo.
Nessas condições, uma grande ofensiva poderia repetir o problema de 2023: forças valiosas expostas a um dispositivo defensivo preparado, com resultados territoriais inferiores ao custo humano e material.

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Moscou está vencendo ou apenas adiando uma derrota estratégica?
A interpretação favorável à Rússia sustenta que Moscou conserva a iniciativa, possui superioridade demográfica e industrial e continua ampliando o território ocupado. Mesmo ganhos modestos podem tornar-se relevantes quando acumulados durante vários anos. A pressão constante também aumenta o desgaste político e social da Ucrânia, cuja capacidade de resistência depende de apoio externo sujeito a eleições, disputas orçamentárias e outras crises internacionais.
Nesse cenário, o Kremlin não precisaria conquistar rapidamente toda a Ucrânia. Bastaria demonstrar que pode sustentar a guerra por mais tempo, tornando o custo da resistência progressivamente mais elevado para Kiev e seus parceiros.
O contraponto é que os avanços russos permanecem extremamente caros e operacionalmente limitados. Conquistar aproximadamente 0,5% da Ucrânia em um ano, com dezenas de milhares de baixas mensais, não representa uma marcha inevitável para a vitória. A Rússia ainda precisa enfrentar áreas urbanas fortificadas e o cinturão defensivo de Donetsk, incluindo Sloviansk, Kramatorsk, Druzhkivka e seus acessos.
As cidades oferecem ao defensor posições, cobertura e oportunidades de canalizar o movimento inimigo. Uma operação para conquistar esse complexo exigiria muito mais do que infiltrações de pequenas equipes. Seria necessário reunir forças, atravessar áreas abertas, sustentar logística e combater em ambiente urbano, precisamente as condições nas quais o atacante volta a se tornar mais visível e vulnerável.
A Rússia, portanto, está avançando, mas ainda não demonstrou capacidade para transformar ganhos táticos em colapso estratégico ucraniano. A Ucrânia está resistindo, mas tampouco possui, no presente, os meios necessários para libertar militarmente a maior parte dos territórios ocupados.
Nenhuma dessas duas constatações autoriza declarar vitória.

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A opção dos ataques profundos
Diante das limitações terrestres, Kiev ampliou os ataques contra a retaguarda russa. Drones de longo alcance têm sido utilizados contra refinarias, depósitos de combustível, fábricas, bases aéreas, centros logísticos, ferrovias e instalações militares.
O objetivo não é apenas destruir alvos. A campanha procura elevar o custo da guerra, reduzir receitas energéticas, interromper cadeias de abastecimento e obrigar Moscou a deslocar sistemas de defesa antiaérea para proteger áreas distantes da frente.
Cada bateria posicionada em torno de uma refinaria, base ou centro industrial deixa de reforçar outros setores. O efeito estratégico dos ataques profundos está, em parte, nessa redistribuição forçada de recursos.
Existem, porém, limites claros. Drones carregam ogivas menores do que mísseis de cruzeiro ou balísticos e nem sempre provocam danos permanentes. Instalações industriais podem ser reparadas, enquanto a dimensão territorial da Rússia oferece redundância e dispersão.
A campanha profunda produz desgaste econômico e militar, mas dificilmente substituirá a necessidade de defender o território ucraniano. Ela deve ser entendida como parte de uma estratégia integrada, e não como mecanismo isolado capaz de decidir a guerra.

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Defesa aérea e indústria: a frente estratégica além das trincheiras
A guerra já não é decidida exclusivamente na linha de contato. Ataques russos contra energia, transportes, indústrias e centros urbanos procuram reduzir a capacidade econômica da Ucrânia e pressionar sua população.
A escassez de interceptadores representa uma das vulnerabilidades mais importantes de Kiev. Drones de ataque relativamente baratos podem ser enfrentados por sistemas de menor custo, interferência eletrônica, canhões e drones interceptadores. Mísseis balísticos, entretanto, exigem sistemas especializados, como o Patriot, disponíveis em quantidades limitadas.
Utilizar um interceptador caro contra cada drone também é economicamente insustentável. A Ucrânia precisa construir uma defesa em camadas, reservando os meios mais sofisticados para ameaças que não podem ser neutralizadas por alternativas mais baratas.
O apoio externo permanece indispensável, mas Kiev busca reduzir sua dependência por meio da produção própria de drones, mísseis, munições, sistemas eletrônicos e plataformas terrestres não tripuladas. A continuidade da guerra dependerá cada vez mais da capacidade de transformar inovação de campo em produção industrial padronizada.
A mesma lógica vale para a Europa. Entregar sistemas existentes resolve necessidades imediatas, mas não garante sustentabilidade. Sem contratos plurianuais, ampliação de fábricas, estoques de componentes e capacidade de manutenção, o apoio político anunciado não se converte integralmente em efeito operacional.

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As opções reais da Ucrânia
A alternativa militar mais coerente para Kiev, no curto e médio prazo, é uma defesa ativa baseada na preservação de efetivos, construção de posições sucessivas, emprego massivo de drones e contra-ataques limitados contra forças russas expostas.
Essa opção não significa passividade. A defesa ativa busca contestar a iniciativa adversária, atingir sua logística, recuperar áreas quando surgem oportunidades e impedir que pequenas penetrações sejam consolidadas. O objetivo central é negar à Rússia a ruptura, preservando forças para momentos mais favoráveis.
A segunda dimensão consiste em ampliar os ataques contra a infraestrutura militar e econômica que sustenta as operações russas. Refinarias, depósitos, bases, redes ferroviárias, centros industriais e sistemas de comando produzem efeitos mais duradouros do que ataques de valor meramente simbólico.
A terceira prioridade é reorganizar a mobilização e a gestão de pessoal. A tecnologia pode reduzir a exposição da infantaria, automatizar determinadas tarefas e ampliar a eficiência dos fogos, mas não elimina a necessidade de soldados para ocupar, defender e recuperar terreno. Kiev precisa melhorar treinamento, rotação, liderança e previsibilidade do serviço, além de reduzir a distância entre unidades bem equipadas e formações com déficit de efetivos.
A quarta opção é diplomática. Um cessar-fogo poderia interromper parte das perdas, mas congelaria o controle russo sobre áreas ocupadas e permitiria a Moscou reorganizar suas forças. Sem garantias militares verificáveis, rearmamento ucraniano e algum mecanismo de dissuasão externa, uma trégua poderia representar apenas uma pausa operacional.
Por outro lado, rejeitar indefinidamente qualquer negociação também apresenta custos. A Ucrânia precisa avaliar não apenas a legitimidade de seus objetivos territoriais, mas a relação entre tempo, população, capacidade industrial, apoio externo e probabilidade real de alcançá-los militarmente.

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Contextualização estratégica: uma guerra entre capacidades de reposição
O conflito ultrapassou a disputa territorial imediata e tornou-se uma competição entre sistemas nacionais e coalizões industriais.
A Rússia aposta em população, volume de produção, centralização política e tolerância a perdas. A Ucrânia depende de maior eficiência operacional, inovação tecnológica, apoio internacional e capacidade de impor custos desproporcionais ao adversário.
Os países europeus, por sua vez, enfrentam uma escolha estratégica. Se o apoio permanecer irregular, Kyiv será obrigada a administrar escassez e priorizar apenas os setores mais ameaçados. Se a assistência for transformada em política industrial de longo prazo, a Ucrânia poderá estabilizar a frente e elevar o custo russo a níveis mais difíceis de sustentar.
Quem ganha com a prolongação é o ator capaz de manter produção, recrutamento e coesão política por mais tempo. Quem perde é aquele cuja retaguarda industrial ou social se deteriorar antes que os efeitos apareçam claramente no mapa.
A linha de frente, portanto, é apenas a expressão visível de uma disputa que envolve fábricas, orçamento, energia, demografia, inovação, alianças e vontade política.

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Implicações de médio e longo prazo
A manutenção do atual equilíbrio favorece uma guerra prolongada. A Rússia provavelmente continuará pressionando diversos setores, explorando unidades ucranianas enfraquecidas e tentando aproximar-se das cidades fortificadas de Donetsk. Seus avanços poderão aumentar se Kiev enfrentar rupturas no fornecimento de munições ou deterioração mais acentuada dos efetivos.
A Ucrânia deverá priorizar a sobrevivência de suas forças e evitar ofensivas amplas sem condições materiais adequadas. Operações locais, ataques profundos e guerra tecnológica oferecem melhor relação entre custo e resultado do que uma tentativa prematura de ruptura mecanizada.
No plano industrial, o conflito acelerará a produção de drones, munições vagantes, sistemas de guerra eletrônica e interceptadores de baixo custo. A experiência ucraniana também está alterando doutrinas militares fora da região, ao demonstrar que plataformas caras precisam operar conectadas a redes de sensores, proteção eletrônica, defesa aérea e capacidade permanente de reposição.
Politicamente, a duração da guerra aumenta a importância da coesão ocidental. Moscou não precisa necessariamente derrotar militarmente toda a Ucrânia se conseguir convencer parte de seus parceiros de que a resistência não produz resultados. Kyiv, em sentido oposto, precisa demonstrar que impedir a vitória russa já constitui um resultado estratégico, mesmo quando o mapa muda lentamente.

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Uma guerra de erosão, não de imobilidade
As linhas de frente quase não mudam porque nenhum dos lados reuniu as condições necessárias para uma ruptura operacional. A Rússia possui maior massa humana, industrial e material, mas enfrenta a vantagem estrutural da defesa, a vigilância permanente dos drones e dificuldades para converter pequenos avanços em exploração profunda. A Ucrânia impõe perdas elevadas e preserva o núcleo de seu território, porém enfrenta limitações de efetivos, munições, defesa aérea e apoio externo.
A opção mais racional para Kiev não está em uma nova ofensiva de grande escala conduzida antes que existam condições favoráveis. Está na combinação entre defesa ativa, preservação das brigadas, ataques contra a retaguarda russa, fortalecimento industrial, mobilização mais eficiente e preparação de reservas capazes de explorar oportunidades futuras.
A guerra não está congelada. Ela foi transferida para uma escala em que dezenas de milhares de baixas, milhares de drones e enormes volumes de munição produzem alterações territoriais aparentemente modestas. A disputa central passou a ser outra: a Rússia tenta avançar antes que seu modelo de reposição se desgaste; a Ucrânia tenta elevar esse custo antes que a perda de território, população e apoio externo reduza suas próprias opções. O mapa muda lentamente porque a decisão estratégica está sendo disputada muito além dele.

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