Encerramento da missão militar da coalizão transfere a responsabilidade operacional a Bagdá, mas a autonomia iraquiana dependerá da contenção do Estado Islâmico, da proteção do Curdistão e do controle sobre milícias vinculadas ao Irã
Redação DefesaNet
(RDN) A conclusão da retirada das forças americanas e dos equipamentos da base aérea de Erbil, em 30 de setembro de 2026, encerrou a missão da Operação Inherent Resolve no Iraque e transferiu às autoridades nacionais a responsabilidade principal pela segurança do país. Segundo o Comando Central dos Estados Unidos, o movimento integra uma transição planejada para uma relação bilateral de defesa. A estrutura conjunta da operação permanece ativa, agora sediada na Jordânia, com continuidade da campanha contra o Estado Islâmico na Síria. www.dvidshub.net
O significado estratégico da retirada será determinado pela capacidade de Bagdá de sustentar operações antiterroristas, proteger seu território e subordinar os diferentes atores armados a uma cadeia de comando efetiva. A saída das tropas estrangeiras atende a uma demanda de soberania, mas abre uma etapa na qual o governo iraquiano terá de demonstrar que consegue exercer essa soberania também sobre as armas existentes dentro de suas fronteiras.
A questão central envolve duas ameaças distintas: a persistência de redes clandestinas do Estado Islâmico e a autonomia de milícias ligadas ao Irã. A primeira desafia a capacidade de prevenção e repressão do Estado. A segunda coloca em disputa a própria autoridade para decidir quando, onde e contra quem empregar a força.
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Da presença militar à cooperação bilateral
A retirada resulta de um entendimento firmado em 2024, durante o governo Joe Biden, e executado pela administração Donald Trump. Washington anunciou que continuará oferecendo treinamento direcionado e apoio de inteligência aos parceiros iraquianos. O encerramento da missão, portanto, modifica o instrumento de cooperação sem eliminar todos os vínculos de segurança. www.reuters.com
Essa distinção tem consequências operacionais. Uma força instalada no território dispõe de acesso cotidiano às unidades locais, conhecimento acumulado das áreas de atuação e estruturas próprias de proteção e sustentação. A assistência bilateral dependerá de acordos, mecanismos de compartilhamento de informações e procedimentos que assegurem continuidade à cooperação.
O Reino Unido confirmou igualmente a saída de seus militares e anunciou uma nova fase de parceria, abrangendo contraterrorismo, educação militar, desenvolvimento de capacidades e colaboração industrial de defesa. A mudança abre espaço para relações menos condicionadas por uma missão de guerra e mais voltadas à formação de instituições nacionais. www.gov.uk
O resultado dependerá da execução. Compromissos diplomáticos precisam se converter em recursos disponíveis, manutenção, formação de pessoal e acesso oportuno a informações. Uma parceria pode permanecer politicamente sólida e, ainda assim, oferecer apoio insuficiente diante de uma emergência operacional.

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Estado Islâmico: a ameaça persiste após a derrota territorial
O Estado Islâmico perdeu o território que sustentava seu autoproclamado califado, mas preserva células clandestinas. Por isso, o risco de reorganização deve ser distinguido de uma recuperação imediata da capacidade de conquistar e administrar grandes áreas. A existência de redes remanescentes exige vigilância, sem justificar a apresentação de uma nova expansão territorial como inevitável. apnews.com
O problema militar está na continuidade da pressão sobre essas redes. Organizações insurgentes podem sobreviver com estruturas dispersas, explorando interrupções na vigilância, dificuldades de coordenação e áreas onde a presença estatal é irregular. Sua recuperação pode começar por recrutamento, financiamento clandestino e intimidação de comunidades antes de produzir alterações territoriais perceptíveis.
Nesse ambiente, o número de soldados representa apenas uma parte da capacidade necessária. Inteligência confiável, comunicações, mobilidade, sustentação logística e integração entre órgãos de segurança determinam a possibilidade de localizar ameaças e agir em tempo útil.
O CENTCOM sustenta que as forças iraquianas, incluindo os Peshmerga, possuem capacidade, liderança e independência operacional para administrar as ameaças ao país. Essa avaliação oficial fundamenta a transição, mas sua confirmação dependerá da regularidade e da eficácia das operações conduzidas sob responsabilidade iraquiana. www.dvidshub.net
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Milícias e a disputa pela autoridade nacional
As milícias vinculadas ao Irã apresentam um desafio diferente daquele representado pelo jihadismo. Sua influência já existe, e o possível ganho decorrente da retirada americana envolve a ampliação de sua capacidade de pressionar instituições e preservar decisões militares próprias.
Segundo a Associated Press, grupos poderosos resistiram às propostas de desarmamento, enquanto o governo adiou para junho de 2027 o prazo inicialmente estabelecido. A retirada americana foi concluída antes da resolução dessa disputa interna. apnews.com
Esse descompasso limita o alcance da narrativa de soberania. Um governo pode controlar formalmente seu território e continuar enfrentando atores capazes de iniciar confrontos, selecionar alvos e impor custos diplomáticos sem autorização nacional.
Para Teerã, o benefício potencial consiste em manter influência sobre decisões iraquianas por meio de aliados locais. Entretanto, a retirada americana não permite concluir que todas as escolhas de Bagdá passarão a obedecer aos interesses iranianos. O desfecho dependerá da capacidade do governo de negociar, fiscalizar e fazer cumprir decisões perante grupos com diferentes bases políticas e estruturas de poder.
O critério decisivo será a subordinação efetiva. Incorporar organizações a mecanismos administrativos, sem assegurar controle sobre armamentos, financiamento e emprego da força, pode preservar a fragmentação sob uma aparência de integração.

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Curdistão: a defesa aérea expõe uma lacuna concreta
A preocupação mais específica foi apresentada pelo Ministério dos Peshmerga. Em comunicado de 28 de setembro, a pasta advertiu que a retirada americana não seria acompanhada pela instalação de um sistema alternativo de defesa aérea e atribuiu ao governo federal a responsabilidade pela proteção futura contra ameaças aéreas. gov.krd
A advertência evidencia a diferença entre capacidade terrestre e proteção do espaço aéreo. Unidades aptas a patrulhar, controlar posições e combater células insurgentes podem continuar vulneráveis a drones e mísseis.
Substituir essa proteção exige mais do que adquirir interceptadores. Uma defesa aérea funcional depende de sensores, alerta antecipado, comunicações, pessoal treinado, manutenção e coordenação entre autoridades responsáveis. A definição de quem detecta uma ameaça, quem autoriza a resposta e quem sustenta o sistema é parte da capacidade militar.
A lacuna também pode produzir efeitos políticos e econômicos. A vulnerabilidade de instalações e serviços essenciais amplia custos de segurança e pode afetar a confiança na proteção oferecida pelo Estado. Para Bagdá, atender à demanda curda será um teste de responsabilidade federal e de integração da defesa nacional.
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Autonomia pode fortalecer a segurança
Os alertas sobre instabilidade precisam ser confrontados com os possíveis benefícios da retirada. A presença americana também gerava atritos e era alvo de ataques de milícias, contribuindo para inserir o território iraquiano nos confrontos regionais. Sua redução pode diminuir determinados focos de tensão. www.reuters.com
Uma transição bem sustentada pode fortalecer a legitimidade das instituições iraquianas e ampliar a responsabilidade dos dirigentes por decisões de segurança. Também pode tornar mais difícil justificar a manutenção de estruturas armadas autônomas exclusivamente pela presença de tropas estrangeiras.
O contraponto é que a ausência dessas tropas não desmobiliza automaticamente organizações que acumulam poder político e militar. Da mesma forma, a responsabilidade nacional não substitui capacidades técnicas que ainda precisem ser desenvolvidas.
Há, portanto, dois exageros a evitar: interpretar a retirada como garantia de estabilidade ou tratá-la como causa suficiente de um novo colapso. O fator determinante será a qualidade da transição entre os meios retirados, a capacidade nacional disponível e o apoio externo que permanecerá acessível.
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Os indicadores que definirão a transição
No médio prazo, a avaliação deverá acompanhar a frequência, a distribuição e a complexidade dos ataques do Estado Islâmico. Um aumento sustentado em várias áreas teria significado diferente de episódios isolados. Também será necessário observar se as forças iraquianas conseguem manter pressão preventiva, além de responder a atentados.
A coordenação entre unidades federais e Peshmerga será outro indicador central. Divergências políticas tornam-se vulnerabilidades militares quando prejudicam o compartilhamento de inteligência ou deixam responsabilidades territoriais indefinidas.
A proteção aérea do Curdistão permitirá medir a conversão de compromissos nacionais em capacidades operacionais. O processo de desarmamento das milícias, por sua vez, demonstrará até onde alcança a autoridade governamental. Mudanças verificáveis no controle de armas e nas cadeias de comando terão mais peso que novos prazos anunciados.
A retirada dos Estados Unidos encerra uma configuração militar, mas deixa em aberto a organização do poder armado no Iraque. Se Bagdá sustentar a contenção jihadista, proteger suas diferentes regiões e impor uma autoridade nacional sobre o emprego da força, a transição consolidará autonomia. Se essas funções permanecerem fragmentadas, a saída estrangeira poderá ampliar a distância entre soberania proclamada e segurança efetiva. O teste decisivo será a capacidade do Estado iraquiano de controlar as armas que permanecem no país.
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