A rendição de Colecchio-Fornovo como ato final da vitoriosa saga da Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial

Capa: General alemão Otto Fretter-Pico (cabeça baixa), Comandante da 148ª Divisão de Infantaria, se entregando ao General de Brigada febiano Falconiére.

Por General de Brigada André Luiz de Souza Dias e Coronel Julio Cezar Fidalgo Zary

Estamos nos últimos dias do mês de abril de 1945. A saga da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra Mundial se aproxima do fim. Aquele 15 de setembro de 1944 já parece uma data distante, quando o batismo de fogo do pracinha marcou sua busca incessante pelo contato com o inimigo, ao longo do vale do Serchio, até alcançar as primeiras resistências da famosa Linha Gótica.

Cada momento vivido no ardor do combate parece uma eternidade, dizia o soldado brasileiro, que estoico supera a tudo, irradiando sua costumeira inventividade e bom-humor para vencer os rigores de um inédito inverno europeu e ultrapassar os mais variados obstáculos.

Em 21 de fevereiro de 1945, o Monte Castello foi finalmente conquistado, após quatro tentativas, tornando-se o símbolo máximo da resiliência, da abnegação e da coragem do expedicionário na guerra. Quase dois meses depois, no dia 17 de abril, a Bandeira do Brasil tremulou vitoriosa no ponto mais alto de Montese.

A mais sangrenta das batalhas da FEB sinalizava, igualmente, a ruptura completa da defesa ítalo-germânica nos Apeninos. A planície do Pó, a partir de então, se descortina para os Aliados e começa uma verdadeira corrida contra o tempo.

De acordo com a denominada Operação Grapeshot, coube ao 5° Exército Americano, maior escalão enquadrante do contingente brasileiro, a missão de barrar a retirada das tropas do Eixo, antes que pudessem se evadir da Itália, através do Passo de Brenner.

A fase do aproveitamento do êxito na Itália seguia, pois, a pleno vapor. Ressalta-se que este tipo de operação ofensiva é desencadeada imediatamente após um ataque bem-sucedido, com o propósito de potencializar a desorganização do inimigo, evoluindo para a perseguição, cerco, destruição ou captura das forças adversárias.

Especificamente neste caso, os germânicos, em flagrante debandada, rumavam principalmente para a Áustria. Bologna, que de início era o objetivo aliado a ser conquistado “para o Natal de 1944”, só agora estava libertada. Seguiam sendo paulatinamente livradas das amarras nazifascistas outras importantes cidades: Verona, Pádua e Veneza, esta última no dia 21 de abril de 1945.

Fruto do rápido avanço, os partisans italianos, membros da resistência e que operavam por meio de sabotagem, espionagem e ataques surpresa, desencadearam uma revolta generalizada no norte da Itália, retomando Gênova, no dia 25 do mesmo mês.

Neste momento, as tropas germânicas tronavam-se progressivamente isoladas em diferentes pontos da Planície do Pó, padecendo envoltas em um cerco cada vez mais estreito, seja pela falta de meios de transportes, seja pela carência de munição e outros problemas logísticos.

O IV Corpo de Exército (IV C EX), pertencente ao 5º Exército e ao qual a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB (1ª DIE) estava diretamente subordinada, se deslocava acompanhando a costa italiana do mar da Ligúria.

Dentro desta ideia de manobra, coube aos febianos realizar o movimento rumo à Turim, passando por Parma e suas cercanias (as localidades de Colecchio e Fornovo), o que ocorreu efetivamente a partir de 23 de abril.

A cidade de Parma dista cerca de 120 km de Montese, por estradas, havendo sido percorrida pela 1ª DIE no prazo impressionante de uma semana, algo inimaginável, não fosse a fase da guerra. Ao sul de Parma, estão as localidades de Colecchio e Fornovo, respectivamente a 22 e 38 km de distância, pela via SS 62.

Informações obtidas por meio da Inteligência do IV C Ex davam conta da presença de milhares de combatentes e veículos blindados alemães nas cercanias de Parma, implicando a necessidade de uma rápida ação por parte do contingente brasileiro.

Deste feita, o 6° Regimento de Infantaria (6º RI), que integrava a 1ª DIE, sob a competente liderança do seu Comandante, o Coronel Nelson de Melo, articulou-se para o emprego, da seguinte forma: o I Batalhão, atuando na direção de Montecchio; o II Batalhão, para agir em San Michelle; o III Batalhão, seguindo rumo a Bosconcello; e o Esquadrão de Reconhecimento, comandado pelo Capitão Plínio Pitaluga, com a tarefa de realizar a flancoguarda oeste de todo o Regimento.

No dia 26 de abril de 1945, os expedicionários estabeleceram o contato com o inimigo e os ataques se sucederam. No dia 28, os embates já se alastravam por toda a frente.

Ao final daquele mesmo dia, a presença do Major Kuhn no posto de comando do 6º RI marcava o início da rendição alemã aos febianos. A partir de então, foram estabelecidas as tratativas e as providências correspondentes, para que o inimigo fosse apresentando nos locais determinados.

A maioria dos alemães capturados eram da 148ª Divisão de Infantaria e da 90ª Divisão Panzergrenadier (infantaria blindada). Os italianos, eram oriundos da Divisão Bersaglieri.

O contorno final da rendição foi dado por números realmente impactantes: quase 15.000 combatentes; 4.000 cavalos; 2.500 viaturas; e 80 obuses de diversos calibres.

As atividades transcorreram sem intercorrências e os materiais foram entregues ordenadamente. Ao longo do processo, os adversários tiveram tratamento digno e lhes foram dispensados os cuidados necessários de saúde e bem-estar, característica ética e de nobreza sempre presente no combatente brasileiro, como sua marca registrada.

O primeiro comandante a se entregar foi o General Mário Carloni, seguido pelo General Otto Fretter-Pico, que foram entregues ao General de Brigada Falconiére da Cunha, para serem conduzidos à presença do General de Divisão Mascarenhas de Moraes e seguirem destino para Florença.

No dia 30 de abril, estava tudo encerrado.

Na fase final da Campanha da Itália, a FEB, mais um a vez, demonstrou sua capacidade de se adaptar e cooperar efetivamente com outros exércitos estrangeiros, a despeito de diferenças culturais e de idioma, em um ambiente de respeito e confiança mútuas.

Soldados alemães (alguns muito jovens), durante a rendição em Fornovo, juntos a um oficial da FEB, com o seu distintivo icônico da “Cobra Fumando” no braço esquerdo.

A Rendição de Colecchio-Fornovo, como passou para a história este memorável acontecimento, foi a maior ocorrida em todo o Teatro de Operações do Mediterrâneo, em termos de contingente.

A FEB, em realidade, colaborou de maneira significativa para a vitória aliada na fase final da campanha, conquistando paulatinamente a confiança dos escalões superiores, como expressão justa do reconhecimento ao mérito e ao esforço do soldado de Caxias.

O orgulho refletido no olhar de cada veterano, o brilho das medalhas de bravura pendentes no peito e, sobretudo, a consciência tranquila de quem jamais economizou uma gota sequer de suor e de sangue, em prol da liberdade e da democracia, são as credenciais definitivas que escrevem na pedra o valor do combatente brasileiro.

É dever cívico e militar lembrar a cada ano estes feitos maravilhosos da história do País. A cobra segue fumando e os heróis expedicionários jamais serão esquecidos.

Military Police (MP) brasileiro, da Companhia de Polícia Militar da FEB, na guarda de prisioneiros de guerra alemães, no final de abril de 1945.

Sobre os Autores:

GENERAL DE BRIGADA ANDRÉ LUIZ DE SOUZA DIAS – Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer, com sede em Santa Maria-RS. Nesta mesma Brigada, foi o Comandante da Companhia de Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado – Batalhão Cidade de Santa Maria, no biênio 2019-20. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os seguintes Mestrados Acadêmicos: em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil; em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha; e em Segurança, Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).

CORONEL JULIO CEZAR FIDALGO ZARY – Formado em 1997, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, é Assistente do Comandante Militar da Amazônia, cujo Comando tem sede em Manaus-AM. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, comandou o VII Contingente brasileiro na Missão de Paz na tríplice fronteira Líbano – Israel – Síria. Possui os Mestrados Acadêmicos em Operações Militares e em Ciências da Motricidade Humana, ambos no Brasil. É o atual Vice-diretor do Museu Virtual da Força Expedicionária Brasileira (MVFEB).

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