Os drones FPV (First Person View) chegaram para ficar. Mais do que uma nova categoria de armamento, eles representam uma transformação profunda na maneira como as forças militares identificam, acompanham e atacam seus alvos.
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
Os drones FPV (First Person View) chegaram para ficar. Mais do que uma nova categoria de armamento, eles representam uma transformação profunda na maneira como as forças militares identificam, acompanham e atacam seus alvos.
A guerra da Ucrânia demonstrou que pequenos drones, relativamente baratos e produzidos em grandes quantidades, podem produzir efeitos que anteriormente exigiam sistemas muito mais caros e complexos. Em determinadas missões, os FPV passaram a ocupar parte do espaço anteriormente reservado aos mísseis antitanque, à artilharia e até a determinados armamentos empregados diretamente pela infantaria.
Isso não significa que os mísseis antitanque ou a artilharia tenham perdido sua importância. Significa que o custo, a velocidade e a disponibilidade dos drones alteraram a equação econômica e operacional do combate.
Um míssil antitanque moderno pode custar dezenas ou centenas de milhares de dólares. Um FPV pode ser produzido por uma fração desse valor e, dependendo da missão, transportar uma carga capaz de destruir ou incapacitar um veículo, atacar uma posição defensiva ou atingir um combatente.
O mesmo fenômeno começa a afetar a artilharia.
Peças de 105 mm e 155 mm que empregam munições convencionais, como a M107, podem ficar expostas quando precisam operar relativamente próximas da linha de contato, ou seja dentro da área chamada de “kill zone”. Uma peça ou bateria detectada por drones de reconhecimento pode rapidamente se transformar em alvo de FPV quando situada dentro do alcance dos drones, ao redor de 30km.
O drone acrescentou uma nova dimensão a esse problema: a capacidade de transformar rapidamente praticamente qualquer alvo detectado em um potencial alvo de ataque de baixo custo.
Um FPV pode levar uma carga explosiva até um soldado, uma posição, um veículo ou outro equipamento por um custo comparativamente baixo. Isso modifica radicalmente a relação entre o custo do atacante e o valor do alvo.
A artilharia continuará sendo indispensável para produzir volume e profundidade de fogos. Os mísseis antitanque continuarão fundamentais para determinadas distâncias e alvos. Mas os drones criaram uma camada adicional de ataque extremamente flexível, capaz de encontrar, acompanhar e atacar rapidamente um alvo sem necessariamente empregar um sistema de armas tradicional.

Militares suecos e de mais 12 nações da OTAN aprendem a operar em um Teatro de Operações com Drones com instrutores ucranianos no Exercício Aurora 26 Foto OTAN
A transformação da cavalaria
Essa transformação não termina na infantaria ou na artilharia. Ela chegou à cavalaria e está obrigando os exércitos a repensar o próprio conceito do carro de combate.
Durante décadas, a evolução dos MBTs (Main Battle Tanks – Carro de Combate Principal) foi marcada pela busca por maior proteção, maior poder de fogo e blindagens cada vez mais pesadas e mobilidade, quando possível. A guerra dos drones, entretanto, demonstra que simplesmente aumentar a blindagem pode não ser a resposta mais eficiente.
Um carro de combate extremamente pesado, lento e isolado continua sendo um alvo extremamente valioso para drones de reconhecimento e ataque.
No campo de batalha moderno, sobrevivência não depende apenas de blindagem. Depende também de mobilidade, agilidade, consciência situacional, capacidade de detectar a ameaça e de operar integrado a outros sistemas.
O MBT precisa ser suficientemente protegido, mas também suficientemente ágil para manobrar, mudar rapidamente de posição e evitar permanecer exposto depois de ser localizado.
E, principalmente, não poderá combater sozinho.
O emprego do carro de combate deverá estar cada vez mais integrado aos IFVs (Veículos de Combate das Infantaria), à infantaria, aos drones de reconhecimento e ataque, à guerra eletrônica, aos sensores e aos sistemas de defesa antidrone.
Nesse contexto, o IFV ganha uma importância ainda maior. Ele não será simplesmente o veículo que transporta a infantaria que acompanha o tanque. Será parte integrante do sistema de proteção e sobrevivência da força blindada, contribuindo com sensores, poder de fogo, mobilidade e capacidade de enfrentar ameaças que podem atingir o MBT.
O conceito é simples: um MBT isolado pode ser um alvo; um MBT integrado a uma força blindada conectada é um sistema de combate.
Por isso, o futuro da cavalaria não deve ser medido pela quantidade de toneladas de blindagem de um carro de combate, mas pela capacidade de toda a formação de detectar primeiro, decidir primeiro, manobrar rapidamente, atacar e sobreviver.
A guerra dos drones está mostrando que talvez seja mais importante ter um carro de combate ágil, móvel, conectado e integrado aos IFVs e à infantaria do que simplesmente colocar cada vez mais toneladas de blindagem sobre ele.
O tanque não desapareceu. O tanque isolado, lento e desconectado é que está se tornando cada vez mais vulnerável.
O alerta para o Brasil
É justamente por isso que o Brasil precisa olhar para os FPV com seriedade. Não se trata de uma moda passageira ou de uma tendência de feira de defesa. Trata-se de uma tecnologia que já está alterando a relação entre custo, alcance, precisão, velocidade e risco humano no campo de batalha.
Mas é justamente nesse ponto que surge um alerta.
A quantidade de drones FPV e munições vagantes que vêm sendo apresentados pela Base Industrial de Defesa (BID) às Forças Armadas brasileiras não pode ser confundida com maturidade operacional.
Antes que qualquer sistema seja adquirido em quantidade, ele precisa ser submetido a uma avaliação operacional realista e independente.
Não basta demonstrar que o drone voa, transmite imagens e consegue atingir um alvo em um campo de provas. É necessário descobrir se ele continuará funcionando quando estiver submetido à guerra eletrônica, à perda ou degradação de GNSS, à interferência das comunicações, às condições meteorológicas adversas e às contramedidas de um adversário preparado.
A experiência e utilização no teatro de operações da Ucrânia deveria ser justamente o parâmetro para essa avaliação.
Os drones empregados naquele conflito são constantemente modificados para enfrentar novas técnicas de guerra eletrônica, novos sensores, sistemas antidrone e outras contramedidas. Surgiram novas frequências, diferentes sistemas de navegação e drones controlados por fibra óptica para reduzir a vulnerabilidade aos sistemas de interferência.
Se até os sistemas empregados diariamente em combate precisam ser continuamente modificados para sobreviver, qual é a experiência operacional dos sistemas que estão sendo apresentados no Brasil?
Quantas horas de operação real possuem? Foram empregados em combate? Qual é sua taxa de perdas? Como se comportam diante da guerra eletrônica? Qual é sua taxa de acerto contra alvos móveis? Quanto tempo o fabricante leva para incorporar uma atualização? Existe capacidade de produção em massa? Qual é o custo real de operação durante uma campanha prolongada?
Essas perguntas são muito mais importantes do que simplesmente saber quantos quilômetros o drone consegue voar.
Não se pode confundir protótipo com capacidade militar.
Um sistema pode funcionar perfeitamente em uma demonstração controlada e fracassar diante de um inimigo que esteja tentando deliberadamente neutralizá-lo.
Também existe o risco de transformar uma tecnologia que evolui em meses em um programa de aquisição que se estenda por décadas.
O drone comprado hoje pode estar tecnologicamente ultrapassado amanhã.
O caminho para o Brasil
Por isso, o Brasil não precisa apenas comprar drones. Precisa construir uma capacidade nacional de guerra de drones.
E talvez exista um caminho mais inteligente para chegar a esse objetivo.
Em vez de tentar desenvolver sozinho, do zero, uma tecnologia que está sendo aperfeiçoada diariamente em uma guerra de alta intensidade, o Brasil poderia estabelecer uma cooperação estratégica com um fabricante que já forneça sistemas às forças ucranianas.
O objetivo não seria simplesmente importar drones.
Seria utilizar um sistema já comprovado em combate como plataforma de aprendizagem para o Exército Brasileiro, permitindo desenvolver doutrina, treinar operadores, estabelecer requisitos, compreender as necessidades de manutenção e logística e, simultaneamente, criar condições para que a indústria nacional absorva tecnologia e conhecimento.
Seria uma ponte entre a experiência adquirida no campo de batalha e a capacidade industrial brasileira.
Empresas nacionais poderiam participar progressivamente da cadeia de produção, manutenção, integração, desenvolvimento de componentes e evolução do sistema.
O objetivo final deveria ser nacionalizar progressivamente a capacidade, e não nacionalizar rapidamente um produto imaturo.
Essa diferença é fundamental.
O Brasil possui uma Base Industrial de Defesa capaz de desenvolver sistemas sofisticados. O problema é que experiência de combate não pode ser adquirida em uma feira, em uma demonstração comercial ou em alguns testes de campo.
Ela é construída enfrentando problemas reais: guerra eletrônica, perda de enlace, navegação degradada, contramedidas, falhas de equipamentos, dificuldades logísticas, treinamento de operadores e necessidade permanente de atualização.
A Ucrânia acumulou essa experiência ao custo de uma guerra.
O Brasil pode e deve aprender com ela.
Por isso, diante da velocidade de evolução dos drones FPV, seria mais prudente começar com uma solução comprovada, estabelecer uma parceria tecnológica e construir progressivamente uma capacidade nacional, do que gastar anos e recursos desenvolvendo um sistema que poderá descobrir suas limitações somente quando for empregado em uma guerra.
Outro ponto que anda em paralelo com o drone e sua aplicação no campo de batalha é a transformação da estrutura e mentalidade de comando para o emprego de drones. Manobras realizadas na OTAN, simulando operações contra tropas ucranianas, enviadas especialmente para o exercício foram um choque.
Texto oficial da OTAN atenuando o choque:
“Operadores de drones experientes das Forças Armadas da Ucrânia estão colocando as forças da OTAN à prova no exercício Aurora 26 — uma manobra de grande escala na Suécia que envolveu mais de 18.000 militares de 13 países.
Trabalhando em estreita colaboração com operadores de drones do Exército Sueco, as forças ucranianas utilizam diversos drones de reconhecimento e ataque para testar as forças aliadas, que precisarão se adaptar a essa nova ameaça. Um oficial do Exército Sueco afirmou que as tropas estão sendo empregadas deliberadamente sem tecnologia antidrone, permitindo que os planejadores de defesa avaliem o impacto da guerra com drones sobre tanques e veículos de combate de infantaria.”






















