COBERTURA ESPECIAL - Ecos - Guerras, Conflitos, Ações - Geopolítica

10 de Dezembro, 2021 - 09:09 ( Brasília )

Iraque: a guerra que espalhou violência e crises pelo mundo


Para muitos, foi uma guerra sem motivo. Em março de 2003, forças dos Estados Unidos e do Reino Unido iniciaram a Guerra do Iraque com um principal objetivo declarado: tomar e destruir as armas de destruição em massa do regime de Saddam Hussein.

Após bombardear o Iraque, iniciando o que o governo americano batizou de Operação Liberdade Iraquiana, os dois países ocuparam o território iraquiano.

Não encontraram, entretanto, as tais armas de destruição em massa. Os governos americano e britânico tiveram de aceitar que Saddam Hussein dissera a verdade quando alegou não possuir os armamentos.

O principal motivo da guerra não existia. É possível afirmar que a Guerra do Iraque foi a mais importante do século 21. Envolveu duas grande potências mundiais contra um influente país árabe localizado no coração do Oriente Médio.

Outras grandes potências e manifestantes no mundo todo tentaram impedi-la, sem sucesso. O conflito durou oito anos, entre a invasão em 2003 e a saída das últimas tropas de combate dos Estados Unidos, em 2011.

A guerra facilitou o fortalecimento ou surgimento de grupos armados, considerados como terroristas por países ocidentais, e gerou grande ressentimento contra o Ocidente em boa parte das populações árabe e muçulmana.


Causas da guerra

Para entender as origens do conflito, é preciso voltar à década de 1980. Entre 1980 e 1988, os vizinhos Irã e Iraque disputaram uma guerra que deixou cerca de 2 milhões de mortos, segundo algumas estimativas.

Na Guerra Irã-Iraque, o governo iraquiano, comandado pelo presidente Saddam Hussein, recebeu o apoio de potências ocidentais, interessadas em enfraquecer o regime iraniano. O motivo: em 1979, a revolução que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi, do Irã, levou à implantação de uma república islâmica xiita no país.

No mesmo ano, Saddam Hussein assumiu a Presidência do Iraque - função que exerceria por mais de duas décadas como um ditador, usando uma repressão violenta para suprimir qualquer tipo de dissidência interna. Ao invadir o território do vizinho e iniciar o conflito, Saddam representou os interesses tanto do Ocidente como dos regimes árabes sunitas, que temiam o fortalecimento do xiita Irã após sua revolução.

Terminada a guerra, que não teve vencedor, o presidente do Iraque desentendeu-se com outras lideranças árabes devido ao alto preço que o conflito tinha custado ao seu país - tanto em vidas humanas como na economia. Isso gerou disputas, envolvendo o preço do petróleo, que levaram Saddam Hussein a invadir o pequeno Kuwait, em 1990.

Com a invasão do Kuwait, Saddam, que anos antes recebera apoio do Ocidente, tornou-se inimigo tanto de seus vizinhos árabes como da comunidade internacional. Em 1991, na Guerra do Golfo, as forças de Saddam foram expulsas do Kuwait por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos, governado na época pelo republicano George Bush.

O líder do Iraque, porém, continuou no poder em Bagdá. Como Saddam Hussein havia desenvolvido armas químicas no passado - e usado os gases sarin e mostarda contra cidadãos iraquianos xiitas e curdos -, durante a década de 1990 a comunidade internacional pressionou o regime iraquiano para que permitisse a verificação de seu arsenal.

Após anos de pressão política via resoluções do Conselho de Segurança da ONU, sanções econômicas e até mesmo um violento bombardeio americano em 1998, ficou a dúvida se seu regime ainda tinha ou não armas de destruição em massa. Muitos acreditavam que sim e temiam que Saddam pudesse utilizá-las.

Outros argumentavam que suas armas químicas haviam sido destruídas ou simplesmente envelhecido. Seu poderio militar, segundo essas avaliações, tinha se enfraquecido enormemente após anos de sanções econômicas que empobreceram o país.

Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o governo americano passou a argumentar que as possíveis armas iraquianas poderiam não apenas ser usadas pelo Iraque, mas também cair nas mãos de grupos armados internacionais, como a Al-Qaeda. Saddam Hussein negava ainda manter armas químicas ou mesmo um programa nuclear - como foi argumentado por alguns na época -, e analistas apontavam para o fato de que o regime secular iraquiano era inimigo de militantes islamistas como Osama bin Laden. Isso não impediu que grande parte da população americana acreditasse em alguma ligação entre o líder iraquiano e o 11 de Setembro.

Segundo pesquisa do Instituto Gallup, de agosto de 2002, 53% dos americanos acreditavam que Saddam estava "pessoalmente envolvido" nos ataques em Nova York, Washington e Pensilvânia. A parcela dos que não acreditavam nessa tese era de 34%.

Outra pesquisa, feita pelo jornal The Washington Post em setembro de 2003, apontava que 69% dos americanos consideravam "pelo menos provável" a possibilidade de Saddam Hussein ter desempenhado "algum papel" nos atentados de 2001.

Nos últimos meses de 2002, o então presidente americano, George W. Bush - filho do presidente Bush que expulsou as forças de Saddam do Kuwait -, e o primeiro-ministro britânico, o trabalhista Tony Blair, formaram uma aliança por uma política agressiva contra Saddam Hussein. Bush e Blair defendiam que, caso o líder iraquiano não provasse ter destruído todo seu arsenal, uma ofensiva militar para derrubá-lo seria necessária.

Para Washington e Londres, o Iraque passou a integrar os objetivos do que ambos os governos chamavam de "guerra ao terrorismo". Em 22 de novembro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou a resolução 1441, que elevava a pressão sobre Saddam Hussein.

A medida dizia que o Iraque não havia "fornecido uma revelação precisa, total, final e completa" de todos os seus "programas para desenvolver armas de destruição em massa e mísseis balísticos" de grande alcance. Afirmava ainda que o Iraque continuava em "violação material" de suas responsabilidades, exigia que Bagdá desse acesso total aos inspetores da ONU e falava em "graves consequências" caso o país continuasse violando suas obrigações.

Estados Unidos e Reino Unido tentaram compor uma coalizão internacional ampla, como a que participava, desde 2001, da guerra no Afeganistão contra o Taliban. Essa aliança seria feita em torno de uma nova resolução do Conselho de Segurança que autorizaria uma ofensiva militar contra o Iraque.

Havia um problema: no início de 2003, o chefe da agência da ONU responsável por inspecionar o Iraque, o sueco Hans Blix, dizia que o Iraque estava colaborando com o trabalho de seus inspetores.

Desde a aprovação da resolução 1441, sua equipe trabalhava em território iraquiano buscando indícios de armas de destruição em massa, mas não encontrara nenhum. Blix afirmava precisar de mais tempo para uma avaliação definitiva, enquanto os Estados Unidos e o Reino Unido já se preparavam para uma invasão do Iraque, com tropas posicionadas na região.

Em 14 de fevereiro, manifestações pacíficas levaram milhões de pessoas às ruas, em diversos países e continentes, em protesto contra a possibilidade de um novo conflito militar.

No mês seguinte, o secretário de Estado americano, Colin Powell, fez uma dramática apresentação no Conselho de Segurança mostrando imagens e relatando informações que, segundo ele, provavam que Saddam Hussein tinha armas químicas e biológicas.

No entanto, a ideia de uma segunda resolução do conselho, aprovando a ação militar, foi abandonada quando França e Rússia posicionaram-se contra a guerra. No dia 19 de março de 2003, o presidente Bush anunciou, em mensagem pela televisão, que forças dos EUA haviam iniciado o bombardeio contra o Iraque. Devido ao poderio e à velocidade do ataque, os americanos chamaram a ofensiva de "shock and awe" - em português, "choque e espanto". Cerca de 150 mil soldados americanos foram enviados ao Iraque no primeiro mês.



Invasão e ocupação

A partir do início do ataque, que incluiu um intenso bombardeio de alvos em Bagdá, forças americanas rapidamente entraram no sul do Iraque, cruzando a fronteira com o Kuwait, e seguiram em direção à capital. Os britânicos usaram a mesma rota de entrada, mas permaneceram no sul do país, onde assumiriam o controle da cidade portuária de Basra, a mais importante do sul do Iraque.

Sem a participação de uma coalizão ampla, a invasão contou também com pequenos contingentes da Austrália e da Polônia. Outros países que apoiaram politicamente a guerra, como Espanha, Itália e Ucrânia, enviariam tropas ao país depois de iniciada a ocupação.

Menos de um mês depois do início da guerra, os americanos tomaram Bagdá, declarando ter controle da capital em 14 de abril. Outras cidades importantes, como Tikrit, Falluja e Ramadi, na região central, e Kirkut, no Curdistão (norte), foram tomadas pelas forças de ocupação. Saddam Hussein, no entanto, não foi encontrado. Em 1º de maio de 2003, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, o presidente George W. Bush fez um discurso em que declarou que, "na batalha do Iraque, os Estados Unidos e nossos aliados prevaleceram". Atrás dele, uma faixa dizia "Missão Cumprida".

Até então, a guerra já impusera um enorme custo humano ao Iraque. Levantamento do instituto americano Project on Defence Alternatives (Projeto sobre Alternativas de Defesa), divulgado em outubro de 2003, estimou que entre 10.800 e 15.100 iraquianos foram mortos nas semanas em que durou a invasão do país. Destes, entre 3.200 e 4.300 eram civis.

Com a queda do regime, começou a ocupação. Em 12 de maio, aterrissava em Bagdá o novo "administrador do Iraque", o americano Paul Bremer. No dia da chegada de Bremer ao país, a BBC News noticiou: "Vários bairros de Bagdá ainda estão sem eletricidade e água corrente, lixo se acumula nas ruas, e muitos comerciantes têm medo de reabrir seus negócios por causa de saqueadores".

A administração do país era conduzida a partir de uma área, no centro da capital, extremamente protegida e isolada do resto da cidade. Era conhecida como "Zona Verde".

A frustração dos iraquianos provocou ressentimento contra a ocupação americana, especialmente em cidades sunitas, como Tikrit e Fallujah, historicamente próximas de Saddam Hussein.

Episódios de violência das forças de ocupação contra a população civil - como a morte de pelo menos 13 iraquianos durante um protesto diante de uma escola em Falluja, em abril - fizeram muitos moradores se voltarem contra as tropas estrangeiras. Em maio, Bremer anunciou uma decisão que agravou a já delicada situação de segurança.

O administrador demitiu todos os soldados e funcionários públicos que fossem membros do Partido Ba'ath, o grupo político de Saddam que antes dominava todos os aspectos da vida no Iraque. A medida deixou dezenas de milhares de pessoas sem emprego ou função - um enorme contingente, do qual uma parte viria a engrossar a futura reação armada contra as forças americanas.



Insurgência e guerra civil

Ao longo de 2003, aumentou a insatisfação entre os iraquianos, que era cada vez mais demonstrada de forma violenta, com um número crescente de ataques contra soldados americanos em patrulha pelo país. O uso dos chamados IED - sigla em inglês para "equipamento explosivo improvisado" - contra forças estrangeiras tornou-se comum. Ao mesmo tempo, eram denunciados abusos das forças de ocupação.

Em junho de 2003, um relatório da Anistia Internacional chamou a atenção para a situação de "mais de 2 mil iraquianos" detidos pelo país e as condições na prisão de Abu Ghraib, próximo a Bagdá. "O notório presídio de Abu Ghraib, centro de tortura e execuções em massa sob Saddam Hussein, é novamente uma prisão isolada do mundo exterior", afirmava o documento.

A deterioração da situação levou a dois fenômenos que marcaram o período a partir de 2004: uma violenta insurgência contra a ocupação estrangeira e um estado de violência sectária entre as comunidades muçulmanas xiita - cerca de metade da população - e sunita - cerca de 40% e que dominava o país no regime de Saddam Hussein.

Em março de 2004, um novo episódio reforçou a posição de Falluja, parte do chamado Triângulo Sunita, como o centro da resistência à ocupação. Um comboio de veículos foi atacado por insurgentes, que mataram quatro agentes de segurança americanos privados, da empresa Blackwater.

Seus corpos foram queimados e pendurados numa ponte sobre o rio Eufrates. Em resposta, tropas americanas lançaram um ataque pesado contra a cidade ao longo de todo o mês de abril, mas o controle americano sobre Falluja só seria retomado numa nova sangrenta campanha contra a cidade, no fim de 2004. Também em abril, fotos mostrando situações de tortura e humilhação de prisioneiros iraquianos, muitos deles nus, na prisão de Abu Ghraib chegaram à imprensa - por intermédio da rede de TV CBS e da revista The New Yorker.

"Uma desumanização como essa é inaceitável em qualquer cultura, mas especialmente no Mundo Árabe", escreveu o autor da reportagem da New Yorker, Seymour M. Hersh. Em 28 de junho de 2004, os Estados Unidos devolveram o controle político e administrativo do país aos iraquianos, encerrando 1 ano e 3 meses de governo americano no país.

Paul Bremer deixou o cargo de administrador do Iraque, que passou a ser governado pelo primeiro-ministro interino Iyad Allawi, um representante da comunidade xiita.

A parte sunita da população, que perdeu a posição dominante desfrutada durante o regime de Saddam Hussein, sentiu-se discriminada pela nova ordem. Tal sentimento e a crescente percepção de que o novo governo iraquiano era altamente corrupto facilitaram a eclosão do período de guerra civil entre sunitas e xiitas.

O risco de uma guerra civil entre as comunidades ficara claro em março de 2004, quando cerca de 150 xiitas foram mortos em explosões suicidas durante o festival religioso de Ashura, em Kerbala e Bagdá. Semelhantes atentados suicidas passaram a ser realizados com frequência pela organização sunita Al-Qaeda no Iraque, comandada pelo jordaniano Abu Musab al-Zarqawi.



Primeiras eleições

Em 30 de janeiro de 2005, os iraquianos foram às urnas na primeira eleição geral desde a derrubada de Saddam Hussein. O pleito, que elegeu os 275 membros da Assembleia Nacional provisória, foi considerado histórico por iniciar o processo democrático no Iraque, mas também reforçou a divisão entre xiitas e sunitas. Sem confiança no novo regime, grande parte da população sunita boicotou a eleição - ou não votou por questões de segurança.

O resultado consolidou o poder nas mãos dos xiitas, com a vitória da Aliança Iraquiana Unida, grupo apoiado pelo principal clérigo xiita do país, o aiatolá Ali Sistani. Um novo premiê, Ibrahim Al-Jaafari, foi escolhido, e uma nova Constituição foi escrita. Em abril, Jalal Talabani foi escolhido pela Assembleia presidente do Iraque, o primeiro curdo a ocupar o posto.

Depois da aprovação da Carta em um plebiscito nacional, em outubro de 2005, uma segunda eleição foi realizada em dezembro, para a formação do definitivo Conselho de Representantes do Iraque.

Os resultados foram semelhantes aos de janeiro, mas dessa vez a comunidade sunita não boicotou o pleito. Nas negociações para a formação do governo, porém, o nome de Jaafari foi rejeitado por parte da coalizão, e o vice de seu partido, o xiita Nouri al-Maliki tornou-se o novo premiê iraquiano.

O processo eleitoral ocorreu em meio a um agravamento do conflito envolvendo grupos sunitas, milícias xiitas, tropas de ocupação americanas e britânicas e forças do novo governo. Em março de 2006, a entidade Iraq Body Count (IBC) divulgou um balanço de civis mortos, desde a invasão até o fim de 2005, que mostrava um aumento significativo da violência.

Segundo o IBC, de 1º de maio de 2003 a 19 de março de 2004, 6.331 civis iraquianos haviam morrido. Entre 20 de março de 2004 e 19 de março de 2005, esse número chegou a 11.312. Já entre 20 de março de 2005 e 19 de março de 2006, 12.617 civis foram mortos no Iraque.

Apesar da deterioração da segurança, porém, uma nova estrutura política do Iraque estava formada. O país conseguira realizar duas eleições gerais e aprovar sua nova Constituição em um plebiscito nacional. O Iraque tinha um novo sistema político, baseado em consultas populares.



Impacto fora do Iraque

Enquanto a violência se espalhava em território iraquiano, a guerra tinha impacto político e na segurança em várias partes do mundo. Um ano depois da invasão do Iraque, em 11 de março de 2004, uma série de explosões atingiu quatro trens de passageiros em Madri, capital da Espanha.

Os ataques, que mataram 191 pessoas e deixaram quase 2 mil feridos, ocorreram três dias antes das eleições para o Parlamento. O então primeiro-ministro espanhol, o conservador José María Aznar, disse inicialmente à imprensa local que o grupo armado basco ETA era responsável pelos ataques.

Especialistas, entretanto, diziam que as características das explosões - bombas acionadas de forma coordenada, sem aviso prévio - não apontavam para o ETA, mas sim para a Al-Qaeda ou algum outro grupo islamista. Espanhóis tomaram as ruas em protesto contra os atentados e exigindo do governo transparência nas investigações.

Muitos diziam que as autoridades não estavam dizendo a verdade sobre o ocorrido. Um dia antes das eleições, as primeiras prisões indicavam a responsabilidade de militantes islâmicos, sem relação alguma com o grupo basco.

No domingo, 14 de março, os espanhóis foram às urnas, e a expectativa era de que os atentados influenciassem o resultado. Durante a manhã, o Ministério da Justiça disse ter descoberto um vídeo que dizia que a Al-Qaeda havia organizado as explosões, como vingança pela participação da Espanha na ocupação do Iraque.

Alguns integrantes do governo, porém, ainda diziam que o ETA poderia estar envolvido. Quando vieram os resultados do pleito, Aznar e seu partido foram derrotados, e a oposição socialista assumiu o governo. Em 2007, 21 dos 28 presos foram condenados pelos atentados, a maioria deles marroquinos com conexões islamistas.

A guerra do Iraque também teve grande impacto político no Reino Unido. Parceiro de George W. Bush na invasão e ocupação do Iraque, o premiê Tony Blair foi acusado por muitos de ter mentido sobre as verdadeiras razões para a guerra. Em julho de 2003, uma polêmica reportagem de rádio da BBC sugeria que um relatório de inteligência sobre as supostas armas de destruição em massa iraquianas havia sido produzido sob influência política do governo, que negava a acusação.

Após ser exposto pela imprensa como a fonte da reportagem, o cientista David Kelly, especialista em guerra biológica a serviço do ministério de Defesa britânico, se suicidou. Apesar da queda de popularidade que o episódio e a guerra lhe causaram, em maio de 2005 Tony Blair foi reeleito para um terceiro mandato como primeiro-ministro.

A Guerra do Iraque, entretanto, continuaria a assombrar os britânicos. Em julho de 2005, quatro britânicos muçulmanos provocaram quatro explosões suicidas na capital, Londres - três delas em trens do metrô e uma em um ônibus. Além dos quatro suicidas, 52 pessoas foram mortas, e cerca de 800 ficaram feridas.

Duas semanas depois, houve uma tentativa frustrada de novos ataques, em que bombas colocadas no metrô não explodiram. Com o país em estado de alerta máximo, o brasileiro Jean Charles de Menezes foi confundido com um suspeito pela polícia londrina e morto a tiros por policiais dentro de um vagão do metrô.

A rede Al-Qaeda indicou ter ligação com os ataques, e um dos suicidas gravara um vídeo dizendo que eles eram vingança contra bombardeios de países muçulmanos. Mas o premiê Tony Blair negava que a invasão do Iraque tivesse levado aos atentados. Em junho de 2007, após dez anos como primeiro-ministro, Blair renunciou ao cargo, entregue a seu colega de partido e ministro da Economia, Gordon Brown.

Na avaliação de muitos, se não fosse pela perda de popularidade causada pela Guerra do Iraque, Blair poderia ter ficado ainda mais tempo no poder. As reverberações políticas também chegaram aos Estados Unidos. Em 2006, ano em que o número de soldados americanos mortos no Iraque atingiu 3 mil, cresceu a insatisfação da população americana com o conflito.

A morte do líder da Al-Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi, num ataque aéreo americano em junho, foi uma rara boa notícia. Apesar da bem-sucedida operação, logo depois uma pesquisa da rede CNN mostrava que a maioria dos americanos continuava pessimista.

A CNN informou, em 13 de junho de 2006, que 54% acreditavam que a guerra ia "muito mal" ou "moderadamente mal", contra 43% que acreditavam que seguia "muito bem" ou "moderadamente bem". A pesquisa mostrava ainda que, para 55% dos americanos, a invasão do Iraque fora um erro - 40% diziam ter sido acertada.

A guerra do Iraque, afinal, continuou sem seu principal motivo declarado. As supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein nunca foram encontradas porque não existiam.

Em agosto de 2006, em entrevista coletiva, o presidente Bush falou publicamente sobre Saddam não ter nem os armamentos nem relação alguma com o 11 de Setembro. Bush, porém, tentou justificar a guerra em outros termos. "A principal razão pela qual nós entramos no Iraque foi que, na época, nós pensávamos que ele tivesse armas de destruição em massa. Acontece que ele não tinha - mas ele tinha a capacidade de fabricar armas de destruição em massa. Mas eu também falei do sofrimento humano no Iraque e da necessidade de avançar a pauta da liberdade."

Quando um repórter lhe perguntou, "Mas o que o Iraque tinha a ver com o ataque ao World Trade Center?", Bush respondeu: "Nada. (...) Ninguém jamais sugeriu, neste governo, que Saddam Hussein encomendou o ataque". O clima negativo nos Estados Unidos, incluindo protestos de rua em cidades americanas, repercutiu nas urnas.

Nas eleições de novembro de 2006, em que parte do Congresso americano foi renovada, o Partido Republicano, de George W. Bush, perdeu o controle das duas Casas. Tanto a Câmara dos Representantes como o Senado passaram a ter maioria do Partido Democrata, de oposição, uma derrota de grandes consequências para o presidente.

Bush substituiu seu secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, um dos personagens mais associados à invasão do Iraque - e que já vinha sendo criticado, até por militares, pela situação dramática naquele país árabe. A queda de Rumsfeld significava que Bush aceitara a necessidade de mudar de estratégia. Sem armas de destruição em massa nem segurança ou paz, os Estados Unidos precisavam encontrar uma maneira de sair do Iraque.

Morte de Saddam, escalada e retirada Saddam Hussein foi detido pelas forças de ocupação em dezembro de 2003, num esconderijo subterrâneo próximo a Tikrit, sua região natal. Ele foi entregue às autoridades locais para ser julgado por inúmeros crimes que cometeu contra a população iraquiana enquanto estava no poder, processo iniciado no segundo semestre de 2004.

No julgamento, cujas sessões eram transmitidas ao vivo pela televisão à população, o ex-ditador do país questionou o processo. Ao lado de outros integrantes do regime, disse que seu julgamento era ilegítimo e que os juízes iraquianos estavam sendo manipulados pelas forças de ocupação.

Após ser declarado culpado, ele foi condenado à morte. Em 30 de dezembro de 2006, Saddam foi executado por enforcamento, numa cena gravada em vídeo e exibida no mundo todo. Sua morte, no entanto, assim como sua captura três anos antes, não resultou em avanços na situação de segurança.

No início de 2007, o conflito sectário no Iraque vivia seus piores momentos, com uma série de atentados a bomba - muitos suicidas, vários usando carros-bomba -, geralmente matando dezenas de civis, especialmente em Bagdá.

Mercados da comunidade xiita foram alvos de ataques, organizados pelo grupo Al-Qaeda no Iraque. Milícias xiitas, por sua vez, realizavam sequestros e assassinatos de membros da população sunita. Em Washington, Robert Gates assumiu o lugar de Rumsfeld como secretário de Defesa.

O resultado das eleições de novembro de 2006 significava que os americanos pediam o fim da guerra no Iraque, mas o governo concluiu que precisava, primeiro, reduzir os níveis de violência. O caminho escolhido pelo governo Bush foi o envio de 30 mil soldados adicionais, a maioria para Bagdá e região, o que ganhou o nome de "surge" - em português, "escalada".

Com o reforço, o tamanho do efetivo americano voltou aos níveis da invasão de 2003, cerca de 150 mil soldados - e 2007 foi um dos mais sangrentos períodos da guerra. Segundo o Brookings Institute, foi o ano com o maior número de soldados americanos mortos durante a ocupação: 904.

O de britânicos mortos atingiu 47, próximo dos 53 de 2003. O número de civis iraquianos que perderam a vida, 26.112, só ficou abaixo dos 29.526 de 2006. Até o número de jornalistas mortos no Iraque foi o mais alto em 2007, um total de 32, igualando o recorde do ano anterior.

Em 2008 a violência começou a diminuir significativamente, com menos da metade de soldados americanos e civis iraquianos mortos. Também em 2008, nos Estados Unidos, os eleitores foram novamente às urnas, dessa vez para escolher o sucessor de George W. Bush.

Desgastado pelos anos de guerra no Iraque, o Partido Republicano foi tirado do poder. O senador democrata Barack Obama foi eleito e tornou-se o primeiro negro a ocupar a Casa Branca. Crítico da Guerra do Iraque, Obama prometera que, caso vencesse a disputa, colocaria um fim no conflito.

Sua primeira medida foi a manutenção de Robert Gates no cargo. Com a continuidade da mesma equipe no Departamento de Defesa, os Estados Unidos, juntamente com o governo iraquiano, conseguiram deixar o país menos instável.

As mortes, tanto de civis como de combatentes, caíram significativamente, especialmente a partir de 2009. Em abril daquele ano, os últimos soldados britânicos saíram do Iraque. Em 2010, os Estados Unidos encerraram sua participação em operações de combate, deixando apenas cerca de 50 mil soldados no país.

No dia 18 de dezembro de 2011, veio o esperado momento. Quase nove anos depois da invasão liderada pelos Estados Unidos, a agência Reuters noticiava: "Últimas tropas dos EUA deixam o Iraque, terminando a guerra". Apenas cerca de 150 soldados americanos ficaram no país, em funções de treinamento das forças locais.

Com um saldo de 120 mil civis iraquianos, 4.431 americanos, 179 britânicos mortos e um país parcialmente destruído, chegava ao fim o conflito cujo maior motivo não existia - e que a Reuters chamou de "a guerra mais impopular desde o Vietnã". O total de vidas perdidas foi estimado em pelo menos 200 mil, e o custo para os cofres americanos em pelo menos US$ 800 bilhões.

Para o Iraque, porém, o processo de pacificação - tanto de suas cidades como da política - seria lento e de resultado incerto. As lideranças xiitas haviam consolidado seu poder, mas parte dessa autoridade precisava ser compartilhada com curdos e sunitas, segundo a Constituição - convivência raramente tranquila. Militantes sunitas islamistas continuavam em operação e, anos depois, voltariam a ameaçar o país sob a bandeira preta do autodenominado Estado Islâmico. A Guerra do Iraque havia acabado, mas o Iraque continuaria em guerra.



Este artigo é parte da série "21 Histórias que Marcaram o Século 21", da BBC News Brasil.


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